Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

arte ricca

Revi no outro dia a peça “Fernão Mentes?” na RTP Memória, de que sou frequent flyer. Para quem não pôde conhecer esta monumental obra de arte cénica e a interpretação sumptuosa da Maria do Céu Guerra, informo que a tenho em VHS, gravada algures nos fins dos anos oitenta. Daquilo que mais me impressiona nesta encenação é a quase absoluta ausência de cenários e adereços. É uma peça sem meios. A não ser os que importa: actores, guião e encenação muito conhecedores. Conceber desta forma uma peça sobre a extraordinária viagem de Fernão Mendes Pinto, parece-me uma coisa de pura temeridade. E, no entanto, tudo aquilo flui na perfeição e é verosímil.

 

A mesma sensação tive-a no filme Henry V com o Kenneth Branagh. Ao ver a gigantesca batalha de Agincourt traduzida em filme com meia dúzia de actores, sem nunca sentir a falta de ninguém , convenci-me de vez, também aí, que só quem não puxa pela cabeça é que não faz o que quer que seja.

 

Fazer muito com quase nada, com materiais e soluções simples, livres, por oposição às grandes produções, comprometidas, é essa uma eventual remanescência do culto da Arte Povera, que ainda hoje anima fervorosos adeptos. Nem sempre por necessidade, mas por estilização, a arte povera é um culto dos silêncios, das ausências, dos vazios, um culto da vontade que resulta do trabalho e só do trabalho.

 

De vez em quando lembro-me disto em relação às escolas. Fazer muito com quase nada. Arte Povera. O novo modelo de gestão das escolas, ao proporcionar genericamente poderes espaçosos ao Director, permite transformar um agrupamento num reflexo espelhado de si mesmo, uma imagem da sua aptidão para o cargo. Ao nomear, por absoluto alvedrio seu, coordenadores de departamento, representantes de disciplina, subdirectores, adjuntos e assessorias, ou seja ao poder rodear-se daqueles que considera por mérito aqueles que melhor podem coadjuvá-lo a atingir um patamar de qualidade, o Director, na regulamentar solidão do seu exercício, não pode recorrer a qualquer absolvição. Nada o separa de um irreprimível sucesso. É que mesmo que faça escolhas horríveis, esse processo de escolha é sempre o seu. E o de mais ninguém. Desaparece-lhe, pelo resguardo e patrocínio que a lei lhe confere, qualquer salvatério que lhe permita assacar responsabilidades a outrem que não a si mesmo.

 

Quando me pergunto como foi possível, durante tantos anos, que uma escola tenha podido desenvolver tanto um projecto educativo sem que tantas atribuições fizessem parte da job description do seu Presidente de Conselho Executivo, chego a uma conclusão: ou tivemos uma escola à imagem do seu presidente executivo ou a democracia, essa coisa que hoje tanto se vilipendia, simplesmente funciona.

 

A escolha que se nos tem apresentado nos últimos tempos em matéria de gestão escolar parece poder formular-se do seguinte modo:

 

fazer quase tudo com quase nada ou fazer quase nada com quase tudo.

 

Mesmo que se trate de Arte Povera, nas artes como na vida das escolas, falamos de uma determinação. De uma renúncia inteligente. Não de uma limitação. Quem tem muito, adereços e cenários, quem pode fazer arte ricca, se não sabe o que fazer com tanta coisa, tarde ou cedo sai-lhe na rifa o inevitável: quase nada. E, para cúmulo, nem sequer é isso que é a pobreza franciscana.

publicado por Rui Correia às 14:28
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1 comentário:
De Cláudia a 2 de Dezembro de 2010 às 13:02
Quando os nossos pensamentos nos confinam, perdemos a possibilidade de estar em liberdade.
Ser dínamo é apenas estar presente, seja com arte rica ou póvera, na arte de existir, resistir.
Apenas estar é a condição, enquanto somos o presente, ousamos existir.

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