Segunda-feira, 12 de Abril de 2004

visões e revisões

Um pouco a propósito do tema anterior e do encontro de professores de história em que me encontro envolvido: o chamado "revisionismo histórico" - infeliz pleonasmo, uma vez que toda a história é revisionista - tem assumido relevância tal que são já numerosos os websites anti-revisionistas; chamam-se a si mesmos "hate-watch groups" - (qualquer coisa como "grupos de prevenção do ódio").
Nada tenho contra estes anti-anti. O seu papel é, aliás, importante. O que me interrogo é sobre a metodologia utilizada por estes hate-watchers: muitos deles elaboram apenas extensas listagens, quase sempre desactualizadas, de pessoas e entidades que reconhecem como elementos de famílias políticas e religiosas nefandas e radicais. Um trabalho destes de nada adianta. São listas inquisitoriais, indexes digitais, que usam do mesmo método ditatorial e inculto de exercitar o repúdio e nada mais.
Este tipo de abordagem resulta numa incongruência essencial: o surgimento de hate-watchers que são, também eles, manipuladores da informação. Ou seja, temos hoje websites do tipo hate-watchers que aparecem nas listagens de websites elaborados por entidades hate-watchers; hate-watchers que denunciam hate-watchers. Resultado: estas listagens perdem todo o seu valor prático e fica esvaziado de sentido o próprio conceito de "hate-watching". Em vez de uma crítica e denúncia atenta das mensagens demagógicas, apócrifas e falseadoras que estes websites arengam, temos listas caducadas de links.
A localização e classificação destes websites é uma obrigação científica e social. Não sejamos ingénuos ao ponto de considerar que estas publicações digitais em nada melindram a liberdade de pensamento. Quase todas elas advogam, em maior ou menor extensão, a limitação ou supressão desta liberdade de que beneficiam.
Mas impõe-se um trabalho mais crítico e menos heurístico. Uma verdadeira profilaxia do conhecimento histórico. Mais do que um rol envelhecido, importa denunciar as técnicas de camuflagem normalmente utilizadas pelos revisionistas, nomeadamente na feição académica com que se encobrem. Websites com aspecto e linguagem de aparência científica como o Institute for Historical Review são especialmente eficientes na manipulação e falseamento da História.
Resultaria benéfico que entidades credíveis, académicas, públicas, preferencialmente não governamentais, se empenhassem em publicar elencos de argumentos tão populares como falseadores do conhecimento histórico. Trabalhos de inquirição realizados por grupos de entidades científicas, alunos e docentes universitários que analizassem a documentação apresentada e a submetessem a um aparelho crítico. Um exemplo clássico é o do trabalho de Ken McVay e o seu nizkor project.
Moisés era surdo?, Eric, o Vermelho descobriu a América antes de Colombo?, Não existiu nenhuma escola de Sagres? Qual a verdade do Shoah? Exclusivamente apoiados em argumentação científica, expor-se-iam as duas principais fontes de desfiguração do conhecimento histórico:

a deturpação de dados;
a fabricação de dados.

É necessário impedi-lo. Mais importante que tudo isto, porém, é saber o que se está passando no domínio do revisionismo histórico. Não se trata de, paternalmente, impedir uma qualquer "degola dos inocentes". Não é, sequer, uma responsabilidade cívica. Trata-se de uma responsabilidade científica. A revisão constitui uma inerência de todo o conhecimento. Muitos são, no entanto, os que abusam desta premissa cultural indispensável para manipular, não a verdade, mas quem a não critique.
publicado por Rui Correia às 11:37
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