Sábado, 29 de Dezembro de 2012

Uma candidatura

Na sequência de um honroso convite que me foi dirigido, decidi aceitar apresentar uma candidatura a Primeiro candidato à Câmara Municipal das Caldas da Rainha pelo partido socialista nas eleições autárquicas de 2013.

 

Muito obrigado a todos quantos estiveram na apresentação da minha candidatura. Que belíssima atmosfera e que importante foi para mim receber o vosso estímulo. Que favorecido fiquei com as palavras do Mário Tavares e da Helena Arroz; que privilegiado fico por testemunhar este novo ciclo da vida de um partido que entrega aos seus militantes a responsabilidade sufragada de escolher quem quer para seu candidato. Apenas por isto ninguém pode sair vencido deste processo. Que grande oportunidade de união e que grande exemplo de maturidade para toda a comunidade política das Caldas da Rainha.

 

Deixo aqui o texto, receio que longuíssimo, que pude na ocasião partilhar com todos aqueles meus amigos que fizeram questão de ali estar. Estendo o meu agradecimento a todos quantos, não podendo estar ali, tiveram a amabilidade de me enviar mensagens e cumprimentos tão plurais de estímulo e de desnecessária explicação pela sua ausência. Estou-vos, repito, muito obrigado.

 

Caros amigos e camaradas

 

Estou aqui hoje para apresentar a todos os socialistas a minha candidatura como Primeiro Candidato à Presidência da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. E começo imediatamente por dizer que este acto apenas acontece porque o partido em que votei toda a minha vida e que hoje me convida é um partido que entregou a decisão de escolher os seus candidatos nas mãos dos militantes, mediante eleições livres.

Inaugura-se desta forma um novo ciclo interno na vida do Partido Socialista, no qual me honra poder participar. Serão, desta vez, os militantes, por sufrágio directo, a escolher quem consideram ser a pessoa adequada para protagonizar um projecto de vitória nas eleições autárquicas de 2013.

Como cidadão independente, não me caberia apresentar candidatura. Foi, por isso, por repetido convite de muitos militantes, que acedi a este repto. E aceitei-o por uma única razão: sei, convictamente sei, aquilo que é preciso fazer a partir da Câmara Municipal para melhorar a vida dos meus concidadãos. E sei também que podemos e devemos fazê-lo em conjunto.

 

Tenho idade suficiente para não me deslumbrar com convites ou elogios, por mais genuínos que sejam. Tenho, aliás, uma relação muito esquiva com os elogios. Acredito apenas nos que me são dirigidos pela minha querida mulher e pela minha implacável filha de três anos. Não acredito no poder. A vida ensinou-me que quem julga que poder não é sinónimo de trabalho não merece ter poder algum. Um político tem de provar que tem serventia. Se o não conseguir fazer, não serve para nada, e servir-se-á, mais tarde ou mais cedo, apenas a si mesmo.

 

Não sou militante. Há quem diga que isso não é bom para a minha candidatura. Que não ser militante é reconhecer que a ideologia, a militância, de nada serve. Não concordo. Quando um partido circunscreve a sua ideologia a um qualquer acto formal, caminha, em meu entender, inexorável para a sua desacreditação. Nenhuma certidão de casamento tem inscrita a palavra amor.

 

Dizem de mim que sou mais socialista que muitos militantes e mais militante que muitos socialistas. Aquilo que sou é trabalhador. Fui sempre um trabalhador e tudo o que tenho, o pouquíssimo que tenho, ganhei-o sempre a trabalhar. Mas creio que mesmo isso é cada vez mais importante nos dias de hoje. Um político tem de vir de algum lado. Tem de ter vida própria. Vida feita. Tem de ter pergaminhos profissionais. Tem de ter profissão fora da política. Tem de ser bom nalguma coisa. E aquilo que faz profissionalmente bem, tem de trazer benefícios para a política. Se assim não for, mais vale estar quieto a fazer o que sempre fez. Como cidadão livre, preciso de viver a política, mas não preciso de viver da política. Quero dizer-vos que tenho uma profissão que amo. Sou professor. De história. Conheço nas Caldas da Rainha, duas ou três gerações inteiras de jovens e de pais que comigo vivem desde há 22 anos. Sabem quem eu sou. Conhecem-me as minhas limitações, que são tão grandes como a minha dedicação ao trabalho.

 

Amigos e camaradas. Vivemos tempos que exigem o serviço e o trabalho de todos. Sei que não estou sozinho quando me aflijo com o que se passa em meu redor. Estamos rodeados de terríveis notícias. O medo invade-nos. Pela primeira vez na nossa vida desconhecemos completamente o que Portugal, a europa, o mundo, o nosso bairro, será dentro de dois, dez, vinte anos. Tudo se abate à nossa frente. Coisas que julgávamos inabaláveis soçobram com pequenas brisas. Nada é mais aflitivo, confiem neste professor de história, do que não haver referências, nem âncoras onde se amarre o futuro. A violência quotidiana que se abate sobre todos os cidadãos e as angústias que todos os dias nos cercam convidam-nos a recuar perante tão formidáveis dificuldades. E, por isso mesmo, recuamos.

 

Num tempo de consumismo político em que o declínio brutal da participação dos cidadãos provocou um emagrecimento, eu diria mesmo, uma anorexia da própria comunidade política, importa saber se a participação dos cidadãos, militantes ou independentes, na vida política da sua comunidade é, afinal, uma quimera utópica ou, simplesmente, se transformou numa necessidade vital.

 

Alguns teóricos defendem que, hoje, a maioria dos cidadãos olha-se como uma espécie de passageiros sem bilhete da cidadania, ou seja, não querem subir para a carruagem da política, não querem participar, mas exigem todos os benefícios e direitos que a cidadania lhes confere.

Eu creio que normalmente esta questão está mal colocada.

 

Interrogo-me muitas vezes se será que é mesmo verdadeira esta dita apatia dos cidadãos pela intervenção política. Cada dia que passa me prova que não. Aquilo que assistimos é a uma desacreditação do sistema político, tal como ele se revela aos cidadãos do século XXI, numa formulação oitocentista, anacrónica. Como podemos nós achar este afastamento entre eleitos e eleitores, entre democratas e democracia, um fenómeno inesperado? Que cidadão poderia desejar participar em sistemas corrompidos que alienam a sua condição de cidadão? Modelos que inundam e afogam a sua voz em formalismos e mais formalismos hoje desprovidos de qualquer sentido.

 

A questão, repito, está mal formulada. Na realidade passa-se o oposto. Cada vez mais gente participa na vida política da sua comunidade; nunca tanta gente e tão nova o fez de forma tão intensa. Mas fá-lo nos seus próprios termos, não nos termos tradicionais; fá-lo à sua maneira. Livre de interferências institucionais que não conseguem provar a sua real valia.

 

Não existe nenhuma apatia generalizada pela política, em meu entender. Existem, isso sim, diferentes tipos de participação política que o sistema obstinadamente teima em desperdiçar.

Habitamos um sistema democrático que se presta à opulência de ignorar uma verdade indesmentível: ninguém vai participar numa comunidade política se perceber que, faça o que fizer, nunca irá influenciar as decisões das autoridades públicas.

É desta exclusão que vos falo. Trata-se de um problema de solidariedade.

 

Política é um sinónimo de solidariedade. E há quem julgue que são significados diferentes. Existe uma distinção a fazer entre solidariedade política e solidariedade social. Mas como podemos nós falar de apatia das populações, se somos um povo sempre disposto a tudo em matéria de solidariedade? De onde pode chegar-nos toda essa generosidade, toda essa nobreza, senão da convicção de que todos, que cada um de nós, pode fazer uma diferença válida e eficiente na vida de outrem? Não acredito mesmo nessa apatia.

 

A participação política de uma população depende muito dos hábitos que lhe foram sendo permitidos. Um concelho, como as Caldas da Rainha, onde a população sempre lidou com a política como algo opaco que esconde habitualmente interesses sem honra nem mérito, responderá com enorme indiferença e mesmo algum cinismo a todas as tentativas de mobilização e intervenção política.

 

Os tempos que atravessamos impõem-nos a todos esta generosidade e esta solidariedade. E de nada serve sermos generosos ou solidários sem trabalho, sem diligência.

 

E da diligência não se fala. Constata-se em factos. Mede-se por actos. Entendamo-nos: eu não nasci para a política activa apenas quando fui eleito. Mas desde que cheguei à política caldense, consegui com o vereador Delfim Azevedo, convencer um executivo inteiro a acabar com toneladas de papel com que se trabalhava desde sempre nos serviços do executivo. Todos os processos burocráticos foram, por nossa instância, digitalizados. Numa cidade cheia de prédios a cair, pela primeira vez se fez neste concelho um levantamento dos imóveis degradados, ainda por concluir, apenas porque, pasme-se, nunca se sentira a necessidade de o fazer. Pela primeira vez se criou uma estrutura workspace de partilha de ficheiros digitais. Pela primeira vez se assumiu como irreversível a digitalização integral de todos os processos de obra. Para quem sabe alguma coisa de informática sabe bem como tudo isto são conquistas que já deviam estar em curso no século passado. Todos estes avanços só foram conseguidos por causa da acção da vereação socialista.

 

Podia continuar mas a nossa angústia maior não tem nada a ver com isto. Tem a ver com a vida das pessoas. Como minoria representativa, a nossa acção foi, claro está, estorvada por uma maioria partidária que tem pânico, literalmente pânico, de tudo o que seja novo. O que fizemos não nos satisfaz. Mas está longe de ser insignificante.

 

Ampliámos de 25 para 35, o número de bolsas a atribuir aos bons alunos das Caldas da Rainha com dificuldades económicas. Tirámos famílias das ruas e de dentro de contentores pútridos para onde haviam sido atiradas e esquecidas pela própria câmara. Lançámos um programa de apoio no valor de 50 mil euros para quem queira transformar antigas escolas primárias, hoje abandonadas, em creches, tão necessárias. Lançámos um fundo de emergência social no valor de 150 mil euros para assistir a famílias carenciadas que não consigam pagar as suas contas; e fizemo-lo com a lucidez e o pragmatismo necessários para garantir que a ele tenha acesso apenas quem realmente precisa. Lançámos o programa de orçamento participativo no valor de 150 mil euros e que permitiu que projectos dos cidadãos fossem apresentados, aprovados e financiados, pela primeira vez na história do município, sem intervenção do executivo.

 

É impossível recensear tudo o que foi já feito como força política construtiva que os nossos adversários nos reconhecem sermos. Em 3 anos mantivemos semanalmente o blog consigocaldasconsegue onde estão publicadas, até ao dia de ontem, 244 tomadas de posição que, juntas, estabelecem um diagnóstico minucioso do actual estado de coisas e da urgência cívica de criar um estado de mudança política nas Caldas da Rainha.

 

Mantivemos um constante contacto com a população através de encontros autárquicos descentralizados ou incitando activamente à convocação de iniciativas que assumiriam contornos de política nacional, como o abraço ao hospital, a maior manifestação cívica alguma vez realizada nas Caldas da Rainha.

 

Se fizemos isto em apenas três anos, na oposição, não posso deixar de me interrogar no que as Caldas da Rainha se tornarão quando o partido socialista assumir a presidência da Câmara. Este concelho precisa de perceber que vive no século XXI e que só não está no século XXI porque uma maioria psd o mantém refém, sequestrado no século passado. Isto tem um nome: é um atraso de vida.

 

E isto não é nenhum insulto soez. Trata-se literalmente de um atraso de vida. A expectativa de vida que nós tínhamos para nós mesmos e para os nossos filhos, fugiu pela janela. É um atraso de vida. Um recuo. Que o digam os desempregados de uma indústria cerâmica desacompanhada durante décadas que atirou tanta gente para o desemprego. Um atraso de vida. Que o digam os desempregados do comércio local de uma cidade que tem mais montras devolutas e grafitadas do que lojas abertas. Um atraso de vida. Que o diga esse exército de desempregados de uma construção civil que viu arremessados no chão tantos anos de trabalho e que hoje deixa por toda a cidade prédios novos em folha, inteiros, devolutos, produtos de um licenciamento cúpido, sem limitações, sem visão, sem perspectiva. É um atraso de vida. Que o diga um hospital, umas termas, um parque, uma mata que não compreendem o silêncio ensurdecedor de uma Câmara que nem balbucia uma palavra e deixa morrer lentamente a jóia patrimonial da nossa cidade, do nosso concelho. Um atraso de vida. Que o digam as paredes sujíssimas, as mais sujas do país, o vandalismo e a criminalidade que vão crescendo e engolindo uma cidade onde há apenas uma geração atrás se passeava em paz em qualquer rua. Um atraso de vida. Todos os caldenses o sabem. Todos os caldenses o fazem: quem queira falar das Caldas da Rainha com vaidade e delícia tem de viajar nostalgicamente 20, 30 anos para trás. E isso é um atraso de vida. São vidas inteiras, todas a andar para trás. De olhos postos, condoídos, no passado.

 

Para que se entenda bem o estado de atraso de vida em que este concelho vive enterrado, apenas por causa de quem o governa, faço-vos uma pergunta: o que faríeis vós com 10 milhões de euros? Se os pudésseis aplicar em obras na cidade e no concelho de forma a torná-lo realmente melhor. O que faríeis vós com 10 milhões de euros? 10 milhões de euros.

 

Cada um terá, certamente, a sua resposta. Mas estou certo de uma coisa. Entre as primeiras cem respostas não encontraríamos aquela que esta autarquia elegeu como a primeira, a prioridade das prioridades: mudar-lhe o chão. A ninguém passaria pela cabeça mudar o chão. E é obra gastar 10 milhões de euros a mudar chão. É preciso mesmo ter descaramento para, numa época como esta em que o dinheiro custa tanto a ganhar, que se gastem 10 milhões de euros a mudar chão. É a isto que eu chamo, é a isto que todos temos de chamar, um atraso de vida.

 

Amigos e camaradas: o diagnóstico está feito. A fotografia está tirada. Não irei perder muito tempo com isso. Temos o trabalho de casa feito desde que, em 2009, António José Seguro coordenou nas Caldas da Rainha a equipa de elaboração do programa eleitoral do Partido Socialista caldense. Caso os militantes me queiram como candidato à presidência da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, irei trabalhar afincadamente num caderno de soluções concretas, um elenco de medidas reais, realistas, viáveis, num programa eleitoral participado pela população para que todos possam não apenas perceber, mas associar-se a ele e construir com clareza aquilo que queremos ser, aquilo que devemos fazer, aquilo que defendemos e os valores que perseguimos.

 

Tenho muito orgulho em que seja o partido socialista o primeiro, senão o único partido caldense, a deixar aos seus militantes a escolha livre do seu candidato para as autárquicas em 2013. A legitimação que isso trará à minha campanha é duplamente reforçada. Estou nesta corrida para ganhar, evidentemente. Mas nesta prova não haverá vencidos. Ao escolher o candidato, todos já ganhámos. A solenidade do acto eleitoral torna-se campeão, com o exemplo socialista. E, vencidas as eleições, estas e as de Outubro, contarei com todos os socialistas para nos situarmos com clareza ideológica, com pensamento, mas também com acção e intervenção.

 

Voz.

 

É este o emblema da minha campanha. Escutar e dar voz a quem queira fazer coisas pelos outros. E, neste sentido, sei que tenho à minha disposição uma equipa motivada, jovem, vocal, trabalhadora, devidamente guarnecida pelo traquejo dos camaradas mais experientes e fortalecidos que neles reconhecem o futuro do partido socialista. Uma equipa plural que representa diferentes sensibilidades dentro do partido.

Repito: o maior problema actual da política é a exclusão. Farei disto uma obsessão. Tenho para mim a noção vivida de que nenhuma política dispensa o Outro. Liderança para mim é sinónimo de equipa.

 

O politólogo Robert Putnam, numa obra importante para quem queira perceber o nosso tempo político, diz que o tempo que hoje vivemos exige uma participação política plural, com “cidadãos peritos e pessoas que fazem”, como diria Henrik Bang. Que toda a acção política contemporânea é impossível de realizar sem uma dinâmica de equipa. Que nenhuma liderança sustentável se conserva sem dar espaço e voz activa ao Outro. Putnam diz que quem o não faça, quem não trabalhe em equipa, estará desde o início condenado – e é esse o título do seu livro - a jogar Bowling sozinho. E, mal sabe Putnam que, nas Caldas da Rainha, sabemos bem, na pele, o que significa ter um executivo a jogar Bowling sozinho.

 

Quero, pois, pedir-vos que votem na minha candidatura por saber que é uma candidatura integradora que recusa excluir seja quem for, conquanto venha por bem e pelo trabalho. É uma candidatura que já provou querer estar com todos os militantes e não com alguns. Falámos com todos. É uma candidatura que trará caras novas e ideias novas, mobilizadoras e validadas pela experiência autárquica, por plurais experiências profissionais mas também por insubstituíveis experiências de vida. É uma candidatura contemporânea com uma visão simplificadora dos processos de participação política.

 

É uma candidatura, enfim, assente no valor das pessoas e por isso escolheu este lugar para ser apresentada. Silos de cereais que se convertem hoje em contentor criativo. Uma incubadora de liberdade e de dinamismo artístico e empresarial. Uma belíssima ilustração do que podem ser as Caldas da Rainha. Um lugar que irrompa, pujante, criador, brilhante onde antes havia apenas decadência e impasse, desleixo e monotonia. A minha candidatura aposta neste virar de páginas. Temos muitas por folhear, bem o sei e já não se pode mudar o que ficou para trás. Mas esta candidatura condiz com o futuro das Caldas da Rainha.

 

Um futuro que não pode continuar a ser mais do mesmo passado, com fotocópias gastas de um mau original. Não podemos eleger atrasos de vida. Não nos podemos permitir a mais atrasos de vida. Merecemos, todos merecemos, mais e melhor.

 

Chega de tanto atraso. Chega de tão pouca vida.

 

publicado por Rui Correia às 14:10
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