Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

João Serra

 

Com o maior prazer participei do jantar de homenagem ao Doutor João Serra. Admiro-o desde que o conheci, sem tergiversações, e sei até que os seus detractores já me enfiaram no grupo dos seus indefectíveis, o que apenas me nobilita. A recente polémica sobre a fundação vimaranense de que é um dos administradores trouxe a esta iniciativa dos Rotários uma especial acutilância e coragem. Nesse âmbito, aquilo que sei acerca do que o João – ele permite-me que o trate assim – fez ao longo dos últimos meses para que tal situação, tamanha controvérsia, nunca se originasse não posso aqui divulgar, ainda que muito me apeteça. Sei que a sua despretensão e decoro sentir-se-iam desconfortáveis e nada faria que o importunasse.

 

Sei apenas que o conheço há muitos anos e que nunca houve qualquer razão para que ele me considerasse seu amigo. Mas considera. Sem motivos ulteriores, sempre me demonstrou uma amizade que me eleva. Não nos devemos nada um ao outro, mas teve já gestos comigo que me são inesquecíveis. O João é o mais inteligente de todos nós. O mais simples de nós. O mais culto de nós. O mais vivido de nós. O mais trabalhador. O mais diligente. O mais curioso. O mais versado. O melhor conselheiro. E é também o mais livre de nós. Se me dissessem que ele amanhã vai estar no Burundi, na Bolívia ou em Bogotá, nada disso me surpreenderia. É assim que o vejo e, assim de repente, penso que nada haja de mais empreiteiro do que invejar o saber do João.

 

Depois, o seu sentido de humor é freático e demolidor. A discrição e elegância dos seus silêncios não se compara. Fico muito contente por ter estado onde estive, sempre que o meu caminho se cruzou com o do João. Aprendi sempre, sempre, com ele. Aprendi, por exemplo, que o facto indesmentível de eu ser tão ignorante, ao seu lado, não é nada de que me deva envergonhar. Pelo contrário, esse é exactamente o lugar onde gosto de estar, porque tenho para mim que nada há de melhor do que sabermos ser os mais ignorantes da sala.

 

Obrigado, João, por todos estes anos de constante dádiva e generosidade. Agora diga-me: o que vai fazer a seguir? E depois disso? E depois?

 

Fotografia: João Jales

publicado por Rui Correia às 00:09
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9 comentários:
De Lúcio a 2 de Dezembro de 2010 às 14:59
"A recente polémica sobre a fundação vimaranense de que é um dos administradores trouxe a esta iniciativa dos Rotários uma especial acutilância e coragem"
Pois; "Virtutes paganorum, splendida vitia".
De Rui a 3 de Dezembro de 2010 às 11:07
Haverá porventura argumento mais reversível do que esse, caro Lúcio?
De isabelxavierix@gmail.com a 3 de Dezembro de 2010 às 00:00

Gosto deste post, Rui, até por não evitar os assuntos candentes.

Sou muito amiga do João que também é muito meu amigo.

A amizade é o principal da vida: isso e sermos estóicos. Aprendi com outro grande amigo que a vida já me levou. Esse amigo foi tão importante para mim que nunca mais fui a mesma desde o seu falecimento.

Agora tenho em maior conta a almizade e sei que ela é incondicional e que não é possível realizar solidariedade alguma em volta da maledicência, dos maus sentimentos.

Nem é preciso dizer que o João é o melhor de nós. Nós não temos qualquer tipo de comparação com ele. Há pessoas que dão a própria vida em sacrifício por aquilo a que se dedicam. Coloco o João Serra nessa categoria de pessoas. Tenho tido oportunidade de conhecer outras pessoas assim: vá-se lá saber porquê? Sou uma pessoa muito afortunada. Por isso sei do que falo.

Beijos

Isabel Xavier
De Rui a 3 de Dezembro de 2010 às 11:20
Estou de acordo com tudo, menos, evidentemente, com a parte em que "Nem é preciso dizer que o João é o melhor de nós. Nós não temos qualquer tipo de comparação com ele". Por duas razões: primeiro, porque é mesmo preciso dizer isso, sim senhor. Em segundo, porque todos temos, claro que sim, comparação com qualquer um outro de nós. São, aliás, indispensáveis, as comparações. Colocam-nos a todos uns e outros no lugar. Não sou, confesso, dado a êxtases ou arrebatamentos. Admiro as singulares primazias e respeito as irreprimíveis imperfeições de cada um. E, ao menos em matéria de imperfeições, sei do que falo.
De Cláudia a 3 de Dezembro de 2010 às 11:12
Pelas memórias do Sr. Rui.

Da Amizade

Trás no canto ,
a verdade.
Teu sorriso de amizade,
saudades, ei de ser...

Trás no pranto,
esta saudade.
Teu sofrer é de verdade,
amizade, ei de ser...

Amizade, amizade!
Regato de saudade,
em cada alvorecer.

Saudade, saudade!
Recato de amizade,
à cada entardecer.
De Lúcio a 3 de Dezembro de 2010 às 12:51
Sim, no caso o bispo de Hipona toleraria a inversa.
De Rui a 3 de Dezembro de 2010 às 13:49
Cada um de nós com as suas concupiscências. Epoché, à helena. Um abraço amigo do Rui Correia
De Cláudia a 3 de Dezembro de 2010 às 13:46
Fala como se pudesse,
evitar a memória,
que viva, mora na
história de cada ser.

Nada é seu,
nem a mim, pertence,
este nosso bem querer!

Apenas, que a esperança
desata nós e nomeia,
verdades ao esplandecer.
De Rui a 3 de Dezembro de 2010 às 13:51
A "esperança desata nós e nomeia verdades". Bem verdade, Cláudia.

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