Terça-feira, 30 de Junho de 2009
crisálida
acrenarmo.jpg

E pronto, quais festivais de Verão, quais quê?, aí está a esperada "borboletização" do coro do Agrupamento de Escolas de Sto Onofre. Próximo dia 11 de Julho, em Leiria. Estão todos convidados para assistir ao mais desconcertante dos concertos do mais informal e colorido dos coros de professores deste hemisfério.

(Este é o blog da associação ACRENARMO que, há 20 anos, vem procurando reforçar laços afectivos entre todos quantos amam Moçambique).


publicado por Rui Correia às 21:31
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mindblowing
Tendo crescido sempre numa cultura germano-anglófila, felizmente interrompida durante quatro anos com um curso de história onde ler em francês era imposição antiga e incontornável, é-me muito frequente pensar em inglês. Isto tem explicação. Quando era pequeno brincava com os meus bonequitos de chumbo - e depois plástico - sempre em inglês. Sempre. A música e a televisão reforçariam a minha anglofilia. Deixei de ler legendas há muitos anos e passo a vida a consultar o dicionário inglês/inglês sempre que me aparece um verbo novo como "to converse". Em minha casa sempre houve um dicionário desses perto da televisão. São, por isso, inúmeras as vezes em que, de repente, me vêm à mente expressões inglesas, antes de virem ter comigo as suas equivalentes em português. Até nisto o português chega sempre atrasado - atavismos endémicos, presumo.

Hoje ocorreu-me, veloz, uma: mindblowing. Os anglófonos usam esta palavra sempre que querem referir-se a algo digno de deslumbramento. E hoje tive uma notícia digna desse deslumbramento. Arqueólogos alemães encontraram uma flauta com 35 mil anos, feita a partir de um osso de grifo. Só isto.

A ideia pela qual um antepassado nosso fez furos num osso para produzir algo tão imaterial como uma melodia é-me - lá está - mindblowing. Acordei para a etnomusicologia com um livrinho de John Blacking "how musical is man?" (University of Washington, 1973). O meu excessivamente amigo Miguel Martinho passa a vida a insistir para que eu me dedique a um doutoramento nesta área. Eu esquivo-me como posso, mas uma flauta do Paleolítico, a 10 mil anos da extinção do Neandertal é realmente algo de desvanecedor. Não sendo a primeira vez que se documenta que a arte (dança, pintura, escultura) constitui uma instância primeira do homem e que a arte pela arte pode mesmo constar da cronologia cultural da evolução humana, é algo que me devolve ao que de mais rousseauniano transporto comigo. Essa imanência da bondade onírica do Homem e da sua irremediável vocação poética, teimam em ser a presunção maior, ou se quiserem, a água benta, desta minha desconcertante demora pelo planeta dos homens.

Tudo isto dentro de uma medíocre flauta de osso com 22 centímetros; mindblowing.

A notícia está aqui:



publicado por Rui Correia às 00:47
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Sábado, 27 de Junho de 2009
swingicultura
O conde



O duque



O presidente



e o rei.



E aqui ponho o Harry James, que não teve direito a cognome, mas fazia isto com o lendário Buddy Rich na bateria:



E, outro dos descognomizados, o atlântico Tommy Dorsey.



publicado por Rui Correia às 02:46
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Sexta-feira, 26 de Junho de 2009
xenodixit
Portugal é único. E isso tem de acabar.

Portugal era o único país europeu a ter as suas chefias escolares eleitas democraticamente, aspecto em que foi invejado por muitos outros países que adoptaram o modelo unipessoal sem qualquer sucesso que faça divergir os seus resultados de gestão quando comparados aos nossos.

Como Portugal era o único a fazer isso, decretou-se: acabe-se com isso.

Portugal era (é?) o único a lançar um bandeirante sistema de quotas para aceder ao escalão máximo da carreira de professor.

Como Portugal era o único a fazer isso, decretou-se: acabe-se com isso.

Em Portugal o indispensável é que haja alguém estrangeiro a dizer coisas. Se não for estrangeiro, ao menos que seja da OCDE. (Eu, como conheço gente da OCDE, sempre vos vou dizendo que os tipos são óptimos, mas não me parece que se tenham em tanta conta quanto os portugueses os têm).

Certo e sabido é que, se for um estrangeiro a dizer coisas, faça-se e decrete-se como diz o senhor ou a senhora do estrangeiro. É como diziam os gato fedorento num outdoor célebre: “Com Portugueses não vamos lá”.

Ontem, foi o Don Tapscott que dizia que o modelo português é o melhor. Se ele diz, (e atenção que ele é estrangeiro e ao mesmo tempo que é estrangeiro também não nasceu em Celorico da Beira ou Sever do Vouga), é porque é verdade.

Hoje, é a consultora Deloitte que diz que Portugal anda a inventar.

Imediatamente acendeu-se o alarme “xenodixit”. 'Red Alert Red Alert. Alguém de fora disse coisas sobre nós'. Acendem as luzes e todos andam em correria com os braços no ar nos corredores.

"- Mas que dizem eles? - perguntam-se uns aos outros.

- Parece que isso das quotas é coisa portuguesa. - responde alguém.

- Portuguesa? Mas portuguesa, como? Só portuguesa? Mais ninguém? Ninguém? Nem no Vanuatu?"

Vivemos no síndroma pós salazarista do “inadmissivelmente sós”. É preciso é calma. É preciso é placidez. O povo é sereno. Se Portugal era (é?) o único país da Europa a ter quotas, então imediatamente, se percebe, sempre se percebeu, só não via quem não quis ver, que isso das quotas, sempre foi, nunca deixou de ser e mesmo antes de Jesus, Maomé e Buda terem nascido, ainda antes de haver a palavra “ainda” e mesmo antes do advento natal da palavra “antes” já as quotas eram transitórias. Aliás, quando se inventou a palavra "quotas" aquilo já era para que significasse "coisa que é para acabar daqui a dias" e nunca o significado que, por corruptela dos tempos, acabou por vir malogradamente a adquirir.

Nada mais simples. Simplório.


_______
A propósito desta notícia.


publicado por Rui Correia às 21:52
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juízo
ybr.jpg

A crónica "Juízo final" do Alberto Gonçalves na Sábado desta semana é óptimo. Texto maravilhosamente solto, como dá gosto. Ler isto depois da conferência da Olga Pombo que ontem deu nas Conferências de Lisboa, no delicioso Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, é de uma congruência tal que nos reitera o bom caminho que vimos percorrendo. Demore o que demorar, caminhamos na nossa yellow brick road. Quem vier por bem, venha, venha também. O cérebro, o coração e a coragem surgirão na caminhada.


publicado por Rui Correia às 15:12
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smooth criminal
"Professor, escute isto:", dizia-me um aluno há uns dias ao mesmo tempo que colocava um dos seus auriculares na minha orelha.

A morte estúpida do Michael Jackson é-me tão paralisante que nada saberia dizer sobre aquele de quem o Fred Astaire chamava "The only male singer who I've seen besides myself and who's better than me". A sua importância na banda sonora da minha vida é absoluta.

(Era o "You are not alone".)



publicado por Rui Correia às 00:57
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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
...
Toda a determinação é um lugar reticente.


publicado por Rui Correia às 19:50
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aplauso
Absolutamente brilhante a conferência de Olga Pombo. (www.conferenciasdelisboa.net). Que valentia de argumentação e que disponibilidade intelectual para uma prelecção tão controversa como essencial. A amplitude por que nos passeamos por dentro destas ideias simples, imensas, chegadas de um senso comum inabalável e de uma disciplinada admiração pelos gigantes que nos regem a todos. Que coragem oratória a sua. Muitíssimo bons os momentos sobre a escola como uma inevitabilidade estratégica da efemeridade humana, o engodo postiço da avaliação e as protuberâncias curriculares da escola. Em breve poderemos revê-la e, espero eu, reler toda a lição. Tire-se daqui lições indispensáveis. Todo o ministro, todo o responsável educativo deveria estudar esta conferência muito a fundo, antes de assumir o que quer que fosse. É a partir deste ponto de vista que as coisas poderão avançar com resolução e sageza. A mudança de paradigma educativo no século XXI passa por um retorno sintético às fundações do acto legatário de ensinar.


publicado por Rui Correia às 19:28
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emigrar
telejornal.jpg

Eu bem sei que por vezes o mau jornalismo é gritante. Ainda ontem guardei no meu gravador de vídeo duas peças em que dois jornalistas de estações diferentes tentavam saber se num determinado prédio de Lisboa se encontravam os escritórios de uma fundação. Um descobriu-a e o outro não. E tanto um como o outro transmitiram as suas disparatadas conclusões. Mas emigrar para Espanha só por causa disso também me parece excessivo.


publicado por Rui Correia às 17:39
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Conferências de Lisboa
Pode seguir aqui em directo a lição de Olga Pombo, intitulada "Afinal o que é a escola?". Às 18h00m.

[ abrir a transmissão em janela separada ]


(link facultado por www.conferenciasdelisboa.net)


publicado por Rui Correia às 17:23
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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
réplica
Providência cautelar deferida contra Ministério da Educação

Coimbra: tribunal suspende tomada de posse de directora de Agrupamento de Escolas

Público - 23.06.2009 - 21h45 Graça Barbosa Ribeiro

Os contestatários do novo modelo de gestão das escolas, imposto pelo actual Governo, obtiveram ontem a primeira vitória, com o deferimento pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra de uma providência cautelar que suspende a eficácia de todos os actos que conduziram à eleição da directora do Agrupamento de Escolas Inês de Castro, em Coimbra.

De acordo com Catarina Moreira e Alexandra Barbosa, as advogadas que conduziram o processo, o pedido de suspensão foi apresentado pelas duas vice-presidentes do Conselho Executivo daquele agrupamento que, no dia 15 de Junho de 2007, foram empossadas para um mandato correspondente ao triénio 2007-2010.

Os procedimentos que conduziram à eleição de uma nova directora, este ano, foram sustentados na legislação que, na perspectiva dos juristas do Ministério da Educação, impunha que em todas as escolas ou agrupamentos aquele processo estivesse implementado e terminado até 31 de Maio. Isto, independentemente de, naquela data, ter ou não expirado o mandato do conselho executivo eleito no âmbito do anterior regime.

Mas o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra acolheu como válida a argumentação apresentada pelas vice-presidentes. Que, segundo as advogadas, suas representantes, se baseou no DL 115-A/98, que estabelecia o prazo de três anos para o exercício do mandato dos Conselhos Executivos; e no nº 2 do artigo 63º do novo regime de gestão escolar, que estabelece que aqueles órgãos eleitos completam os seus mandatos nos termos do referido decreto-lei.

“Parece-me evidente que, terminando o mandato [das vice-presidentes]
em 15 de Junho de 2010 e estando designada a posse” da nova directora, “a não aplicação, desde já, das providências requeridas terá como consequência a formação do facto consumado de aquelas não terem podido exercer o seu mandato até ao seu termo normal”, pode ler-se na sentença.

Contactado pelo PÚBLICO, o assessor de imprensa do Ministério da Educação, Rui Nunes, disse que ali ainda não é conhecida “a decisão do Tribunal que, seja qual for, será, naturalmente, cumprida”.


publicado por Rui Correia às 13:52
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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
renovo
Um amigo recordou-me um poema tão famoso quanto temível do Yeats:

"Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the center cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity..."

Talvez porque a idade me vem sendo amiga, senti a obrigação de lhe recordar que não é como Yeats diz. Que, ao menos, não é só como o bardo sentiu. Que também é como Rousseau acreditou. A "cerimónia da inocência" só se afoga se o convencimento disso mesmo resultar inulto.
Vejo disto ilustrações todos os dias. Aqui e ali. Escondidas, é certo, por detrás das intensidades apaixonadas com que nos procuram embriagar e ensandecer a vida. Mas estão vivas. O amor e outras coisas ainda mais menores que o amor. Não nos convençamos. Vençamo-nos disto. Cada dia mais e mais.


publicado por Rui Correia às 12:28
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Domingo, 21 de Junho de 2009
...
pinkpillow.jpg


publicado por Rui Correia às 10:19
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Sábado, 20 de Junho de 2009
cherokee
ministraindia.jpg

Todos o sabemos. Ela tinha declarado guerra aos professores. É certo que a senhora sempre se esforçou, infrutiferamente, em negar esta evidência. Recentemente, com uns resultados eleitorais que não lhe fizeram bem nenhum, a senhora multiplica-se (ou desmultiplica-se, como se diz em futebolês) em declarações a tentar demonstrar o indemonstrável (uma palavra que também podia aplicar-se ao “monstro burocrático da avaliação”). Ou seja, que não tem nenhuma guerra com os professores e que os defende muito, muito, muito, muito. Muito. É certo que na véspera de manifestação fez lançar nos jornais o número total de faltas de todos os professores do país. Mas isso já lá vai. É certo que na véspera de outra manifestação fez lançar nos jornais o dinheiro que se gasta em horários mal concebidos pelos malvados professores. Mas isso já lá vai. Enfim, é certa muita coisa, mas a senhora anda numa lufa lufa a tentar deixar de ser, junto dos professores, aquilo que será para o resto da sua vida: a responsável pela maior inépcia que alguma vez passou pelo ministério da educação e a maior produtora de legislação num contexto que sofre há décadas de sobrelegislação.

Declarou, pois, guerra aos professores, e tenta agora – será por amor ou por conveniência? – dar a impressão que não. Mas tudo lhe corre mal. Na fotografia do Público em que ela ainda tem o topete – à revelia do que diz José Sócrates, António Vitorino, António Costa – de sugerir que se regresse ao modelo burocrático de avaliação de 2008 (é uma das duas opções), a senhora Maria de Lurdes Rodrigues aparece com umas sombras denunciadoras no seu hierático rosto.

É, por isso, oficial: a ministra da educação fez pinturas de guerra.

E para quem julgue que isto é fotografia montada clique-se aqui.


publicado por Rui Correia às 13:41
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eférriá
Tenho dois amigos que se chamam "José Mota". Um deles é o José Mota, meu colega de Sto Onofre, esfomeado leitor e prazenteiro companheiro de tertúlia. O outro é o José Mota que comigo tem algumas histórias mais académicas, universo com que mantemos uma conivente relação, como dizer isto?, muito David Lodge.

Pois, num contexto muito académico, quero aqui publicamente mandar um éférriá (sou um bocadinho "brioso" nestas coisas, que hei-de eu fazer?) a este meu segundo José Mota cuja defesa de tese simplesmente "blew the room away" na última Quarta-feira. Uma tese completamente fora dos cânones tradicionais da apresentação e metodologias formais destas coisas onde revelou um conhecimento claro, íntimo e objectivo sobre Personal Learning Environments Web 2.0. Especialista em e-Learning, o Mota invoca nesta investigação uma certa inevitabilidade incómoda de progredirmos para um e-Learning 2.0 (e isto nada tem a ver com b-Learnings e quejandos). E digo "incómoda" porque a eloquência dos seus argumentos é tal e tão copiosamente demonstrada que é difícil que muitos dos seus colegas de trabalho, habituados por profissão ao e-Learning, possam ignorar os ensinamentos que esta importante prosa introduz, obrigando-os mesmo a importantes reconversões metodológicas. Depois de ler algumas dezenas de páginas da sua tese posso, mais uma vez, concluir que não há nada complexo que não possa ser transmitido com simplicidade. É o caso deste seu magnífico texto. Para que algo resulte brilhante não carece de mais do que uma ideia conscienciosamente perseguida e alguém que saiba como dominar as constantes interrogações que cada superação implica. Na sua afabilidade inata, o José Mota faz este exercício com a maior das naturalidades neste diligente texto de 200 páginas. Depois, disponibiliza a sua tese em formato interactivo digital, recorrendo ao Drupal, desse modo demonstrando que ouvir falar é giro, mas só deve dar-se atenção a quem fez e a quem faz. É essa, afinal, a virtude do trabalho: fazem-se coisas quando se trabalha.

Para além do mais, ver o Mota a argumentar com aquela serenidade escorreita e risonha que o caracteriza, é um privilégio que me honrou testemunhar pessoalmente na bonita sala de actos da Universidade Aberta.

Parabéns pelo novo grau académico que te obriga agora a perseguir novo patamar e muito obrigado pela oportunidade de, como de costume, aprender contigo.


publicado por Rui Correia às 11:48
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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
CAPturas VII
Era inevitável. Voltámos atrás no tempo. Regressámos ao Word. Na minha escola depois de tantos erros clamorosos, como alunos que passam súbita e indevidamente de um 7ºB para o 7ºD, alunos que desaparecem, fichas de alunos que deviam desaparecer e não desaparecem, classificações do segundo período que se mantêm inseguras, abertas para alteração (mantinham, caso não fosse alguém a correr a fechá-las para evitar males enormes como alguém mudar as notas deste e daquele, ou distorcer a média final dos alunos do 9º ano – ai, se os pais e encarregados de educação soubessem disto…), bases de dados cujo layout é invadido e modificado por mãos incapazes de saber sequer a delicadeza filigrana de o fazer e as repercussões plurais resultantes desse gesto, campos que desaparecem e por aí fora, depois disso tudo, dá-se a abdicação: voltámos ao mundo maravilhoso do Word.

Agora põe-se de lado a base de dados que gere profissionalmente esta escola há quase uma década, sempre numa construção versátil e participada. e faz-se isto porquê? Porque, simplesmente, é muito mais fácil escrever os nomes todos no Word do que aplicar-se na indispensável aprendizagem de Filemaker que gerir esta escola impõe.

Começaram a aparecer. Listas de vigilantes. Listas de presença. Listas de directores de turma. Agora tudo volta a ser feito com o Word. É o neolítico de regresso. O computador volta a ser uma “potente máquina de escrever, com a virtude de poder guardar ficheiros e voltar a abri-los mais tarde sem ter de voltar a escrever tudo de novo”. Parece um texto tirado de uma acção de formação do século passado. Eu sei, porque eu dinamizei acções destas durante doze anos da minha vida.

O inefável Word. Os professores e o Word - uma ligação calorosa. A verdade é que nunca tivemos esta fase na nossa escola. Muitas escolas nos inícios dos anos 90 fizeram o seu caminho assim. Maravilhadas com o Word. Depois, evidentemente, mudaram todas – todas - para bases de dados. Nós aqui desafiamos o tempo. Voltamos ao Word. Toca a escrever minha gente. Hoje esta lista. Amanhã aquela. Resultado: quando as asneiras aparecem, e aparecem sempre que o Word aparece em cena (o director de turma do 9ºE passou imediatamente a ser um colega que nem lecciona a turma) é fazer como dizia o Sr. Presidente da CAP, “Sabe, isto diz aqui 'Conselho extraordinário', mas eu sei que não é; foi só porque eu fiz copipeiste e…”.


publicado por Rui Correia às 12:23
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liderança
É que por vezes poderíamos ficar sem a memória certa do que nos levou a muitos - e mesmo o meu pungido amigo Rogério Guimarães - a votar PS. Foram discursos e atitudes como estas:



É impressionante como o tempo é realmente um grande escultor.


publicado por Rui Correia às 11:55
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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
CAPturas VI
Acerca de uma reunião inenarrável, plena de inutilidade, aparentemente presidida por alguém que constantemente repete que nada tem a ver com nada, e que, sabe-se lá porquê, arrastou consigo para esta assembleia dois elementos da CAP (o que estavam lá a fazer escapou-nos a todos) só me resta concordar com a conhecida máxima do Einstein:

"Só há duas coisas infinitas , o universo e a estupidez. E não tenho a certeza acerca do primeiro."

De facto já me tinham falado muitas vezes da serôdia falta de educação e boçalidade petulante de algumas destas tristes figuras que um dia decidiram, à falta de outra perspectiva de vida, brincar aos directores de escola, achando que para isso basta fazer cara séria e fingir muito. Confesso que sempre imaginei que o que me diziam tinha a ver com alguma animosidade que a situação naturalmente ocasiona, por ser tão inédita e exorbitante.

Não tem.

Excluindo - até agora - um colega jovem que me parece genuinamente interessado em saber aprender, a CAP de Sto Onofre conseguiu reunir uma selecção de individualidades digna de registo. Digo-vos: temos ali um caso de estudo. Ver uma pretensiosíssima rapariga nova a tentar explicar profissionalismo a pessoas que têm o dobro, o triplo, o quádruplo da sua experiência, seja a dar aulas, seja a vigiar exames, seja a dirigir escolas, ouvi-la arengar frases do tipo "Não queria ter de falar alto" ou "que tipo de pessoas, já nem digo professores, seríamos nós se..." para um público com o traquejo e provas dadas que aquele tem, provoca em qualquer pessoa um estarrecimento sem nome. E perceber que nem percebe que o faz...

O que mais avulta nisto tudo já nem é o atrevimento ignorante; é a humildade fingida - aquela que faz com que estas pessoas lancem para o ar frases estratégicas do tipo

"eu sei que sou incompetente" ou "eu sei que tenho conhecimentos muito limitados"

provavelmente num exercício de antecipação, desta forma evitando que os outros o façam. Por ser tão provável que sim. Subtis chantagens.

Culminar esta pusilanimidade postiça com a falta de maturidade de terminar abruptamente uma reunião para não ter de ouvir o que certamente não convém escutar é algo a que nunca tinha assistido nos meus anos de escola.

Navegamos mares nunca dantes navegados, meus amigos. Esta gentalha vê-se a si mesma como caravelas.


publicado por Rui Correia às 21:07
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Terça-feira, 16 de Junho de 2009
CAPturas V
air macau.jpg

Ele esperou bastante tempo por ela. É daqueles tipos que deram tudo à sua profissão. Aplicou-se na educação de muitos milhares de rapazes e raparigas com um sorriso e com uma seriedade irrepreensíveis. Por onde passou, deixou sempre a reputação de um distinto professor e de um magnífico colega. Mas o tempo de serviço não perdoa. Um dia, aguardado, alguém o chamou para que fosse à secretaria: “Sr. Professor chegou a autorização da sua aposentação”. Ele, que tinha a mulher a vinte mil quilómetros de distância, foi para casa, tratou das suas coisinhas, olhou em volta antes de fechar a porta pela última vez, fez questão de se despedir pessoalmente dos seus amigos mais cúmplices e disse adeus. Foi de avião. Quando chegou, encontrou a meiguice que esperava encontrar. Hoje o tipo passeia-se, disfarçando saudades sorridentes, nessa Macau eterna que conhece bem, de há muitos anos.

Enquanto isso, a vinte mil quilómetros de distância dali, chegava à sua antiga escola, a senhora professora que o veio substituir.

Pois, hoje telefonei-lhe a dizer que toda a sala de professores chorou a rir, porque tanto ele como outra colega aposentada estão convocados por esta CAP para uma reunião de avaliação de final de período.

Pois é.

(Felizmente, a reunião é ao fim do dia e foi marcada com as necessárias 48h de antecedência. Se assim não fosse, ainda podia ter alguma desculpa para não aparecer).


Para o Agostinho vai este videozinho um bocadinho piegas - só um bocadinho - que roubei ao Paulo Prudêncio mas que aqui ainda fica melhor.



publicado por Rui Correia às 15:08
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CAPturas IV
bombeiro.jpg

Imagine-se isto. Uma escola anda anos a tentar estabelecer um sistema de informatização cuidada de praticamente tudo o que implica trabalho burocrático do professor. A ideia não é armar ao pingarelho moderno. A ideia é facultar aquilo que a então direcção da escola elege como sua tarefa essencial: providenciar tempo aos professores. Tempo, sim. Preenchido com pedagogias, projectos, alunos e mais nada. Chega ao ponto de tornar digitais os suportes de informação para articulação de projecto curricular de turma, (terminando assim inúteis e prolongadas reuniões), projecto educativo (ampliando os processos de discussão colectiva), plano de actividades (constituindo um referencial flexível, versátil, adaptativo e auto-sustentado) e mesmo até, para sonoro aplauso do então Sr. Secretário de Estado, uma coisa nova chamada “actas digitais”. Sobre este avanço, muito estudado e debatido com a tutela, consegue-se um final feliz: felicita-se a perenidade, a segurança e pesquisabilidade da informação legal. Um desfecho que prestigiou, pelo menos nesta minha escola, os serviços de inspecção educativa, que na altura assinalaram a bondade e capacidade desta acção.

Agora imagine-se ver, como hoje vi, um conselho de turma, o primeiro do terceiro período, que pára durante uma hora inteira porque uma CAP não sabia o que fazer com uma base de dados de actas digitais. Não pensou nisso. Esqueceu-se ou nem sequer pensou que as actas são coisas necessárias. Não se abriram as actas deste período. Estariam certamente ocupados com muitas outras coisas indispensáveis, como marcar conselhos de turma de avaliação. Enfim, sem mais delongas: informático ou não, ninguém pensou que era preciso trabalhar para que houvesse livro de actas disponível. Achavam que estas coisas caíam do céu. Durante uma hora de nada feito foi um corrupio de gente a salgalhar a própria base de dados. À espera do que iria acontecer, olhávamos, incrédulos, os computadores que nos iam mostrando em tempo real o evoluir do improviso:

De repente, o sítio (campo) onde se lança o dia da reunião desapareceu.
De repente, o sítio (campo) onde se lança o mês da reunião foi duplicado e foi parar em cima do campo do mês que já lá estava (o que permitiu que, por ócio involuntário, colocássemos dois meses, um em cima do outro: sucesso).
De repente, ao reparar que, por asneira, se apagara o campo do dia da reunião, alguém escreveu “15” no lugar onde estava o campo, para dar a ideia que o problema estava resolvido; (esta cintilante solução faria com que todas as reuniões tivessem o dia 15 como data, fossem elas realizadas em que dia fosse).

Mas, de repente, uma hora de riso depois, aparecia finalmente o “livro de actas” devidamente preparado para começar uma reunião.

Milagre, Senhor, milagre.


Ná. Não há milagres. Aparentemente, um dos antigos membros do Conselho Executivo – os tais que esta CAP veio expulsar – foi, por bombeirice voluntária, arrumar a azelhice alheia e apagar o incêndio dos novos pirómanos.

Pergunto eu: será que esta CAP, nomeadamente o seu presidente, ainda mantém a ideia pela qual esta escola o “hostiliza” e lhe dificulta a vida? Que esta escola, malvada, como diz a canção, se “uniu para me tramar”. Ou será que, apesar da inaceitável impreparação suicidária que esta CAP exibe diariamente, terão já compreendido a dimensão da sua dívida pública? Uma dívida que se acumula todos os dias. Será que perceberam que, sem a ajuda destes bombeiros, as coisas podiam correr um bocadinho - só um bocadinhozinhinho - pior do que já correm? Em que moeda se pagará esta dívida?


publicado por Rui Correia às 00:31
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CAPturas IV - circular interna
Imagine-se que a CAP de Sto Onofre é um gato. Um dia, o gato vê ali, mesmo à mão de semear, um novelo a andar à roda (uma escola em velocidade de cruzeiro). E, sem pensar muito bem nas consequências, atira-se-lhe, felino, de unhas afiadas.



publicado por Rui Correia às 00:28
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
tantos
A campanha dos professores vista com olhos de ver. Ainda por cima com música dos Foo Fighters. Muito bom. Que pena não se saber quem o realizou.



publicado por Rui Correia às 21:48
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Domingo, 14 de Junho de 2009
golpe
"O Governo mantém intacta toda a sua legitimidade para governar, está a aplicar o seu programa e está mandatado democraticamente pelos portugueses."

É renovadamente penoso ouvir o ministro Pedro Silva Pereira "afirmar isto depois de ter brutal e voluntariamente interrompido o mandato eleitoral do Conselho Executivo do Agrupamento de escolas de Sto Onofre, eleito e inteiramente capacitado para conduzir o seu mandato até ao fim e cumprir o seu programa. Um golpe de Estado, literalmente."


publicado por Rui Correia às 17:06
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Sábado, 13 de Junho de 2009
nostalgias
Fui ver com um grupo de amigos os The Tubes - a minha banda de rock favorita durante muitos anos - que actuaram na mesma noite com os Foreigner (super profissionais), o que resta dos Clash (bem musculados) e os (surreais e coloridos) Madness. Podia estar aqui a noite inteira a dissertar, mas não estou para aí virado. Só vos digo que aqueles tipos estão todos absolutamente em forma. Foram seis horas, seis, de puro espectáculo. Saímos exaustos, mas de alma cheia.

tubes2009.jpg


E por falar em coisas descobri que os Earth Wind And Fire andam em digressão americana com os Chicago. Que reunião de arromba. Deixo-nos aqui um cheirinho - um tema lindo - com uma surpresa bem curiosa e um timbre familiar de voz que faz parte da minha e de muitas outras vidas.



Nestoutro clip pedia-vos que dessem especial atenção ao trabalho da secção de metais: irrepreensível. O bom gosto dos arranjos compensa largamente a pirosada das fatiotas.



publicado por Rui Correia às 20:51
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lei
A propósito do documento intitulado "Contra a avaliação de professores enquanto mistificação” que hoje foi publicado no jornal Público, cumpre-me comunicar que fui um dos que não assentiu subscrevê-lo. E fi-lo, dispensando-me desde logo de dizer o que penso deste processo de avaliação.

Não consigo, por um lado, compreender que alguns pretendam, como julgo que alguns ainda pretendem, apresentar um relatório criterioso de auto-avaliação que ninguém pediu, que ninguém vai ler e que, ainda para mais, representa precisamente aquilo que considero há muitos anos que não deve constituir um processo credível de auto-avaliação. Sou, em segundo lugar, um dos que pensam que, de facto, em democracia, os cidadãos não têm o direito de seleccionar as leis que melhor lhes aproveita obedecer. Considero, mesmo, algo deslumbrado e desproporcionado invocar o artigo 21º da Constituição. Não me parece nada que esta ficha de avaliação, uma questão tão absurda quanto absolutamente laboral, corra sequer o risco de alguma vez poder vir a violar as minhas “liberdades, direitos e garantias”. Considero mesmo uma extravagância invocá-lo para uma questão tão ridícula e irrisória como esta.
A minha completa desconsideração por este sistema de avaliação prende-se com a sua irredutível ineficiência e a sua insustentabilidade pedagógica. É neste campo que deverão esgrimir-se os argumentos. Invoco aqui a campanha que se vive em Sto Onofre. Está em curso uma disputa jurídica. Acredito nessa estratégia e confio no seu desfecho. E confiar implica aceitar democraticamente o seu desfecho. Seja ele qual for.

O teor deste valoroso documento subentende, contudo, que não existem mais armas a desembainhar antes de passarmos a uma determinação tão previsível e tonitruante como a de desobedecer à lei. Precisamente, a mesma lei que nos tem servido para documentar a inépcia, várias vezes comprovada, do legislador. Serve-nos para umas coisas, não nos serve para outras. Desde o princípio que o respeito pela lei por parte dos professores sustentou, por exemplo, a não entrega dos objectivos individuais.

Já o disse várias vezes, a luta dos professores é feita de subtis mas poderosos sucessos; alguns que nem os professores parecem por vezes compreender. Foi justamente a lei aquilo que silenciou a Senhora Ministra no Parlamento por várias vezes. Desde o princípio que sabemos que será a própria lei, as próprias “grelhas”, as próprias especificidades do modelo proposto, serão eles os mais irredutíveis e invulneráveis adversários do sistema. Os que o derrotarão. Não compreendo que seja agora atirado por terra o argumento legal que até aqui nos servia e serve. Se até aqui se poderia pensar que os professores querem uma avaliação mas “não esta”, agora parece que voltamos ao ponto dos que nada tendo, nada querem. E com esses não nos confundamos. Esta decisão da não entrega das FAAs, tão legítima como temerária, subentende uma inesperada deserção de esperança no desfecho jurídico, que é algo que eu não conseguiria subscrever.

Pela minha parte, quando e se for caso disso, tenciono inscrever na FAA, instrumento banalíssimo que aceito de forma absolutamente natural, todas as razões e argumentos que a própria ficha me fornecerá para demonstrar, com o detalhe adequado, a sua indesmentível inoperacionalidade e inconsequência. Nomeadamente, enunciarei os constrangimentos que a minha escola desde o início publicamente expôs e que demonstram inequivocamente a inexequibilidade da FAA (tempos legais para a definição de objectivos, ausência de quantitativos de referência, ausência de instrumentos regulamentares de referência, tempos legais de acompanhamento por avaliadores, incompatibilidades regulamentares, inadequação de estruturas representativas, etc.).

No momento em que deixe de acreditar na lei e no desenlace que dela espero, no minuto em que me digam que, e regresso a Sto Onofre, um acto eleitoral não é para ser respeitado, aí sim, estarei preparado com integral legitimidade para invocar a inconstitucionalidade dessa decisão e partir para um caminho que importe as consequências de uma desobediência à lei, quaisquer que sejam, sempre dignificantes, que essa convicção me imponha. Até lá, não.


publicado por Rui Correia às 19:02
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apologético
prateleira.jpg

Num dos blogues diários que visito, discute-se de vez em quando o que faz com que gostemos todos tanto de Portugal, afundados como sempre estamos no absurdo que este país infinitamente teima em nos mergulhar. Tenho para mim desde há muitos anos que uma das coisas que este país tem de mais íntimo e emocionante é esta sua descuidada higiene entre o esplêndido e o ignóbil em que todo o português se lava, quer o queira ou não; a convivência aparentemente incompatível que existe entre a saudade e as caracoletas, entre a filigrana e o courato.

O fado é, aliás, a melhor representação dessa intimidade esquizofrénica por fazer a ponte entre a poesia e a moela, entre o xaile, qual calor de mãe, e a unha crescida, qual canivete suiço. Outro conhecido fenómeno derivado é o improviso, a vocação portuguesa para o improviso, que estabelece esse luso ecumenismo entre a eficiência e a inépcia, entre o que está feito e o que já devia ter sido feito. Todos os dias encontramos razões que documentam esta quase endémica coexistência entre o estupor e o esplendor de Portugal.

Permitam que vos mostre uma das mais convincentes dessas demonstrações que se passou comigo há dias. Íamos em direcção à Lisboa, quando decidimos parar numa estação de serviço de autoestrada para trincar qualquer coisa. Como se sabe, hoje em dia há em Portugal redes de restaurantes especializados - franchises multinacionais - que asseguram uma inoxidável e asséptica assistência em viagem. Entrámos num desses restaurantes, pegámos num tabuleiro, depositámos comida celofanada em cima dele, empurrámo-lo ordeiramente nuns carris até à caixa e depois sentámo-nos. Foi nesse momento que eu reparei que, à minha frente, havia uma estante que exibia um anúncio que informava assim: “Artesanato”.

Fiquei intrigado porque não havia nas redondezas nenhuma peça de artesanato à vista. Apenas livros e revistas. Pensei: “Bem, isto antigamente devem ter vendido aqui artesanato e ficou ainda ali o anúncio”. Mas depois olhei melhor para os livros e tive de me levantar. Aquilo não eram livros como os que vemos nestes lugares, tipo Paulo Coelho ou Margaridas Rebelo Pinto ou Nicholas Sparks ou Nora Roberts. Nada disso, os títulos dos livros atiravam-me para outra dimensão inesperada.

Títulos disponíveis:

Tomo primeiro e terceiro da Corografia Portugueza e descripçam topográfica do Reino de Portugal, do Padre António Carvalho da Costa.
Hermenêutica Retórica, de Manuel Alexandre Júnior.
Comonitório & Livro apologético, de Orósio de Braga, edição bilingue.
Tertuliano Apologético, edição de José Carlos de Miranda.
Em busca das Raízes do Ocidente, volumes I e II, de Raul Miguel Rosado Fernandes.
Apríngio – uma biografia.
Didachê, de Philotheos Bryennius.
La Fontaine, contos.
Evaeave e Maria trimphante – Theatro.
Crónicas da Ordem dos Frades Menores, de Fr. Marcos de Lisboa.
Agiológico Lusitano, de Jorge Cardoso.
Agiológico Lusitano, Estudo e Índices, de Maria de Lurdes Correia Fernandes.
Santuário Mariano.
Philippica Portugueza.
Revistas da Sociedade Portuguesa de Geografia e um variado sortido de revistas científicas portuguesas.

A ideia pela qual eu encontre títulos destes à venda numa estação de serviço de auto-estrada é-me excelente. Mas nem foi isto que mais me divertiu. Nem sequer foi ver que por baixo destas prateleiras, carregadinhas de erudição exegética, estavam também à venda umas revistecas com brindes para empregaditas e cachopos. Não. O que me fez confirmar que estamos em Portugal, neste estupendo e simbiótico Portugal, foi ver a excelentíssima e lusitana colecção de filmes pornográficos que alguém escolheu para colocar precisamente por cima deste móvel, a uma distância inalcançável, ainda por cima, para um tipo como eu, que nem sou baixo.

Títulos disponíveis:

Metam as cassetes na minha padaria.
A minha noiva é uma mulher de chicote.
A minha noiva é uma mulher de chicote 3.
Cús com chantilly (sic)
Canibais sexuais.
Fim de semana lusitano – episódio Sábado.

Depois, saí dali com uma única coisa na cabeça:

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publicado por Rui Correia às 15:52
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Sexta-feira, 12 de Junho de 2009
primeiro lugar
1lugarthumb.jpg


Pelo prazer que deu e porque os meus alunos se aplicaram como uns heróis para dar este trabalho por concluído, apresento-vos aqui a versão web do projectinho "primeiro lugar". Ele pretende dar a conhecer o local que vinte convidados põem em primeiro lugar da sua lista pessoal como aquele que mais os marcou, seja por nele terem vivido coisas boas ou não. É especialmente empolgante saber que um dos nossos convidados tem 90 anos de idade e outro tem 100 anos de idade. O trabalho é dedicado ao Sr. Joaquim Tomaz, avô de uma aluna, que faleceu no decurso deste projecto. Guardamos para sempre a sua derradeira entrevista.

Aqui.


publicado por Rui Correia às 19:32
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vilas vivas
Parabéns à Foz do Arelho e A-dos-Francos que viram hoje aprovada no Parlamento a elevação à condição de vila. São, ambas, localidades que protagonizam a realidade cultural plural do concelho das Caldas da Rainha. Uma cidade que insiste, serodiamente, em julgar o seu centro histórico como o único centro histórico do concelho.

Esta afirmação pública da projecção destas duas localidades, a que esteve directamente ligada a acção discreta mas imediata do deputado António Galamba, reforça a ideia pela qual as freguesias das Caldas precisam de ser tratadas como parceiros estratégicos e não como namoradas de ocasião em tempo de eleições.


publicado por Rui Correia às 18:46
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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009
rigor
Maria de Lurdes Rodrigues, 28 de Maio de 2009:

«Há quatro, cinco escolas em que não apareceram candidaturas ou que houve problemas de outra natureza, em que os concursos abertos acabaram por não ter resultados positivos, mas são quatro ou cinco escolas, não mais do que isso em todo o país»

Disse ainda que:

«é uma situação absolutamente excepcional, sobretudo tendo por comparação o que acontecia com o modelo anterior em que todos os anos mais de uma centena de escolas necessitava de intervenção dos serviços do Ministério da Educação na nomeação das comissões administrativas».

Público, 11 de Junho de 2009

"Oitenta e quatro por cento das escolas já elegeram os seus directores. A informação de que 975 das 1164 escolas e agrupamentos existentes já concluíram este processo, é avançada à Lusa pelo secretário de Estado da Educação, Valter Lemos."

Ou seja, se acreditássemos nas coisas que diz o secretário Valter Lemos, a 31 de Maio de 2009 tínhamos 189 escolas sem direcção.

Quase daria para concluir que talvez exista uma diferença entre “quatro ou cinco” e
CENTO E OITENTA E NOVE.


Vejamos qual é:

escolas.jpg


Isto é que é um caso de rigor. Rigor mortis.


publicado por Rui Correia às 22:34
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orgulho
alexandre.jpg

Sem o saber, ele é provavelmente um dos alunos que mais coisas me ensinaram na vida. Chama-se Alexandre Cremades e tem aquilo que todos temos: necessidades educativas especiais. Mas o Alexandre tem mais ainda do que os seus colegas. É por isso que cuidamos melhor dele do que dos outros. Discriminação pura. Da melhor, evidentemente. É um rapaz cheio de sentido de humor – adoro quando ele me chama “totó” em reacção a eu ter-lhe dito um dia que não se armasse em “totó” comigo, quando me disse que não iria conseguir fazer uma coisa qualquer. É um tipo muito trabalhador. A sua mãe é um ser humano extraordinário e conserva desde o primeiro dia uma sobriedade gentil, risonha, difícil e um amor de excepção por um rapaz excepcional.

O Alexandre supera as suas dificuldades com um esforço consistente, permanente e tem, pois claro, direito às suas preguiças. Como um adolescente. Termina este ano o seu ciclo de estudos apenas por ter sido capaz de superar os desafios, muitos deles enormíssimos, que lhes fomos colocando. Vai deixar-nos e não quis deixar de nos dar um recado de agradecimento. No abraço que lhe dei no último dia de aulas, ficou-lhe no ombro uma lágrima furtiva. Tenho-lhe uma enorme estima e sei o que os meus colegas, mais do que eu, fizeram por ele. Não me vou a nomes, que os sei, porque sei que preferem assim. A maior lição que me deu o Alexandre é daquelas, nada originais, mas que ficam para sempre: tudo reside sempre no que exigimos fazer de nós mesmos.

O Alexandre deixa esta escola mais rica. Esta escola deve-lhe muitíssimo. Por tudo quanto nos obrigou a trabalhar, a ler, a estudar e a perseverar. Ficámos melhores com ele, por causa dele. Estamos mais bem preparados agora do que antes do Alexandre. Nós é que lhe estamos agradecidos e obrigados. Fica aqui o cartão que o Alexandre me deu e que me orgulha mais do que qualquer diploma. “O professor explica bem e faz sempre a turma sorrir”, escreveu-me ele há uns dias. É esta uma das mais valiosas avaliações que possuo. Obrigado, Alexandre. Tenho um enorme orgulho em ter sido teu professor. Felicidades, rapaz.


publicado por Rui Correia às 22:34
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