Sexta-feira, 9 de Abril de 2004

ávida vida

Achei muito singulares as apreciações que recebi dos meus alunos ao artigo do "Radical" sobre os seus colegas que se destacam noutras áreas, como a TV, a música ou o desporto. Todos eles se referiram à necessidade e alegria de serem célebres. "Famosos, seríamos melhor atendidos em todo o lado" - dizia-me uma aluna de 12 anos. Tinha razão.
A celebridade, hoje, não é um fenómeno de massas. É de cada um. É como se cada um aguardasse a iminente conflagração mundial de si mesmo. É como se fazer parte do público fosse uma condenação para falhados que não conseguiram subir ao palco da vida. "Pobres são apenas aqueles que não merecem enriquecer", dizia-se, no século XIX. A multiplicação de programas de televisão e rádio que procuram transformar gente em gente famosa está a reproduzir para Portugal aquilo que já existe há muitos anos em muitos países: a sofreguidão da fama.
Recordo-me ainda do tempo em que existia vida antes da fama. Nesse tempo, era tão difícil como necessário vivê-la. E era, justamente, essa vida que, vivida com audácia, criação e trabalho, suscitava ou mereceria o aplauso dos outros. Nos meus dias de hoje é a fama que gera a vida que até aí não se vive. Parece bastar apenas uma sorte de resignação ambiciosa, cachorra, servil, de perseguir câmaras e microfones, como aquele pobre rapaz do Porto que tem dentes novos, verrugas velhas e que nasce, bicéfalo, em cada ombro televisivo que encontra ou aquele outro rapaz de Lisboa, que, ávido de publicidade, abanou a sua pila durante 30 minutos de televisão, como testemunhei, incrédulo e abjecto, ainda esta semana.
publicado por Rui Correia às 18:56
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