Domingo, 9 de Maio de 2004

ideologias

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E é assim. Hoje apetece-me lançar uma definição para provocar a discussão. Será que o vou conseguir?
Lançar uma definição é uma questão que nem se devia colocar, claro, porque as definições pertencem ao universo das ideias que se explicam. E se se explicam não se discutem.
Discordo. Isso, discordo do que acabei de dizer. Tudo o que é irrefutável é falso.
Bem, mas o problema é outro. O que me interroga é se haverá alguém que se interesse em discutir a definição de que vou pegar mão. Mas também podia dizer, é evidente, uma outra coisa qualquer. Pode-se sempre dizer uma outra coisa qualquer. Há mesmo quem diga que o importante é dizer. É como no fazer. Diz-se que o que verdadeiramente importa é dizer que se faz. Embora, nesse caso, e dado a efemeridade da vida moderna, a amargura do retorno seja tão veloz quanto a sua ascensão.
Mas voltemos ao assunto. Poderia ter começado com a seguinte interrogação: será que as pessoas se interessam em discutir definições? Mas mais do que isso, e talvez o cerne da questão, é pensar que serão um ou dois os que vão ler este pequeno emaranhado de palavras. E um deles sou eu.
Desgraça.
Mas não se perde nada em tentar. Aliás, nunca se perde nada por tentar. Não conheço uma alma sequer, e vejam bem que eu digo alma e não corpo, que tenha dito que se arrependeu por ter tentado. Ideologias. Ah, é esta a palavra de cuja definição vou pegar mão.

Definição de ideologia: conjunto de interesses inconfessáveis.

Ainda bem que fica aqui marcada a hora a que escrevi esta pequena loucura. Digo-o assim, porque perdi a homilia do professor Marcelo em plena televisão. Ideologias que assentam na definição proposta?
publicado por Rui Correia às 21:19
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2 comentários:
De frangipani a 12 de Maio de 2004 às 22:41
Por acaso pensava que o Louis Althusser tb tinha uma obra de título Freud e Marx. Lembro-me do Nietzsche e...não estou para ir às pesquisas. A ideia do vital é intresecamente realista :) Não vi melhor e enriquece muito a frase :)
De Rui Correia a 11 de Maio de 2004 às 10:39
Quando Marx, o barbudo que sobreviveu em Londres à custa de um subsídio pago pelo New York Times, reformula o conceito de ideologia que, até então, (e isto será sempre muito interessante), havia tido por objecto a chamada "teoria genética das ideias", herdada da concepção francesa setecentista de Cabanis ou Destutt de Tracy, (filósofos nobres franceses que a conceberam como algo que caminha lado a lado com a fisiologia humana), ele, o barbudo comunista, refere-se-lhe como um "sistema de representações que domina o espírito de um grupo social". (Que fuga à mecânica materialista que lhe conhecemos, hein?)
O velho Louis Althusser, um espírito inteligentíssimo, prisioneiro dos alemães durante a segunda guerra mundial, e que já hoje ninguém tem a audácia de citar, refere-se-lhe como uma definição desligada do factor cronológico e mesmo material, adicionando à dialéctica materialista um inóspito reagente freudiano.
Com este enquadramento, julgo que a definição com que brincas reitera, mesmo assim, uma definição que já antes escutara de outrem que a havia colocado de forma ainda mais penetrante referindo-se às ideologias como "interesses vitais inconfessáveis".
Tanto a inconfessabilidade assume um carácter menos cúpido e mais inconsciente, assim como a introdução do elemento vital pode recuperar uma certa perspectiva intrinsecamente animal, fisiológica, com raízes no referido setecentismo francês, que não recusa o conceito de "vontade", (os tais "interesses") como elaboração espiritual do humano.

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