Quinta-feira, 6 de Maio de 2004

vagar

Não se diz em poucas palavras. A ideia é justamente essa. É indispensável rodear o assunto o mais que se consiga. Nunca pretender abordar a matéria rapidamente, sucintamente, brevemente, abreviadamente, sinteticamente, concisamente, laconicamente, sumariamente, resumidamente, como o homem hoje tudo pretende. Mas mente.
Tomar o tempo todo para o dizer. Com vagar. Ir a pé até lá chegar. Se existir uma forma expedita e curta de o fazer, nunca seguir esse caminho. Ao encontrar um atalho, uma via desembaraçada, ágil, ligeira, despachada, de o fazer, escolher, então, o rumo oposto.

Quando, por fim, subia os degraus da Catedral de Santiago de Compostela que se cruzavam consigo, descendo pelo tempo abaixo até ao século XI, nada o interessou da sua arquitectura, de nada lhe importou estar no fim do Camiño. O seu olhar ficou preso ao cansaço dos degraus. O mármore tinha sucumbido ao desgaste de tanto passo. Pisava as passadas passadas de milhões de outros pés antes dos seus. Horas e dias nunca chegaram a dar por eles. Só os séculos os denunciaram. Hoje já nem é bem um escadório, são leitos curvos de pedra onde o tempo se sentou a repousar. Só então, tão junto do fim, percebeu que o Camiño não é chegar ali. O Camiño é percorrê-lo. Não é tê-lo percorrido. Não apenas para sofrer-lhe as agruras ou as alegrias, mas para que se demore a lá chegar. Com aquela mesma lentidão poderosa do incensário de latão que voa de um extremo ao outro da nave, para purificar o ambiente quando os peregrinos dormem na catedral.
O tempo, percebeu então, é arável como a terra, contornando os engulhos e progredindo aos empurrões. Lentamente, vagarosamente, paulatinamente, pausadamente, demoradamente. Não se diz, embora se possa, em poucas palavras.

O tempo só deixa saber-se pelo vagar com que se diz.
Quando o tempo passa depressa é porque se perdeu a noção do tempo.
publicado por Rui Correia às 23:37
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2 comentários:
De rui a 8 de Maio de 2004 às 10:53
Não sei se o que disseste à Ana foi exactamente aquilo que ali vem escrito, mas está bem... :-)
De frangipani a 7 de Maio de 2004 às 22:30
"Quando o tempo passa depressa é porque se perdeu a noção do tempo". Ainda ontem dizia isso à Ana Maria Fernandes, embora nunca tenho ido com ela no rally paper.

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