Quinta-feira, 15 de Abril de 2004

basófias

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A campanha de comemoração dos trinta anos do vinte e cinco de Abril e o conceito que este ano lhe subjaz, apresentado no início de Março de 2004, procura impor que comemoremos, não os 30 anos da "Revolução do 25 de Abril", mas os 30 anos da "Evolução do 25 de Abril". Imediatamente, um amigo declarou-me por escrito que já se preparava para, no próximo dia 5 de Outubro, festejar a "Implantação da Epública".
Este ano, as comemorações procuram, assim, dar uma nova face à efeméride; voltada de frente para o que têm sido estes trinta anos e de soslaio para o que foi o 25 de Abril.
Sobre isto há algo a dizer. Cumpre celebrar o 25 de Abril, este ano e sempre, antes de mais nada, pelo que foi. E o que foi não carece de reformulação. Foi uma revolução.
A ideia pela qual o 25 de Abril impõe um preceito de futuro é pacífica. Portugal calou naquele dia as forças que narcotizavam o seu progresso. Apagou de uma só vez a intolerância política. Não creio que alguém judicioso consiga discordar disto. É risível imaginar que esta passagem da "revolução" para "evolução" seja fortuita e não sublinhe aquela clássica malquerença visceral pelo socialismo revolucionário, do qual se deseja apagar esta expressiva inicial.
Não está em causa, nunca esteve, a teleologia progressista da revolução dos cravos. “25 de Abril é evolução” sim, mas é, antes do mais, revolução; é revolução, tanto na acepção política como na histórica, ensinada por Fernand Braudel, nos bancos de todas as boas universidades.
O que aqui se revela é algo diverso. Como diria um economista, perdoe-se a rima, trata-se de um takeover hostil do 25 de Abril. Uma necessidade de mudar-lhe os fundamentos socializantes e esquerdistas que lhe deram origem. Trata-se, novamente, daquela tentação antiga de um governo tentar reescrever a história. Como Salazar e Ferro o fizeram inúmeras vezes. Esquecem que o que se comemora é, em primeiro lugar, um evento histórico, e um conceito político depois. A própria comissão o confessa no seu programa de comemorações:

"Passados 30 anos da institucionalização da democracia é natural e desejável a existência de diferentes memórias sobre este percurso representado pelo pluralismo ideológico e político que está na base da diversidade institucional, partidária, autárquica e associativa que caracteriza a sociedade portuguesa."

A comissão procura impedir uma apropriação política com uma apropriação política. Fica por explicar como o 25 de Abril, celebrando a revolução, não celebra a evolução, o pluralismo e a diversidade. O que sabemos é que esta celebração plural tem conhecido ao longo dos tais trinta anos uma ralação permanente por parte dos partidos anti-socialistas. Uma celebração de que estiveram convictamente arredados muitos dos que agora o desejam disputar como seu, como se alguma vez o não tivesse sido. Conseguiram mesmo impedir que a data fosse devidamente solenizada em 1993. No dia 24 de Abril desse ano, António Pinto Leite, deputado do PSD, publicava no Expresso um artigo intitulado “O fim do 25 de Abril”, onde dizia, com infinita lhaneza:

“O 25 de Abril tem a força de ter dado à liberdade uma tarefa e tem a fragilidade de se esgotar, como ideia histórica, a dado momento dessa tarefa. (…) Os últimos anos desta década serão o auge e a consumação dos sonhos razoáveis e datados do 25 de Abril. Serão, nessa medida, a sua realização, a sua suprema responsabilidade, o seu «fim».
O século XXI encontrará uma outra data, uma outra referência, algures na construção europeia, um outro sonho sensato para Portugal.”

Nem a propósito: enquanto escrevo estas linhas, chega-me do correio um jornal onde se diz que a Câmara de Pombal rejeitou a atribuição de uma medalha de honra do município a Salgueiro Maia. Procura-se, nesta linha, esvaziar o conteúdo revolucionário de um evento revolucionário. Naquela outra “leda e triste madrugada”, enquanto os demais dormiam a sono solto, um punhado de revolucionários teve a bravura histórica de, mordendo a sua própria vida, destruir a ordem estabelecida que mastigara uma nação inteira.
Em 1988, na sessão parlamentar comemorativa do 25 de Abril, o deputado do PS Jorge Sampaio confessava:

“É aos jovens que não viveram o 25 de Abril que o PS quer dirigir em especial esta intervenção. Aqueles que o não sonharam nem viveram, porque é a eles que nos compete transmitir o que ele representa.
No fundo, é a eles que o 25 de Abril se destina: quer o que aqui comemoramos hoje, quer o que vivemos há catorze anos. Em conjunto, somos a geração política a quem compete fazer a transição entre o autoritarismo e liberdade, intolerância e pluralismo, entre atraso e desenvolvimento, arbitrariedade e justiça, entre a lei do mais forte e a solidariedade social, entre coacção e democracia.
A nossa tarefa está longe de estar concluída. É impossível transmitir-lhes, a esses jovens, o que foi esse dia: a euforia, a emoção, os abraços esfusiantes e os projectos exaltados que trocámos intensamente, cruzando a cidade e o País de ponta a ponta, envoltos no fio da história que se construía perante os nossos olhos e que representava para muitos um sonho fielmente sonhado ao longo de anos. É por isso e por muito mais que jamais esqueceremos os capitães de Abril, a quem prestamos comovida homenagem. Não é uma frase de retórica, mas um sentimento profundo.
Este é o dia em que ultrapassamos o que nos divide para recordarmos e festejarmos uma data que simboliza os princípios intraficáveis onde nunca nos poderemos dividir, sem com isso pôr em causa os fundamentos e a estabilidade do regime democrático.”

Este casamento feliz entre evento passado e conceito de futuro é o que ergue o 25 de Abril à condição de feriado nacional. Não se pretenda ver nele uma manifestação esquerdista, que carece de pluralismo e maior precisão ideológica. A ser verdadeiramente genuína esta necessidade de depuração dos eventos patrióticos, divertir-me-ia a contemplar os malabarismos teóricos que se imporiam sobre os anos de 1383, 1640, 1820 e 1910. Por outro lado, imagino o que seria os partidos de esquerda a quererem rever fundamento nas celebrações religiosas. Comemorar o Natal como o dia de anos de um grande revolucionário ou a Páscoa como o emblema de todos os anti-fascismos.
Este ano, os cravos já não são verdes e muito menos vermelhos, como o Portugal. Têm as cores que a arte-pop quer que tenham. Este ano, o 25 de Abril lê-se da esquerda para a direita. Laranja e azul primeiro, bordeaux e verde, a seguir.
O que se pretende este ano do 25 de Abril é que ele deixe de representar aquele aperto que atira historicamente os partidos de direita para as bancadas marginais da festa da liberdade. Sentir-nos-emos todos mais confortáveis se o 25 de Abril mudar. Se o 25 de Abril fizer mais sentido. Se, no mínimo, ele passar a ser “evolucionário”.
Mudar o 25 de Abril para que ele faça mais sentido é pretender saber mais do que sabiam os capitães da mais cativante e inspiradora revolução da Europa do pós-guerra.
Basófias é o nome que em Coimbra se dá ao Mondego quando tem caudal a menos para tão sumptuoso rio.
publicado por Rui Correia às 12:20
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