Domingo, 7 de Março de 2010

A vida toda em word (ou life worD living)

Aqui há muitos anos havia uma provocação proveitosa que eu gostava de repetir, sempre que entrava na secretaria da minha escola: “Meninas, se estão a escrever numa máquina de escrever, então estão a fazer alguma coisa mal”. Na época, elas olhavam para mim com aquela quezília íntima de quem suspeita que eu possa estar a dizer algo com que deviam, mas que não dá jeito nenhum concordar. O tempo fez o seu caminho e hoje os trabalhos dos serviços administrativos são o que são.
Era uma época que julgávamos irreversível. Vivia-se um tempo nesta escola em que alguém que apresentasse um papel para preencher à mão era seguramente fulminado com vitupérios e escárnios de toda a gente. Formulários, grelhas, modelos, minutas, actas, memorandos, convocatórias, circulares, comunicações, ofícios, etc., tudo isso era considerado uma forma de conspurcação burocrática. Pó por limpar. Detritos tóxicos. Todos os procedimentos analógicos eram meticulosamente escrutinados antes de serem generalizados. Quase obsessivamente perseguia-se a despoluição burocrática, o rumo colectivo seguia na direcção do paperless Office.
Deste afã surgiram coisas como actas digitais, matrículas automáticas, cartões electrónicos, websites, moodle, convocatórias digitais, projectos curriculares digitalizados e dezenas de outras soluções paperless. Deu trabalho a todos, mas tudo isso chegou ao lugar que pretendíamos: toneladas de papel a menos, contentores de relatórios a menos e meses de reunião a menos. Havia uma cultura de aversão activa à inutilidade das coisas.
Resultado prático depois de uns anos a trabalhar assim: mais tempo para aprender e ensinar. E, claro, mais trabalho. Mais produção. Dezenas de clubes. Intercâmbios com escolas de todo o mundo. Conferências digitais em salas do primeiro ciclo com escolas suecas (lembras-te Anabela?). Reuniões online. Departamentos digitais. Prémios locais, regionais, nacionais a serem recebidos por professores e alunos nossos. Em todo o lado.
Custa ver quando tudo isso é, num ápice, desprezado. Custa ver sempre que o paperful Office regressa em força e é imposto – sem reflexão ou participação nenhuma de ninguém – a uma comunidade que trabalhou anos a compenetrar-se do caminho a percorrer; uma comunidade que, com invejável autonomia, já apenas sugeria formatos electrónicos, digitais, seguros para garantir que toda a informação fosse utilizada com consequência. Um conceito fundamental para toda a informação.
Dá vontade de actualizar um novo princípio de gestão escolar: sempre que sai um papel de uma impressora, alguma coisa se está a fazer mal.
Aprenda-se de vez uma coisa já antes muitas vezes demonstrada em muitas línguas diferentes: a quantidade de papel aumenta numa instituição na exacta medida em que ela gasta mais e mais tempo a declarar e a informar o pouco que produz. O trabalho de uma pessoa pode medir-se em papel. Quanto mais papel movimenta, menos ela faz.
Mas se assim é, de onde vem esta adoração adventista pelo papel, pelas actas em Word, pelos relatórios em Word, pelas circulares em Word, pelas convocatórias em Word, pelas tabelas em Word, pelos modelos em Word, pelos memorandos em Word, pelas grelhas em Word, pela vida em Word?
As mentes mais "lidas" respondem que se trata do bem conhecido "Paradoxo do Paperful Office". Não se cansem que não é nada disso. Vem de um folclore antigo: fingir liderança faz-se através da publicitação de muitos papéis. Todos o sabemos. É mais fácil escrever num papel o que se deve fazer a um aluno do que levantar o rabo da cadeira e ir fazê-lo. O trabalho A4 ocupa sempre as pessoas mais inaptas e ineficientes de um sistema.
Existe ainda o erotismo íntimo das assinaturas e dos rabiscos nor-nordestinos de despacho. Sem papéis não há assinaturas. E sem assinaturas, não há autoridade que se possa ostentar. Ou seja, sem papéis não há autoridade. Escrita ali. Preto no branco para que todos saibam. Os figurantes deste rancho folclórico vestem-se então de uma narcísica importância, esculpem-se rostos severos, transportam nos seus braços rigores documentais, devidamente assinados. O que resulta de tudo isso? Papéis. Papéis assinados. Papéis assinados que servem para provar que estamos a trabalhar. A trabalhar nas coisas que aqui estão escritas. Escrevemo-las no Word, que é onde tudo fica preto no branco. No word, que é onde a vida realmente acontece. A vida que interessa. Sentados. E assinámo-las. Às coisas que aqui vão escritas. Estão escritas e assinadas. Faça-se. Que outros façam aquilo que eu escrevi no word, imprimi e assinei. Sobretudo, que outrem o faça.
 (E pensar que o caminho a seguir, quando passámos a responsabilidade a outros, era o de criar sistemas de redundância sistémica, estabelecer comunicação intra e extranet e consolidar rotinas de segurança e integridade de dados, que coisas tão pífias...).
 
 
publicado por Rui Correia às 15:26
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4 comentários:
De Fernando a 7 de Março de 2010 às 22:21
Ui, como eu gosto de gente que está mais preocupada em estar sisuda do que em ser séria! Como gosto de gente que está preocupada em mandar sem ter autoridade! O vídeo está muito aquém da realidade.
De Rui a 8 de Março de 2010 às 00:11
Na mouche, comme d'habitude
De anuscaalves@gmail.com a 10 de Março de 2010 às 00:09
Se me lembro da experiência com os colegas das terras longínquas.
Sabes, é claro que sabes, muito se trabalhou ao longo destes anos sem grandes burocracias. Concordo contigo, não são toneladas de papel que provam que se trabalha.
De carlos hermínio a 12 de Março de 2010 às 00:16
Não sou crente, mas sou tentado a dizer "Graças a Deus que existem pessoas como tu", com a capacidade de escrever e ilustrar a sensação de amargura que vai dentro de tantos que contribuiram para o crescer desta escola e que agora têm que assistir ao desmantelar de tantas horas de trabalho. Eu que já andava um pouco apaziguado e calmo, voltou-me a azia nestes últimos dias.
Um abraço deste teu amigo Carlos Hermínio

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