“Se não páras com isso, levo-te ao professor Rui”. Pelo que me dizem, parece que, em tempos que já lá vão, esta foi uma frase muito repetida na minha escola. E tratava-se de uma ameaça, que não haja equívocos; um expediente que alguns colegas meus e funcionários utilizavam para pôr fim a impertinências várias. Resultado: alunos que eu nunca conhecera a não ser de vista – não apenas por partilharmos o mesmo espaço mas porque todos os anos lhes digitalizava as caritas – quando chegavam até mim trazidos pela mão de algum funcionário ou por outros professores, estes alunos que tinham feito uma estupidez qualquer, chegavam já compenetrados de que algo de muito terrível lhes iria acontecer porque "iam ao professor Rui”. Por vezes, alguns chegaram mesmo a chorar, mal me puseram a vista em cima. A minha perplexidade era sempre igual. Não fazia ideia por que se espalhara tão temível reputação. Mas lá que o susto era notório, lá isso era. E sempre em alunos que não pertencessem às turmas que eu leccionava. Os meus alunos conheciam-me bem, mas estes outros não. Pensei muitas vezes nisto.
Era verdade, confesso-o, que durante os oito anos em que estive na direcção da minha escola nenhum acto de impertinência ou de abusos passou sem consequência. E era exactamente isso que os miúdos receavam e esperavam de mim. Creio que ao longo dos anos se criou ali uma cultura de algum refreamento, mas sobretudo de segurança, entre os miúdos da escola. E tudo isto sempre se fez sem brusquidões ou rigorismos. Nunca me passou pela cabeça levantar um dedo que fosse a um aluno; simplesmente, nunca o tive de fazer. Dou aulas há mais de duas décadas e nunca nenhum aluno me faltou ao respeito. Nunca mandei um aluno para a rua. Nunca faltou firmeza e perseverança nas descomposturas que alguns tiveram de me aturar. Mas nenhum destes alunos, porém, alguma vez se sentiu ameaçado por mim. Pelo contrário. Muitos dos episódios em que intervim deram início a amizades sorridentes de anos. Ainda hoje recebo visitas na minha escola de alunos que tiveram comigo casos bastante complicados.
Foram, afinal, anos de constante parentesco com estes alunos. Tinham apalpado o rabo à Emília, tentavam surripiar dinheiro ao Diogo, ameaçaram o Paulo com pedras, o André e a Vera andaram à luta dentro da sala, o Tiago e o Vaca andaram à pancada por causa duma bola, a Carla de 13 anos tem um namorado lá fora com 20 anos a querer dar pancada no Francisco quando ele sair, porque disse não sei o quê. O Pedro anda a mostrar a navalha de ponta e mola do tio no recreio, a turma do 6ºD andou a cuspir bolinhas de papel mastigado no tecto da sala de aula durante o intervalo, o Nando subiu ao telhado para ir buscar a bola, a Beatriz chamou um nome feio à professora, roubaram os berlindes ao Emanuel e milhentas de outras trivialidades fizeram parte do meu quotidiano durante oito anos. Oito excelentes anos.
Nunca subestimei, ninguém o fez, as mágoas, as melancolias, as reservas dos meus alunos. Talvez porque me já tivessem morrido três alunos por razões estúpidas. Morreram-me a mim e aos meus colegas da minha escola. Sempre tratei - todos o fizemos - os alunos, fossem “meus” ou não, com inabalável respeito. Talvez por isso me tenham feito uma coisa que nunca esquecerei. Um dia, um aluno foi ao gabinete do Conselho executivo porque precisava de ajuda para "abrir um cacifo ali no átrio da associação”. Quando lá cheguei, percebi que era dia 20 de Novembro porque tinham juntado uns bons duzentos alunos para me cantarem os parabéns. Desatei a chorar, evidentemente, para perturbação nervosa dos “promotores da iniciativa”. No ano seguinte repetiram a tramóia. Lembro outra. Por duas vezes, no final do habitual campeonato de futebol interturmas, a equipa vencedora veio oferecer-me a taça. Tenho duas cá em casa. Lembro outra ainda. Sou padrinho de casamento de dois ex-alunos meus. Tenho uma vaidade gigante nestas coisas.
Creio poder dizer que todos os alunos sabiam o que significava vir ter comigo ao Conselho Executivo. Eu ia levar as suas coisas a sério. E assim foi, posso garanti-lo, sem ufanias. Nenhuma queixa foi levada até meio. Nenhuma coisa se resolveu com um “ralhete”, um papel de participação, um aperto de mão e uma promessa de paz eterna. Sempre achei tudo isso ridiculamente disfuncional por tão clamorosamente inconsequente. Foi tudo sempre tomado como algo que precisa de encerramento e “closure”. A relação com os encarregados de educação era cúmplice, risonha e constante. Os telefonemas e as “procurações” foram às centenas. Para todos os casos, sobretudo nos casos de alunos mais difíceis, apliquei – todos naquele Conselho Executivo aplicámos - a regra velha pela qual todos são inocentes até alguém provar o contrário. Em todos os casos, repito, todos os casos, os alunos confessaram o que haviam feito. Sabíamos muito bem como fazer para que se sentissem seguros o suficiente para poderem abdicar das suas veemências. Sabiam-se compreendidos e respeitados.
Tudo quanto acontecia suscitava uma consequência, fosse ela uma conversa em voz baixa e dorida, ou ir limpar o pó às mesas de uma sala de aula, lavar a zona do bar, varrer uma sala ou lavar umas casas de banho ou simplesmente estar duas – ou mais – horas desempregado a desembravecer numa sala. Choraram-me o ombro muitos alunos. Um dia andei à procura de uma faca romba de sobremesa “sem serrilha” e entreguei-a a um aluno para que, sob a supervisão das senhoras do refeitório, descascasse 30 batatas. O rapaz passou uma bela e sedativa tarde a amaldiçoar a hora em que teve a ideia de ameaçar com um x-acto um colega com menos 10 anos que ele.
Em todas as situações o sujeito era confrontado com o objecto de abuso. A todos, sempre com a devida tradução etária, lhes dizia coisas do tipo:
“Tomem muita atenção à cara um do outro. Recordem-se bem um do outro. Se um de vós chegar aqui com queixas do outro, ou se eu voltar a ouvir sequer dizer que tentaram repetir a gracinha, asseguro-vos que a partir daí encaro isso como algo que decidiram fazer contra mim. O que significa que decidiram não me respeitar como hoje vos estou a respeitar. Isso é injusto. E eu não tolero injustiças numa escola. Se repetirem, então tratar-vos-ei como se não tivessem respeito por mim nem por aquilo que vos estou a dizer. Estamos de acordo? Hoje conversámos sobre o que se passou; foi a única e última vez: prometo-vos que não voltaremos a falar sobre o mesmo. Se houver uma próxima vez, não vos chamo para conversarmos. Essa fase terminou hoje. Cabe-vos logo ir limpar, arrumar ou lavar o que quer que precise de limpeza, arrumação ou lavagem nesta escola. E há sempre alguma coisa para limpar nesta escola. Uma escola limpa é melhor que uma escola suja. E é sempre muito bonito ver um aluno ocupado a cuidar da sua escola. Tomem atenção ao que vos vou dizer agora: vocês estarão nesta escola, se tudo correr muito mal, mais uns 5, 6 anos. Eu vou estar aqui mais 20. Agora vocês decidem como é que se querem dar comigo. A decisão é vossa. Não quero que peçam desculpa um ao outro. Espero de vós, isso sim, uma mudança de comportamento e pouca conversa. Estamos entendidos?”
Ou seja, era importante que percebessem que aquilo que tinha acontecido terminara. De vez. Que daqui em diante é que tudo iria começar. Raramente não compreendiam esta simples ideia de responsabilização pessoal perante si mesmos. Raramente deixei de cumprir estes simples mandamentos. Devo dizer que nunca levantei um processo disciplinar a nenhum aluno. Estas regras eram claras, simples e funcionais. Creio mesmo que nunca foi levantado um único procedimento disciplinar durante aqueles oito anos. Nunca um único encarregado de educação se sentiu ultrapassado, bem pelo contrário; fomos, como vos disse, sempre muito coniventes e informados. Nunca foi preciso legislar nada, nem redefinir estatutos do aluno.
Há algo que preciso de dizer e que suscitou este artigo.
Na minha escola de há uns anos nunca um caso de intimidação ou violência passou em claro ou era repetido. Dei sempre - todos dávamos - absoluta importância ao acompanhamento dos miúdos depois - que é o mesmo que antes - das situações ocorrerem. É que é quando nada está a acontecer que se previnem as situações. A indisciplina e a violência não se resolvem de forma reactiva. Resolve-se por antecipação. Como? No contacto constante com os miúdos. Perdoem-me os meus amigos professores, mas ainda fico estarrecido quando percebo que muitos colegas meus não vão regularmente ou mesmo nunca foram ao recreio para lá estar. Só para lá estar. Alguns estão anos a trabalhar na escola e nunca chegam a visitar o recreio para estar com os seus alunos, sem agenda nenhuma, sem motivos ulteriores. Sempre me interroguei com isto. A escola, diz-se, é de todos. Creio que é esta presença e esta proximidade que, depois, acaba por resultar.
É com esta cercania segura e não policial, esta vizinhança informal e não oficial, um convívio à civil e não trajado de coletes normativos, com actos e não com papéis ou formulários para preencher, é estando com eles, perto deles, que a confiança, a segurança se consegue e consolida; com bolas de basquete, de futebol, de ping pong, conversas no recreio, e riso, muito riso. Foi sempre isso que assegurou que um miúdo, hoje aterrorizado, percebesse que amanhã poderia regressar à sua rotina escolar em segurança. Muito cedo aqueles que eram vistos como os “piores” alunos da minha escola se transformaram nos meus mais credíveis confidentes. Ao longo daqueles oito anos, dezenas de telemóveis foram devolvidos à procedência por mediação destes “maus” alunos. Num dos anos, estes “maus” alunos que, até então desprezavam ostensivamente tudo o que dissesse respeito à escola, ganharam as eleições para a associação de estudantes. Duas vezes seguidas. Uma associação que me orgulho de ter fundado com eles.
Custa-me muito, por tanto, entender como entendo a dor dilacerante, exausta, devastadora do Leandro que esta semana se atirou a um rio por não aguentar mais. Conheci, ao longo dos meus vinte anos de professor, mas sobretudo durante aqueles inesquecíveis oito anos de direcção e gestão escolar, muitos Leandros. Todos temos responsabilidade. Não vamos lá com palavras e formulários. É agindo. Com trabalho. De campo. Não o esqueçamos, pois, o Leandro morreu-nos esta semana e não vai ser o último.
12 anos.
De Isabel a 6 de Março de 2010 às 19:52
Lembrei-me daquele episódio do leão "carnivo". Lembras-te? Foi remédio santo!
De Rui a 6 de Março de 2010 às 23:08
o riso, Isabel, sempre o riso no meio de tudo...
veio-me a lagrima ao canto do olho confesso, pois sei que tudo o que aqui foi escrito é rigorosamente e sublinho rigorosamente verdade, os alunos temiam o Senhor professor Rui Correia por terem uma ideia totalmente errada da sua pessoa, viam-no como alguem que por elevar a voz umas quantas vezes concerteza os iria fulminar apenas com o olhar, ideia que confesso também ter tido, contudo como diz quando os alunos tem a sorte de o conhecer precebem que tudo aquilo que temem no Rui é afinal uma ideia errada, sei como é bem verdade o respeito e cuidado com que o concelho executivo sempre tratou os alunos, o medo e a tremura com que chegavam ao gabinete com toda a certeza era substituido por uma ideia de segurança, de respeito e de crescimento pessoal há saida desse mesmo gabinete, afinal o temivel Rui tudo o que fazia , era por-nos a pensar se aquilo que fizemos teria sido realmente insultuoso para os outros ou se com os nossos actos nos estariamos a insultar a nós, e fazia-o em todo o lado, não era so quando vestia a pele de membro do concelho executivo, lembro-me perfeitamente de frases como "não insultes a tua inteligencia, não te faças isso" ou uma que inda hoje utilizo "brinca com a pilinha se a encontrares" ou ainda um concelho que sempre da aos seu alunos "nunca deixem que ninguem vos trate como atrasados mentais", sinceramente penso que se houvesse um Rui Correia em cada escola deste pais, muito mais problemas se resolviam, muito mais Leandros tinham vos e muito mais agressores entenderiam que mais que perturbarem um ser fragil estão a insultar as suas proprias inteligencias, o comentario ja vai longo, mas só tenho de agradecer a este senhor pois além de ter sido meu professor, foi meu confidente, concelheiro, sempre com palavra certas nas horas certas, foi meu mestre, digo isto com certeza pois sinto que em dois anos que convivi quase diariamente com o professor Rui Correia, amadureci, e subretudo cresci muito comno pessoa, aprendi muito mais que historia, e sempre que entrava dentro da sala de aula para ter aulas com o professor Rui os problemas ficavam a porta,pois e era impossivel pensar nos problemas com um mestre com tanto para nos ensinar e com um bom humor refinado que o caracteriza, sempre que saia da sala de aula, saia uma pessoa melhor, um ser humano mais sabio, mais aduto mais conciente, e como ex-aluno tenho uma divida de gratidão eterna consigo, por saber que tudo o que escreveu é verdade e por saber que no que depender de si e de outros seus colegas e são tantos, todos os alunos terão sempre voz, é que como ex-aluno dessa nobre instituição digo OBRIGADO
De Rui a 7 de Março de 2010 às 13:08
Ó Nuno. Fizeste-me rir com vontade agora. No meio das centenas de conversas que tive com tantos alunos, nunca sabemos exactamente o que ficará nas suas memórias. Mas é bem certo que só quem nunca tem de lidar diariamente com uma escola sobrelotada de 900 alunos é que sente a simplicidade de fazer juízos de valor. De uma forma ou de outra todos fizemos o suficiente para tornar a nossa escola um lugar sorridente e eficiente. Tempos que já lá vão. E que hão-de voltar.
Porque me fazes chorar, Rui?!
Abraço
Tito
É tua, nossa, a obrigação de chorar. Mas há mais obrigações. Estas coisas não acontecem aos outros. Aconteceram-nos. Acontecem-nos. Acontecer-nos-ão.
De AC a 8 de Março de 2010 às 00:17
Estimado Professor Rui,
Não tive a felicidade de trabalhar nesse campo em que tantas sementes semeou, a ajuizar pelo seu e restantes testemunhos.
Contudo, gostaria de partilhar que há anos (poucos ..., alguns ..., muitos...) fiz parte de uma equipa de trabalho (da qual muito me orgulho e sinto imensas saudades) coesa, determinada e apostada em responsabilizar e valorizar tod@s @s alun@s, melhor, toda uma comunidade educativa.
Conseguimo-lo e...curioso, ou talvez não, também fazia parte O Professor...B! Quando diziam "Levo-te ao Conselho Directivo" ou "Levo-te ao professor B...", era remédio santo!
Muito nos/me revejo nas suas palavras e actos!
Abraços
AC
De Rui a 8 de Março de 2010 às 02:08
Muito obrigado pelo seu comentário. Há coisas que não foram feitas para que depois se deixem esquecer.
Comentar post