Domingo, 21 de Março de 2010

epifanias

Não é a primeira vez que me sucede. Expressões que escutei a vida inteira adquirem subitamente sentido profundo. Para um ateu tão demorado como eu é especialmente virtuoso acolher palavras que me chegam de uma estrénua educação católica, pascal, que tive e que todos neste país vamos tendo e que, certeiramente, representam praticamente tudo em que não acredito.

 

Mas como a vida é de todos, a verdade é que os desenlaces ontológicos de uns são irremediavelmente os mesmos de todos os outros, nessa unanimidade cósmica que é o assombro contagioso pela vastidão intolerável da nossa irrelevância.

 

Foi assim que há uns anos me apunhalou num funeral a voz de um padre que repetia "Este é o mistério da vida". Fiquei repentinamente com a compreensão detalhada do que isto significa. A devoção do mistério. A absoluta incompreensão. A derradeira inépcia. Que gládio.

 

Abri há dias a mesma ferida aqui neste blogue quando uma aluna me repetiu o que já ouvi muitas vezes e nunca ouvi vez nenhuma: "Deus é amor". Que ideia tão simples e tão inabalável. A ideia pela qual o Amor de uns não passe, afinal, do Deus de outros, garante-me uma serena placidez e reduz a cinzas tudo quanto a nossa obstinação natural aprecia designar por Fénix.

 

A vida é o mistério do advento do amor. De onde nos chega tanta precisão de mais precisões?

 

(Vou ali buscar um poema do Ruy Belo que diz isto tudo, mas bem.)

publicado por Rui Correia às 15:03
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