Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

amarar

 

“Quando é que os ratos abandonam um barco?”. Sempre achei que esta pergunta deve ser feita ao contrário. Sempre me interessou mais por que razões entram os ratos num barco. Nada há que os incentive a tão íngreme empreendimento. Começa logo por isto: sendo certo que todos os ratos possuem alguma destreza trapezista, a verdade é que correm o risco de cair à água subindo pelo cordame acima. Será que não percebem que há dezenas de coisas que podem correr-lhes mal? Sei lá, pode o barco zarpar e impedir que os ratos saiam a tempo.

 

Que uma coisa é entrar à socapa no barco, outra bem diferente é conseguir encontrar o caminho de volta ao cais. Mas há mais. Sujeitam-se a todo o pontapé de repugnância e cólera que os embarcados sempre lhes dedicam. Terão de saber dar a volta às dezenas de ratoeiras que o navio possui e que os marinheiros nunca deixarão de alimentar com novos pedaços de queijo. Também é sabido que, de tempos a tempos, todos os navios são obrigados a fazer uma desratização. Tarde ou cedo. É a lei que diz.

 

E mesmo quando finalmente conseguem entrar no porão acabam a lutar desalmadamente, ratos contra ratos, esbugalhados de ódio entre si, para disputar este ou aquele naco de gordura.

 

Assim sendo, por que razão não hão-de estes ratos continuar a arranhar o seu roedor ecossistema de onde vieram? O que os levou a julgar que têm pernas para andar por ali acima e conquistar um barco inteiro?

 

Será por um mísero pedaço de pão, um patético grão de cereal? Tão pouca migalha vale tanta afoiteza? 

Talvez valha. Afinal, a outra opção é ser um Homem e ter a coluna toda vertical.

publicado por Rui Correia às 15:45
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14 comentários:
De Fernando a 9 de Setembro de 2010 às 19:16
Não sei se tenho pena dos ratos. Deixa ver.





Não, afinal, não tenho: o problema está no mal que fazem ao navio e aos marinheiros.
De Fernando a 9 de Setembro de 2010 às 19:19
Sabes qual é o poema preferido dos ratos? É aquele que começa assim: "Eu quero amarar amarar perdidamente.."
De Maria a 9 de Setembro de 2010 às 19:55

S-O-B-E-R-B-O.

Parabéns e muito obrigada.
De Redes a 10 de Setembro de 2010 às 20:26
O problema será no meio de um barco tão lotado distinguir os ratos dos marinheiros. Há-de haver critérios com certeza, mas não serão claros para todos. Alguns haverá que só conseguem ver ratos, outros só marinheiros. Há, é claro, os iluminados, os iniciados nos mistérios, que distinguem uns dos outros. Eu confesso: só vejo marinheiros.
De Rui a 10 de Setembro de 2010 às 20:31
Já o suspeitava, Luís. Já muitas vezes percebi. E mais te digo: estamos de tal maneira, em matéria de ratice, que hoje reputamos "iluminado" quem desejamos menosprezar. Contas da luz por pagar, talvez.
De Redes a 10 de Setembro de 2010 às 20:35
????
De Mena a 10 de Setembro de 2010 às 20:52
Olá, Rui!
Lindo! Adorei o texto!
Continuo à espera da desratização...
Bj e bom ano, se for possível!
Mena
De Rui a 10 de Setembro de 2010 às 21:20
Não me digas que também és uma iluminada?...
De Mena a 10 de Setembro de 2010 às 21:33
Pois, pago a luz!
De Maria a 11 de Setembro de 2010 às 00:04
Pois eu, meninos, que também pago a luz, dispenso neste caso os serviços da EDP.

Até com um pauzinho de fósforo - pronto, um daqueles maiorzinhos, de churrasco - consigo vislumbrar claramente os roedores. E, obviamente, a excelência do post. :)))

De Mena a 11 de Setembro de 2010 às 14:21
Há um recurso expressivo de que gosto particularmente: a ironia.
De Mané a 10 de Setembro de 2010 às 22:58
Mesmo não conhecendo o barco...Brilhante, Rui. Como sempre!
De anix a 11 de Setembro de 2010 às 22:21
O pior é quando há perigo de contágio!
http://www2.eb23-tadim.rcts.pt/docs/peste_negra/index.htm
De Rui a 12 de Setembro de 2010 às 23:25
Como dizem os alemães: "e há".

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