Sábado, 8 de Maio de 2004

unamerican celebration

No Verão de 1997, encontrava-me nas ruas de uma cidade de Fall River em plena American Celebration Day, com paradas, veteranos de várias guerras, maçãs caramelizadas, carros de bombeiros, misses sentadas em cadillacs rosa e cromado, sousafones brancos, enfim, o pacote completo (the whole shabang), quando, de repente, sem que eu lhe tivesse pedido nada, recebi, das mãos de uma risonha senhora com sérios problemas de peso, duas reproduções em cartão dos documentos fundamentais da democracia americana que até em Portugal se estudam na escola: a Declaration of Independence (4 de Julho de 1770) e a Bill of Rights (4 de Março de 1789).
Surpreso, apurei que as cópias haviam sido produzidas pela Bay Community Baptist Church, em Swansea, Massachusetts. Esta prodigalidade fez-me, nesse momento, pensar no carácter icónico - e irónico - que estes textos representam para os americanos. Não acho que tenha ido com isto longe demais. Afinal, tinha acabado de receber das mãos beatas de uma seguidora de uma remota igreja baptista os dois documentos fundadores da jurisprudência americana. Mas compreendo muito bem que a eventual implicação semiológica deste episódio nos poderia levar até onde o sofisma o desejasse. Não me perderei por aí.

Certo, certo é que nunca algo de semelhante me havia acontecido, a mim que ando sempre atento a estas coisas. No meu contingente excursionismo internacional, assinei em Londres um abaixo-assinado a favor da libertação de um apagado advogado, prisioneiro algures num país escolhido, entre dezenas, pela Amnistia Internacional e assisti a um comício no Brasil contra a ALCA e o chamado livre comércio entre as Américas, (contra a qual não apenas os ameríndios e esquerdistas latino-americanos se opõem furiosamente, mas também os sectores mais reaccionários da sociedade americana, que temem a invasão de estrangeiros). Mas nenhum destes incidentes supera aqueloutro, por se tratar de iniciativas circunscritamente políticas. Esta perspectiva americana atingiu-me fortemente porque, tratando-se da mais antiga democracia do planeta, é sentida ainda uma constante necessidade, dir-se-ia mística ou mesmo religiosa, de regressar às origens e rever os fundamentos teóricos da nação, que os mais jovens são, aliás, compelidos a conhecer na ponta da língua.

Recordo este evento por ter hoje passado três horas a assistir em directo, pela CNN, a uma muito antecipada audiência da United States House Committee, que questionou desapiedadamente a conduta dos mais altos responsáveis das forças militares americanas, no caso dos abusos cometidos por seis soldados americanos a prisioneiros iraquianos. Transmitida em directo para todo o mundo, a sessão teve momentos de gravíssima utilidade, quaisquer que sejam os patamares de análise.

Muito brevemente: em Novembro e Dezembro de 2003, seis soldados americanos infligiram a uma soma de prisioneiros iraquianos as sevícias mais requintadas, envolvendo demoradas sessões de humilhação sexual, tortura e sadismo, tudo acontecendo às claras, no interior da prisão de Abu Ghraib, uma instalação prisional zelada por tropas americanas. Para mais tarde recordar, os envolvidos gravaram em vídeo e fotografaram briosamente estas sessões, havendo mesmo alguns deles que enviaram fotografias pela internet para os mais diversos destinos. A cadeia de televisão CBS recebeu algumas delas e tratou imediatamente de recolher dois cds inteiros com o registo foto e videográfico de toda esta prolongada barbárie. A estação contactou o Pentágono, que imediatamente compreendeu que algo grande iria rebentar (A big deal). A 29 de Abril o programa “60 minutes II” apresentava ao mundo imagens gráficas de absoluto horror.

A sessão de hoje perante a US House Commitee reflectiu a indignação do povo americano, primeiro, e dos outros povos todos, depois. A sessão foi desabrida e muito pouco superficial.
Donald H. Rumsfeld começou por ler um discurso de desculpas, no qual acatou com severidade todo o costado político deste caso. No princípio da semana, um grupo de doze congressistas americanos pedira ao presidente que demitisse o seu carismático secretário da defesa. Estas movimentações reforçaram a única posição possível de Rumsfeld para justificar a sua decisão em não abandonar o cargo: a apropriação política que se está a fazer do caso é intolerável. O ex-aviador aproveitaria também para acrescentar que dizer que esta questão pode assumir contornos partidários constitui uma depreciação da realidade, (That is, probably, the understatement of the day).

No momento em que se começava a debater as condições de existência de uma prisão sobrelotada, Rumsfeld interrompeu com veemência dizendo que “estes crimes humanitários não se contextualizam com questões de qualidade de vida no exército. Tenham os soldados acesso a uma ração de combate ou a um bom restaurante, não é aceitável contextualizar condutas tão indignas como estas” (That is, absolutely, not the issue, here).
Quem viu o quê e quando, passou a ser o tema primordial da sessão. Espantosamente, Rumsfeld declarou que só “ontem à noite” vira as fotos que todo o mundo já vira e revira enojado. Esse descuido custou-lhe ouvir as imprecações de alguém que lhe exigiu que repetisse que conheceu as alegações de abusos numa prisão no Iraque ocupado desde meados de Janeiro de 2004. Sobre o material fotográfico, o senador Lindsay Graham preparou a opinião pública, anunciando que o pior ainda está para vir (The worst is yet to come).
A sessão provou que as condições de vida na prisão eram péssimas e que existia um problema sério de liderança: “Uma unidade em que oficiais, sargentos e soldados não usam os seus uniformes de forma regulamentar e se tratam por Joe ou Jim, é uma unidade com um sério problema de moral”, disse Rumsfeld.
Questionado sobre se este seria mais um caso em que, por causa de uma péssima chefia militar, apenas meia dúzia de soldados seriam punidos escapando ao braço da Justiça todos quantos, mais graduados (top brass), permitiram tal falta de zelo, Rumsfeld foi bem claro: “Maldito seja eu, se, por razões substancialmente políticas, vou andar à procura de um conveniente bode expiatório”. “Respeito a sua resposta”, insistiu o congressista, “mas compreendeu, no entanto, o que lhe perguntei?” Rumsfeld calou-se, dizendo que sim.

Foi elucidativo ver como esta questão foi tratada por alguns congressistas da comissão: uns referiram-se a este processo como uma “tragédia”; outros chamaram-lhe “crise mediática” (media crisis); um deles, com o formigueiro político de se ver citado no jornais de amanhã, referiu-se-lhe como uma Pearl Harbour das relações públicas americanas (This is the Pearl Harbour of american public relations); uma congressista ainda disse que este acontecimento terá repercussões na política externa americana durante os próximos vinte anos; três ou quatro foram bem explícitos ao dizer a estes generais que deveriam ter informado antecipadamente o Congresso, em vez de este vir a conhecer todos os detalhes pela televisão; disseram, mesmo, algo enigmaticamente, que os poderiam ter ajudado na gestão desta crise (we could have and would have helped you dealing with this crisis). Rumsfeld admitiu que tinham razão.

Não querendo deixar de falar na comissão, um congressista ausente fez um depoimento telefonado, no qual disse que, nessa manhã, haviam sido torturadas e atropeladas uma mulher e suas filhas por um pai e marido tresloucado e que nada disso havia sido notícia nos jornais que, no entanto, publicaram tudo o que dissesse respeito à crise no Iraque e à forma como vulgares criminosos de guerra iraquianos eram tratados numa prisão dos arredores de Baghdad.

Um congressista de Rhode Island perguntou o que pode ser feito para atenuar esta malquerença contra os Estados Unidos da América, que sai tão fortalecida com este deplorável acontecimento. Rumsfeld respondeu que o que há a fazer é o que os Estados Unidos da América sempre fizeram em momentos de crise: levantar a cabeça e continuar com a vida habitual da melhor forma possível, acariando responsabilidades e procurando corrigir os erros. Disse também que o mundo conhece os Estados Unidos da América; que o mundo sabe que aquilo que os Estados Unidos da América fazem, sempre que alguém comete erros, é exactamente aquilo que estava ali a acontecer: os principais responsáveis são julgados e punidos, todo o processo é público, e publicitado por uma imprensa livre; disse que é deste modo que se aprende uma lição imprescindível: a de que é assim que a democracia funciona (That is how a democracy works). Mas depois disse mais. Demais. Disse também que se milhares de pessoas fazem fila todos os anos para entrar no país, não é por a América ser o Mal (That is not because America is Evil).

No final da sessão, foi dada a um militar na reserva, que assistira a todos os trabalhos, a oportunidade de apresentar um depoimento. Homem de falas cautelosas e serenas, afirmou então, que ele mesmo, como qualquer outro soldado americano, seguiria Rumsfeld até ao inferno, se necessário fosse (we would follow you to hell, if needed be). Este reservista trouxe para o debate uma palavra que há já muitos anos não ouvia e para a qual não há tradução adequada; disse que todos os actos cometidos por estes soldados eram “unamerican”.

Reli os textos que me deram em 1997 na rua. Expurguei os numerosos detalhes abjectos desta sessão que, no domínio da abjecção, foi transbordante. Posso, como disse atrás, deixar-me levar até onde o cinismo me mover. Posso compreender a conveniência de armar a tenda da democracia e liberdade de expressão como cosméticas possíveis para uma fealdade iniludível. Mas, dito isto, não conheço melhor sistema político do que aquele que, ao falhar, transmite a todo o mundo pela televisão a admissão da sua responsabilidade, assumindo a sua vergonha e pedindo perdão pelos seus erros. Neste sentido, neste sentido único, recebi hoje uma celebração americana de liberdade, de decência ética e de decoro político.

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publicado por Rui Correia às 02:49
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1 comentário:
De frangipani a 11 de Maio de 2004 às 22:59
Neste sentido, neste sentido único, recebi hoje uma celebração americana de liberdade, de decência ética e de decoro político. Desaguamos aqui, é verdade. Mas ficou por saber o que é que falta mudar se é que se acredita que "aquilo" não deve voltar a acontecer. Utopia? Que seja. A condição humana leva-nos e levar-nos-á, sempre, a estas tragédias. E depois?

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