Terça-feira, 23 de Março de 2010

mentir

Dando voz a numerosos munícipes que a mim se dirigiram manifestando o seu desalento por se terem visto representados de forma tão excêntrica e inapropriada num congresso partidário que obteve grande projecção pública, tive a oportunidade de apresentar pessoalmente o seguinte protesto ao presidente da Câmara das Caldas da Rainha.

 

"Não posso deixar de manifestar o meu completo repúdio pela forma como o Dr. Fernando Costa, actual presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, decidiu dirigir-se publicamente a um congresso do seu partido, realizado num recente fim-de-semana em Mafra.

 

Como partidário de uma organização política, qualquer indivíduo pode e deve participar nos órgãos do partido em que milite, com a displicência que o partido lhe permita. O Dr. Fernando Costa dispõe de toda a liberdade para o fazer como qualquer outro seu correligionário.

 

Mas aquilo que o Dr. Fernando Costa não pode é baralhar a sua condição de militante com a de autarca eleito. Ao proclamar perante todo o país, notoriamente enfunado pela presença de câmaras de televisão, que “se não fosse mentiroso, não seria presidente da Câmara”, ou “traga-me mas é um copo de vinho” o Dr. Fernando Costa revela uma insensibilidade confrangedora quanto ao que representa a qualidade institucional do cargo que repetida e injustificadamente ali invocou sobre si mesmo.

 

Pode o Dr. Fernando Costa confessar intimamente que para se ser Presidente de Câmara das Caldas da Rainha é indispensável ser-se “mentiroso”. Pode até acreditar que esse constitui um dos factores do seu sucesso eleitoral. Mas o que não pode é confundir a sua condição de militante com a de Presidente da Câmara deste concelho. Estas declarações ridicularizam os eleitores deste concelho e achincalham os seus autarcas, que não se revêem nem na sua pessoa, nem na leviandade destas afirmações.

 

Pode até o Dr. Fernando Costa pretender arvorar-se em modelo da ética na política, dizendo que nunca faria como Presidente da Câmara das Caldas da Rainha aquilo que a direcção do seu partido fez a vários dos seus militantes, votando-os ao ostracismo.

 

Mas a verdade é que o Dr. Fernando Costa todos os dias faz aos seus opositores aquilo que espalhafatosamente incrimina os outros de fazer. A verdade é que é este mesmo autarca, fervoroso prosélito do método de Hondt, quem procura objectivamente impedir a acção fiscalizadora dos vereadores da oposição, recusando-lhes condições elementares de trabalho e opondo-se diligentemente a atribuir qualquer pelouro com plena autonomia, jurisdição e competências, que o método de Hondt legitimaria.

 

É este autarca que procura em todas as ocasiões barrar os representantes das demais forças políticas de intervir em actos públicos, para que todas as obras, todas as inaugurações, todas as cerimónias possam estar exclusivamente associadas à sua pessoa e a mais ninguém, procurando assim marginalizar todos quantos, na prática do seu quotidiano, trabalham e promovem o desenvolvimento das Caldas da Rainha.

 

É este autarca que, em inúmeras ocasiões públicas e oficiais, se refere a deputados da Assembleia Municipal em termos pessoalmente injuriosos, num registo desmesurado, abdicando constantemente da sobriedade e da elevação que a sua condição institucional lhe exige.

 

É este autarca, que no seu singular conceito de democracia representativa e de separação de poderes, menospreza, em pleno momento da sua tomada de posse, a relevância da Assembleia Municipal, declarando que é a vereação quem fiscaliza eficazmente a acção governativa e não o órgão legalmente constituído para o efeito ou os membros eleitos que a compõem; afirmações tão extravagantes que não chegam sequer a conhecer depois qualquer contraditório por parte da própria presidência da assembleia.

 

O Dr. Fernando Costa lá terá as suas razões para achar que só foi eleito por ser “mentiroso”. Não tenho, evidentemente, qualquer interesse nas suas explicações. Conhecemos bem e já por muitas vezes foram denunciados os erros da sua administração. Mas sabemos de uma coisa, em todo o caso: cada um sabe de si.

 

A sociedade exige que os políticos sejam indivíduos empenhados na resolução dos problemas das pessoas e em nada mais. Vilipendiar a dignidade da Presidência da Câmara, a troco de um efémero e desapropriado protagonismo, tal como o Dr. Fernando Costa o fez, é algo com que, até como eleitor, não me devo resignar e que não posso deixar de lastimar, tanto no conteúdo, como na forma."

publicado por Rui Correia às 01:18
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2 comentários:
De José Vasco a 6 de Abril de 2010 às 10:38
Mas esta é a realidade por este "mundo fora"!
Porquê tal indignação?
A unica questão é que alguem colocou a nu real a politica...

Como exemplo olha o programa politico do "Trocas-te" nas últimas eleições... E tem que ser assim para se ser eleito. Os politicos sabem que a memória do povo é curta e é mais visual (a cor da gravata, o número de botões que se devem apertar, ...) do que das promessas verbalizadas (e dá sempre para corrigir posteriormente com um "Jamais! Jamais! Um francesismo que só 20% da populaça percebe e os restantes acham a palavra só "gira")
De Rui a 22 de Abril de 2010 às 23:10
Caríssimo, Vasco. Não vejo, nunca vi, saídos da pusilanimidade ou da resignação qualquer ideia que produza benefícios demorados. Talvez por isso me repugnem aquelas pessoas que encontram na política o espaço para as suas grosserias e boçalidades. Venham elas de onde venham. Sou especialmente atento às boçalidades oriundas do Partido Socialista, como não podia deixar de ser. Também já lhe posso dizer outra coisa, que não podia há uns meses atrás. É preciso gente que as não cometa. Mas há quem prefira a receita segura daquelas duas apatia que em cima lhe enumerei. E os boçais não apenas sabem como contam com ambas. É remédio santo para a sua própria perenidade. Obrigado pelo comentário.

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