Quarta-feira, 7 de Abril de 2004

abandonos

Foi hoje publicitada nos jornais a notícia do "combate feroz ao abandono escolar" em que Portugal se empenha com súbito e justificado vigor. É realmente assustador que em cada conjunto de 10 alunos portugueses só 5 terminem o 12º ano. Este facto antigo - consabidamente - já hoje se reflecte na mediocridade literária e científica, cultural, da nossa comunidade.
Nasce agora o professor "tutor"; do que li, esta nova figura nada aduz ao que já fazem as equipas de apoio educativo. Receio mesmo que possa chegar a prejudicar o seu desempenho, por equívoco de competências. Nasce também uma campanha de sensibilização para promover a escolaridade; um dispêndio perdulário de dinheiro, a não ser que se considere o benefício propagandístico deste tipo de iniciativas. Assistamos, porém. Outras medidas parecem-me bem; umas com funcionalidade discutível, (ampliação de ofertas para cursos tecnico-profissionais e formação de professores em matérias deste âmbito); uma delas com efectivo valor: a antecipação para 14 anos para a frequência destes cursos.
Conhecida a necessidade que existe destes cursos, tenho para mim que se dissemina a ideia pela qual a universidade não pode ser - apenas por hoje o não ser - para todos. Como se as actividades técnico-profissionais apenas servissem a não-universitários e demais alunos com menor rendimento escolar. A ser assim, estas medidas dir-nos-iam muito sobre muita coisa.
Quando li a "Metamorfose" do Kafka, à medida que uma viscosa e rígida carapaça me crescia nas costas, tentei perceber o que sentia um alemão que assistia, sequaz, à instituição da iniquidade. Receio esta condução do ensino técnico-profissional.
Aplaudo, claro está, o facto de tudo isto se constituir em manchete. Muitos de nós consideram que

* a ampliação do apoio aos professores e entidades de educação especial,
* a atribuição acrescida de horas lectivas para apoio pedagógico,
* o alargamento do âmbito das requisições de professores integradas em equipas de apoios educativos,
* apoios - fiscais ou outros - a entidades privadas certificadas para estágios vocacionais,
* integração de alunos em entidades públicas para frequência de estágios vocacionais
* e esta antecipação etária de frequência de cursos pré-profissionais

constituem iniciativas que concretizariam, por si mesmos, os nobres propósitos de procurar fazer da escola um lugar de onde valha a pena não fugir. O que ensurdece são os silêncios. Persiste o mutismo em relação à urgente necessidade de psicólogos ou psico-pedagogos no quadro profissional das nossas escolas. Necessidade antiga e sentida. Trata-se de medidas clamadas e reclamadas pelos professores desde há décadas; desde há décadas ignoradas.
Desta surdez continuada nasce, como sempre, a desmotivação. Se ninguém nos dá ouvidos, para quê insistir? O que diria um médico, um deputado ou um carpinteiro se lhes tentássemos explicar como se exerce a sua profissão? Se não for como digo, perguntem aos professores se conhecem a expressão "Quem... eu? Eu entro, dou as minhas aulinhas e saio". Não são só os alunos quem abandona a escola. Temível é ver, como vemos, os professores que a abandonam também.
publicado por Rui Correia às 18:28
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