Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

desorientação

Já não vale a pena, instalou-se a confusão quanto à auto-avaliação. E quanto mais o tempo passa mais vai havendo espaço para o disparate. Já se diz tudo. O desnorte é total. Há quem diga que não entregou os OIs “como forma de protesto” e há quem diga que é ridículo não ter entregue os OIs e querer ser avaliado. Há professores que chegam ao ponto de dizer coisas como “Os alunos que nos entregam as auto-avaliações, também nos entregaram antes os objectivos individuais?”. Este desvario só pode vir de uma imensa fadiga que a todos nos impõem estas trapalhadas ministeriais, apenas dignas de quem nada sabe sobre a tal prestimosa “liderança” que tanto se pretendia, em tempos, estimular nas escolas. Como o exemplo vem de cima, e de cima nos chega uma gestão invertebrada, infundada, obstinadamente apostada em fazer prevalecer uma legislação fecunda em contradições, malformações e inconsequências, todo este clamor espavorido chega igualmente às escolas.

Primeiro foi no Parlamento, onde ninguém soube responder a quase nada, sobre os Objectivos individuais e do que acontece a quem os não entrega. Agora é a Ficha de Auto-avaliação. Actualmente todos andam a perguntar às DREs: o que fazer com os professores que entregam as FAAs e não entregaram os OIs? Nuns lados responde-se de uma maneira. Noutros, de outra. Na maioria, adia-se a resposta, porque “ainda não se sabe”, ou porque “a sôtora não está cá hoje”.

Habituados a lidar com estas cangas, os PCEs e os directores que têm de ter respostas para todos os pés que têm na terra atiram-se para a frente como podem para resolver o problema que mais ninguém sabe como resolver. E fazem o mesmo que as DREs: uns impõem umas coisas, outros impõem outras e todos, todos mesmo, aguardam que a borrasca passe, sem pensar muito, tal como acima de si se faz, naquilo que o futuro lhes e nos reserva a todos. Todos andam, simplesmente falando, a tentar evitar que das suas mãos cheias de areia não caia um único grãozito. E isso nunca resulta. É preciso melhor recipiente.

Pela minha parte não entreguei os OIs por duas razões muito simples:

Primeiro, porque a ideia é eu ser avaliado por aquilo que fiz nos anos lectivos de 2007/2008 e 2008/2009. Para isso pediram-me que definisse e entregasse objectivos de leccionação e actividade docente a 21 de Maio de 2009. A treze dias, portanto, do final do período em avaliação. E isto é muito ridículo, seja em que lado for. Isto ninguém sabe como aceitar. Especialmente professores. Fosse essa apresentação obrigatória ou não, (não sei o que é avaliar sem definir objectivos iniciais), isto seria sempre ridículo e eu nunca os entregaria. Esta avaliação só faria sentido, se me tivessem pedido que definisse objectivos profissionais para dois anos lectivos até uma data qualquer anterior a 1 de Setembro de 2007. Para mim a coisa é só esta: não se definem objectivos de avaliação no final do período de avaliação, ponto final. Não se avalia por retroactividade. Até me embaraça explicar isto. Se assim pudesse ser, qualquer um definia objectivos que indicassem precisamente aquilo que na realidade fez. Como defino os objectivos num momento em que já sei o que fiz nos últimos dois anos escrevo os meus objectivos de maneira a bater a bota com a perdigota. Fazia a minha vidinha e, no fim, olhava para o que fiz e modelava os objectivos de acordo com o que realmente tivesse acontecido.

Numa empresa seria mais ou menos assim: só vendi dois frigoríficos em dois anos. No fim do período de avaliação, escrevo num papel que os meus objectivos para esses dois anos eram “vender dois frigoríficos”. Pumba. Taxa de sucesso profissional: 100%. Desafiaria alguém a dizer que não tinha cumprido os meus objectivos na íntegra.

De que pode isto adiantar? E sobretudo para quê? A quem pode interessar uma “avaliação” feita assim? Melhora alguma coisa? Os alunos no meio disto tudo, ficam mais bem servidos em alguma coisa? Nada. É um disparate absolutamente refutável.

Depois, há um grupo imenso de impedimentos que vão sendo recordados com mais ou menos frequência mas sempre com irrecusável legitimidade. Como já muitos o explicaram linha por linha, a enunciação de datas para a apresentação destes “objectivos individuais” está ferida juridicamente pelo que não é segura a sua propriedade legal. Refere-se ainda que a enunciação de objectivos individuais não constitui uma das fases legalmente identificadas como obrigatórias para a avaliação docente, pelo que não se revela compreensível nem rigoroso tomar estes objectivos – intrinsecamente obsoletos e retardados – por instrumentos referenciais; objectivos que deveriam, ademais, ter sido estudados e concertados conjuntamente com um avaliador.

Em nenhum momento me ocorreria presumir que não devo ser avaliado. Considero que as chefias de uma escola têm o dever de avaliar o seu pessoal. E que os avaliados devem ter o direito a duas coisas: sentir que a sua auto-avaliação tem valor facial e a concertar fins pedagógicos com o avaliador. Tudo isto me parece apropriado, exigente e condutor. E não aceito que uma avaliação não determine consequências na carreira. Já expus um dia aqui um modelo de avaliação que traria estas considerações todas ao quotidiano profissional das nossas escolas.

Com a maior moderação e equilíbrio vos asseguro: estou-me tristemente nas tintas para saber se o ministério vai fazer uma estatística que culmine na demonstração eloquente de que todos os professores e mais algum estão, de facto, a fazer a sua avaliação, dessa forma se evidenciando a bondade invencível da sua acção (que é como quem diz: votemporfavoremnóssómaisdestavez). Está completa a descredibilização desta equipa ministerial. Não há nada que possam dizer ou fazer que lhes devolva a probidade.

Pela mesma razão não tenho a mais ínfima curiosidade em saber no que resultará a minha avaliação, sobretudo por ser coordenada por parte daqueles que hoje se sentam, com deslumbramento mancebio, nas cadeiras da direcção da minha escola. Desses, ao amadorismo deplorável em que vivem, soma-se uma insólita ausência de sentido de proporção do encargo ético e profissional que assumiram e que fingem – todos os dias, todo o santo dia - compreender. Como pode importar a alguém aquilo que digam? Sobretudo se não conseguem sequer dissimular os seus notórios ressentimentos e domesticar rancores surdos e primários, razões primeiras para que não pertençam ali.

Não vejo, assim, qualquer benefício em contestar a entrega da ficha de auto-avaliação (ao menos por estas razões, que outras há, mais solidárias, que me recomendam que a não entregue). Creio mesmo que a sua apresentação encerra um elemento de moderação reivindicativa e de exigência profissional que muito fará por dar a conhecer a incongruência essencial do modelo.

Não concordo absolutamente nada com este modelo de avaliação. Mas de que me adianta dissentir de uma coisa que não está a andar apenas porque não tem pernas para andar? E que cairá. É bater em mortos. Trata-se de um modelo que não sabe o que fazer aos que prevaricam e danificam a actividade docente. Um professor negligente ou impreparado simplesmente não progride na carreira. E é tudo. Continua a dar aulas. Todo o mal do mundo lhe pode ser imputado mas nada lhe é ordenado para que corrija o diagnóstico que tenha revelado. Nada. É uma coisa alucinada. Nada há de formativo e reparador neste modelo. E, em meu entender, é de uma irresponsabilidade muito grande manter em frente dos alunos, docentes que não devem ali permanecer ou porque a sua preparação científica é deficitária, ou porque a sua gestão de sala de aula não permite um curso eficiente das suas lições. Um sistema de avaliação não pode ignorar esta que é a mais importante de todas as consequências. Trata-se, como muitos o afirmam de forma persuasiva, de uma “mistificação absoluta”.

Em todo o caso, não compreendo que se diga que um professor não tem direito a ser avaliado sobre tudo quanto fez nos últimos dois anos. E que isso depende de objectivos. Não aceito qualquer ideia pela qual um professor só possa ser avaliado se entregou – tardia e dissipadamente como acima se explica – os seus objectivos individuais.

Deixem-me colocar as coisas ao contrário do que têm sido. A opinião do avaliado é importante para uma avaliação mas, também sem ela, a sua avaliação pode ser feita, ainda que imperfeitamente; não faltava mais nada que uma avaliação não pudesse ser feita porque quem vai ser avaliado, não quer ou não entregou dados convenientes à sua avaliação. Absurdo. Pode e deve ser feita; evidentemente, feita por quem com ele convive profissionalmente de forma demorada e próxima.

O que há de mais lamentável nisto tudo é que a avaliação está directamente relacionada com a qualidade das lideranças escolares. Ora, um sistema que permite dividir uma classe docente em duas categorias, uma acima da outra, e depois permitir que acima de todos esteja alguém que está abaixo de uma dessas categorias, não pode nunca ser compreendida por ninguém. Se o propósito inaugural era ter uma avaliação determinada hierarquicamente, (solução que nem sequer é especialmente inevitável ou mesmo recomendável) nunca poderiam, em todo o caso, ter enveredado por uma solução tão exuberante. Só uma coisa poderia permitir tal subversão hierárquica: a solenidade de um acto eleitoral. Mas isso é outra conversa. Outra infâmia.
publicado por Rui Correia às 20:38
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d