Domingo, 25 de Abril de 2004

a RIN

Ao contrário da RAN (reserva agrícola nacional) e da REN (reserva ecológica nacional) a RIN é inesgotável. Mas já lá vamos.
Li, noutro dia, talvez no dia 19 ou 20 de Abril de 2004, uma crónica assinada por Miguel Sousa Tavares, no jornal “O Público”, de completa indignação em relação a uma intervenção discursiva do actual Presidente da República, Jorge Sampaio. Dizia o cronista, que o Presidente tinha prestado um mau serviço ao país quando disse que o mesmo não podia ser todo RAN e REN. Argumentava ele, que tal asserção só servia os promíscuos e demoníacos interesses conjugados de autarcas, de governantes e de construtores civis. Mas estará o Presidente em desacordo com esta ideia? Ele, o cronista, lá saberá do que fala. A paisagem portuguesa teima em dar-lhe razão.
Como tenho muita honra em ter este Presidente, andei uns dias a pensar nos motivos que o levaram a afirmar que havia país para além da RAN e da REN. E pior do que isso, intrigou-me o facto do Homem dizer uma coisa destas e nem uma alternativa apresentar. A ideia da RIN é minha.
Uns dias depois, a 23 de Abril de 2004, dou comigo integrado numa comitiva oficial que celebrava, nas Caldas da Rainha, os 30 anos do 25 de Abril. A cerimónia iniciou-se num quartel (uma escola de sargentos), pelas 10h00, com um belo discurso do senhor Presidente da República, seguido do tradicional desfile das forças em presença – havia anos que não assistia ao aprumo das marchas militares ao som de uma das suas orquestras privativas. Devo confessar – com todos os riscos que uma confissão destas pode assumir – que não fui para o palanque. Detesto apertões. Fiquei mais atrás, onde tive a oportunidade de ver todo o espectáculo sem ter que estar em bicos de pés. Não desgostei.
Dali fomos todos para uma sala – seria a messe de oficiais? – onde se deve ter passado alguma coisa de muito interessante. Não passei da porta de entrada, pois de apertões já estamos conversados. Fiquei no exterior, onde tive a oportunidade de assistir e participar numa entrevista a uma rádio em resposta a uma pergunta muito pouco evolucionária: “onde estava no 25 de Abril?”
A romaria devia dirigir-se à vizinha escola de artes onde decorria um congresso que iria beneficiar da presença do Presidente. Pensei que deveria haver mais uma inauguração pelo meio. Estávamos convidados. O Presidente merece quorum.
Tudo acontece muito rápido. O protocolo funciona bem. Vou atrás. Chego ao hall e vejo mais apertões. Espero. Entro no auditório cheio e sento-me. Ouço os discursos. Volto a esperar e volto a sair no carro vassoura. Ouço duas congressistas: “viste os gravatas todos a reboque do Presidente?”. Que dizer? A pessoa que me acompanhava – engravatado mas sinceramente preocupado com o quorum – olhou-as de modo tão reprovador que o embaraço de arrependimento foi logo evidente.
Seria a RIN a funcionar? Afirmam os eruditos que basta que existam dois humanos para que a RIN se propague. Os estudos mais recentes, apontam mesmo os humanos com destaque “mediatico” como o principal alvo da RIN. Estaria o Presidente a pensar nos perigos de CRIN (contaminação pela RIN) pelos mais fundamentalistas – e, já agora, de todas as formas de totalitarismo - adeptos de um país exclusivamente RAN e REN?
Ah, claro, RIN significa: reserva da inveja nacional. Inesgotável, repito.
publicado por Rui Correia às 18:36
link deste artigo | comentar | favorito
1 comentário:
De Rui Correia a 26 de Abril de 2004 às 10:34
Apoiadíssimo. Alguns momentos de que gostei especialmente (sabes como sou nestas coisas, gosto de dissecar a anatomia dos textos e revolver-lhe as miudezas):

"Ele, o cronista, lá saberá do que fala. A paisagem portuguesa teima em dar-lhe razão." - Na verdade, com uma paisagem tão eloquente, como negar-lhe a defesa?

"havia anos que não assistia ao aprumo das marchas militares ao som de uma das suas orquestras privativas" - imaginar-te a olhar para tudo isto por trás de uns providenciais óculos escuros diverte-me até à medula.

"Não desgostei." Fica bem o reparo de simpatia.

"Não passei da porta de entrada, pois de apertões já estamos conversados." Para mim a melhor frase do texto, em termos literários.

"O Presidente merece quorum.", trata-se da melhor razão para andar atrás de alguém que já alguma vez ouvi. Razão mesmo suficiente para pôr uma gravata à volta do pescoço.

"Carro vassoura", um ciclismo com os pés bem assentes na terra

"RIN" - inesgotável, os recursos naturais do nosso país pedem por exploradores tipo Serpa Pinto para lhe fazerem uma cartografia. O teu texto constitui uma possível introdução.

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d