Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

estocadas

 

Nada me satisfaz mais do que assistir a uma tergiversação elevada e firme, ainda que breve, como aquele que li sobre touradas no blog do João Serra. Não desejando interrompê-lo, não pude deixar de interpelar os contendores quando uma qualquer linha de argumentação prosseguia uma evolução que restringe aquele meu prazer original. Hedonismos.

 

É muito instável e inesperado que se utilize uma argumentação deste tipo: "Isto dos touros a morrer nas praças é algo terrível, mas há outras coisas tão más ou piores do que esta, longe do olhar público; coisas que ninguém, por hipocrisia e conveniência, parece denunciar (as vacas, os pássaros, o porco, os frangos, os perus)".

 

Em primeiro lugar, este expediente apenas confirma a tese do adversário pela qual isto dos touros a morrer nas praças é algo terrível - ao ponto de ser comparável com outras realidades horrendas ou mais horrendas, longe do olhar público. Mas depois, num golpe de rins inesperado, aproveita-se a tal "hipocrisia", o tal silêncio conivente que se denunciou, as tais outras realidades horrendas ou mais horrendas para justificar que aquilo que é terrível - isto dos touros a morrer nas praças - permaneça inalterado, até porque - e aqui é que a coisa fica desconcertante - não são realidades comparáveis (matar um frango num aviário ou um touro numa arena).

 

Prefiro, de longe, que se diga "Gosto de ver as touradas". E que não se diga mais nada.

 

Tenho para mim que matar um touro para comer parece-me uma coisa estupenda, sobretudo para quem esteja com mesmo muita fome. Matá-lo para mostrar que a besta nos é inferior, ou que o touro é outra coisa qualquer, é uma decisão menos importante mas mais formidável. Tão formidável como a lei da selva, da primazia da violência e da força sobre os mais fracos de que nos vamos lenta, demoradamente, distanciando.

 

Quanto aos literatos "beiços de sangue" e a impressionante proposta - que é recorrente neste tipo de argumentações quando a coisa se descontrola um bocadinho e volve poética - de matar todos os frangos do mundo numa arena, ("como devem ser todas as mortes") assim como as vacas, os pássaros, os porcos, os frangos, os perus parece-me uma coisa que poderia, na realidade, terminar com o desemprego no mundo. Mas lá que se perdia um bocadinho o prazer ritual da arena, isso perdia. Ver um lidador perder hora e meia a vestir o seu traje de luces para ir correr atrás de uma galinha ou um perú numa praça sempre cheia de gente não inspiraria nenhum Goya, Sorolla, Picasso, Orson Welles, Góngora, Quevedo, Benavente, Lorca, Machado, Alberti, Vargas Llosa, Hemingway e Ortega e Gasset, os suspeitos do costume, ou, melhor, dos costumes.

 

Parece-me óbvio que a cultura toma opções, sim. A cultura cumpre-se em fazer escolhas. E vai fazendo-as lenta, demoradamente. E isso até nem é triste, demorar produz as melhores coisas. Veja-se os vinhos ou a leitura. Mas concordo que demorar leva por vezes demasiado tempo. E nós, simplesmente, não vivemos tanto tempo ao ponto de achar que possamos esperar pela última página.

 

(A foto foi tirada daqui. Mas seria melhor se tivesse saído daqui.)

publicado por Rui Correia às 14:24
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