Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

pior

Uma das mais curiosas inclinações – não se pode chamar nem escola nem corrente ou movimento, sequer - da historiografia contemporânea foi um modismo transitório a que se deu o nome de EgoHistória. A coisa era relativamente simples de compreender. Desde Marrou que se percebera que a História é o que o historiador é. Marrou tem as melhores páginas do mundo, definitivas, sobre as limitações da explicação histórica. Todo o retrato de uma época é, antes de mais, o retrato do seu relator. Corroída por uma doença destas, todo o diagnóstico efectuado por um historiógrafo tornou-se para sempre reservado. Com tudo o que isso acarretaria em matéria de epistemologia e a consistência lógica da teoria histórica.

Para responder a esta inconveniência, tornara-se num repente imprescindível saber quem são os que escrevem a história para que melhor o leitor enquadre aquilo que lê. Deste modo, a conclusão tornou-se óbvia: os historiadores mais temerários decidiram investir numa publicitação circunstanciada da sua biografia. Mas, ao contrário das biografias nos seus moldes tradicionais, estas pretendiam demonstrar todas as disposições e propensões idiossincrásicas que cada historiador transportava consigo para que se compreendesse melhor quem escrevia o quê. Se conhecêssemos bem o historiador melhor conseguiríamos desvendar o seu discurso e assim ter um acesso mais advertido e cientificado da sua narrativa historiosófica. A ego-história compunha-se, por isso, tanto de uma imposição intelectual como de um exercício de despretensão profissional, compreenda-se. Era uma espécie de declaração biográfica de interesses.

Uma das coisas que mais me entusiasmava nesta graciosa reflexão – que muitos levaram demasiado a sério – era perceber que os historiadores assumiam abertamente algo que me diz muito: a enigmática proximidade que existe entre a escala macro e a escala micro. Um cultor da ego-história teria sempre de ter em mente a relação que irrefutavelmente existisse entre o quotidiano do autor de um livro e a construção interpretativa que ele fizesse de um qualquer objecto de estudo. Isto trazia-me, como ainda traz sempre, uma incomodidade quase ontológica. É indesmentível mas parecia-me, como a muitos acabou por parecer, uma perícia inútil. Ou seja, parecia que a montanha tinha parido um rato. Nada mais longe da verdade, contudo. A inutilidade deste desfecho não fora resultado de uma ociosidade inconsequente. Pelo contrário. O caminho intelectual percorrido consolidou a mais substantiva de todas as lições da história. Que o carácter científico da história é peculiar, idiossincrásico. Constituiu a forma mais definitiva de clarificar o labor do historiador não apenas recusando-lhe o estatuto de auctoritas aureolada, tornando-o minuciosamente susceptível de refutação ou actualização mas, indo muito além disso, inscrevendo a insuficiência humana como uma inerência irreprimível de todo o discurso histórico.

A ego-história facultar-nos-ia a equipagem necessária para despoluir todo o discurso potencialmente disciplinador e instituidor. E o que mais seduz nesta inclinação historiográfica é que quanto mais autorizado fosse o estudo, quanto mais consagrado o autor, maiores reservas se lhes deveriam colocar. Grosso modo quase se diria que, em história, quanto melhor, pior.
publicado por Rui Correia às 00:07
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5 comentários:
De Rui a 17 de Julho de 2009 às 00:45
Até o insuspeito René Remond, um dos meus maiores, sucumbiu à coisa.
De Rui a 17 de Julho de 2009 às 00:40
Le Goff, Duby, Chaunu, Quinet, Renan, Lavisse, Ozouf (um e outra), Gaxotte, Ariés. O Pierre Nora é que lança a coisa em 87. Curiosamente grangeou uma legião de seguidores egohistoriadores na austrália e nos eua. Henry Adams, inglês, escreveu um livrinho chamado "The education of Henry Adams" e muitos, muitos outros.
De Lus Filipe Redes a 14 de Julho de 2009 às 22:57
Gostaria de nomes e textos. Marrou, ok! Mas os ego-historiadores?
De Rui a 9 de Julho de 2009 às 19:56
Noutros campos... que diferença faria conhecer a egopolítica, a egojustiça, a egocanalização...
De Co a 9 de Julho de 2009 às 17:05
Engraçado, na poesia passa-se a mesma egocoisa.

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