Sexta-feira, 7 de Maio de 2010

amarelo

 

Tirou-me a bola do pé no preciso momento em que me preparava para desferir um remate que tinha “golo” escrito.  Numa fracção de segundo, onde havia uma bola, passou a existir o pé do Herson. Onde havia um remate, passou a haver um pontapé. O pé do rapaz queixou-se, mas, por ser novo, aquilo passou-lhe logo ali. Como o meu pé fez 44 anos, a coisa foi mais rebuscada. Enquanto o jogo continuou, o pé andou-me, (correu-me), ali, todo bom, a armar em Ricardinho. Quando cheguei a casa, dei-lhe banho quente e portou-se bem. Por volta das duas da manhã desata-se-me a queixar-se, aos berros, desmedido, que não conseguia dormir, que estava cheio de dores, que já não aguentava mais, que não quer morrer amputado. Lá o fui consolando, com gel e gelo, mas a coisa estava a ficar preta. Quando vi que o pé estava mesmo desesperado, decidi pegar nele e levá-lo ao hospital.

 

Cheguei lá, sentaram-me numa cadeira de rodas e fui logo atendido por uma enfermeira que me disse que o meu pé era, segundo o protocolo de Manchester, um pé amarelo. Atou-me uma pulseira amarela para que todos soubessem que a situação era “urgente” e que tinha de ser atendido num máximo de 60 minutos. O meu pé reclamava, injustiçado por nem ao menos lhe terem atribuído o laranja (10 minutos), mas um pé anda e corre, não cabe a um pé pensar.

 

“Professor Rui Correia?”, ouvi então. Olá. Fiquei aflito porque tenho a ideia de que nunca me esqueço dos meus alunos e não me lembrava nada desta rapariga que me chamava. "Sou a Adriana. O professor substituiu a minha professora de História para aí há uns, sei lá, dez anos. Vai ao raio X não é?" - disse ela empurrando-me a cadeira pelos corredores; enquanto o meu pé protestava de dor, dissemos coisas simpáticas um ao outro.  Chamaram o meu pé para uma sessão fotográfica. Eu entrei também, como acompanhante. Quando, finalmente, o ortopedista chegou, olhou para as radiografias no computador para ver se o meu pé não estava a queixar-se sem razão e chamou-me à parte, como familiar mais próximo, e confidenciou-me que sim, que estava. Não tinha nada partido, embora tivesse descoberto nas fotografias uma lesão com alguns anos que deixara marcas visíveis (um "piquinho"). “Quando tiver 75 anos ainda há-de queixar-se disto” – ameaçou ele. E continuou: “Entretanto faça-me um favor. O que o seu pé tem é uma valente entorse que é uma rotura dos ligamentos que ligam os ossos entre si. Receito-lhe uma descarga de duas semanas [descarga é buzzword médica para estar quieto com o pé]. Mas assegure-se que ele as cumpre mesmo. O seu pé está a precisar de muito descanso, mesmo por causa da tal lesão anterior. Descanse mesmo, ouviu? Gel, gelo, canadianas, almofada e nenhuns pesos, entendeu?". Porque estava com ar sério, não me ri; conheço o meu pé desde que me conheço; não o estou a ver a estar duas semanas oferecido a uma almofada a ver o que acontece. Vou ver o que posso fazer – tranquilizei-o.

 

Entretanto, a Adriana, uma querida, agora mulher gira e desenvolta, regressou, empurrando-me de um lado para o outro, recordando com nostalgia o seu tempo de escola. O meu pé ia distraído a olhar para as receitas. A dor cedia. "Adeus, professor" - sorriu-me, meiga.

 

Houve um momento em que estive parado, caladinho, durante uma hora num buliçoso e sobrelotadíssimo corredor da ortopedia. À minha frente estava a D. Maria Celeste, uma senhora com o dobro da minha idade, que gritava baixinho, como fazem os velhos, “Nina, Nina, vem cá”. Pensei que se referia à enfermeira, mas depois percebi que não. Pensei que era uma corruptela de “Menina, menina”, mas depois percebi que também não. “A falta que me faz o meu robe”, repetia ela incessantemente. Por vezes gritava a fingir que tivera um acesso de dor; logo a seguir levantava a cabeça branca e impávida e olhava para mim com um olho fechado para ver se eu era alguém. Não era. Mas fez isto muitas, muitas vezes como se. Lentamente, fui percebendo, caladinho, o que o olhar vesgo da velha me dizia.

 

Tens 44 anos, palerma.

 

Amarelo.

publicado por Rui Correia às 12:51
link deste artigo | comentar | favorito
15 comentários:
De Fernando a 7 de Maio de 2010 às 13:45
Vem aí o novo fado "O amarelo do Correia". O teu pé fez 44 anos? Eu vou fazer 46 e o meu joelho esquerdo já vai com 80. Raisparta um gajo ter fôlego suficiente para ter a ilusão de que ainda é novo.
De Rui Correia a 13 de Maio de 2010 às 02:04
É precisamente isso.
De isabel milhanas a 7 de Maio de 2010 às 14:08
Olá professor Rui,

Pois fui eu que o substitui com o 7ºE.
Foi um prazer, rever os meus ex-alunos, que agora são teus.
As melhoras para o pé amarelo espero que não seja chato!

Beijos para os outros dois pézinhos

isabel
De Rui Correia a 13 de Maio de 2010 às 02:04
São óptimos. Dêem-lhes um anito e verão o que realmente são capazes de fazer.
De Daniela Carreira a 7 de Maio de 2010 às 23:04
Passei aqui para lhe deixar as melhoras e espero que recupere rapidinho. O 9ºC já está cheio de saudades suas, sim porque a quinta e a sexta feira (que é o dia pelo o qual esperamos mais) já não foi o mesmo, claro, é que falta lá a aula do Prof. Rui Correia, sim, porque pensando que não é o professor é que nos anima o resto do dia... PS: espero mesmo que melhore rápido e cuide bem do seu pé...amarelo!
De Rui Correia a 13 de Maio de 2010 às 02:06
És uma querida. Quando penso que dia 3 de Junho é uma Quinta-feira...
De Isabel a 7 de Maio de 2010 às 23:06
Com que então armado em Messi!
Espero que a receita do ortopedista esteja certa, quero dizer, o diagnóstico! Não confio muito, mas pode ser....
Se não melhorares, já sabes que há um tal Dr Barradas que não falha. O meu pai costuma levar lá os pés vermelhos, amarelos e verdes.
Um beijo grande e as melhoras.
De Rui Correia a 13 de Maio de 2010 às 02:07
O teu pai e o Dr. Barradas merecem o prémio nobel de todos os tornozelos... do mundo.
De Sandra Amaral a 11 de Maio de 2010 às 21:30
O que tu fizeste ao teu pé... só porque estavas com "medo" de ir remar comigo e com o 7ºC para São Martinho! Diz, ao teu pé, que eu lhe desejo melhoras muito rápidas. Beijinhos
De Rui Correia a 13 de Maio de 2010 às 02:08
Tu sabes que eu queria, tu sabes que mesmo sendo as Segundas-feiras um dia bem preenchido eu preparava-me para ir de novo contigo remar a baía... tu sabes.
De Anónimo a 12 de Maio de 2010 às 13:08
Olá stor. Vimos o seu texto , esperemos que melhore para nos vir dar aulas, estamos aqui para tudo,

as suas alunas, Filipa Rodrigues e Andreia Noronha 9ºB
De Rui Correia a 13 de Maio de 2010 às 02:10
Temos uma conversa por acabar,9ºB. Faremos tudo o que combinámos para a semana,ok? Esteja o meu pé como estiver. Nem que vá de muleta.
De Anónimo a 17 de Maio de 2010 às 19:26
está bem stor, nós avisamos os outros, as melhoras



andreia noronha e filipa rodrigues
De Beatriz Duarte a 13 de Maio de 2010 às 11:04
Então stôr como vai isso???
Calculo que não muito bem...
Tem conseguido ficar quieto, assim o espero porque precisamos de si...Como é que vamos aprender lições de vida e ao mesmo tempo história!!
Veja lá se se mete bom...
AS MELHORAS... =) =)
De Beatriz Duarte a 13 de Maio de 2010 às 11:07
Diga qualquer coisas que o pessoal está preocupado...

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d