Terça-feira, 11 de Maio de 2004

tomar Tomar

Um dos problemas maiores da pintura, desde sempre discutida intimamente pelos artistas é a relação entre expressão e comunicação. De um lado, atender ao impulso de dar luz e traço a um – digamo-lo assim – estilo próprio, do outro pressagiar a angústia resultante de não existir contacto entre uma expressão legitimamente simples ou hermética, comungante ou individual, idiossincrásica ou ideológica e uma comunicação capaz e sociável desta enunciação original. O mesmo, julgo, se passa com a crítica de arte. A formulação de uma verificação semântica de um discurso artístico implica uma vocação comunicante que se impõe sobre o crítico. Aquele que entra num museu e dele sai sem nada ter compreendido é tão credível quanto um crítico de arte que, emaranhado no seu próprio enredo semântico, procura extrair os propósitos mais indevidos para uma obra que o possa até autorizar, mas que os não procurara intencionalmente.
O acaso deixou-me que hoje escutasse uma maravilhosa entrevista a Rui Mário Gonçalves, crítico de arte premiado e professor na Universidade de Lisboa. Sem grande hesitação considero-a um dos melhores momentos de rádio que tive a sorte de escutar. Percorreu toda a história da arte portuguesa e europeia do nosso século, sob o pretexto da exposição de 20 obras escolhidas por José Augusto França, patente no Museu Municipal de Tomar.

Desde as preocupações do modernismo com as escolas que o precederam, as incertas ligações de pintura contemporânea a um certo surrealismo pós-freudiano; a problemática do acaso na pintura ocidental, a intrigante distinção entre a arte caligráfica oriental, mais prestigiada na China do que a pintura, e a arte caligráfica ocidental, os signos abertos orientais contra os signos fechados, que nos chegam, na sua expressão mais remota da arte rúnica gaélica; a maravilhosa definição de arte abstracta que Rui Mário Gonçalves explicou e que, já agora, me atrevo a rever, para não esquecer, por palavras necessariamente minhas:

um quadro figurativo impõe sobre o espectador um aprisionamento incontornável. Um retrato pode suscitar a ideia pela qual determinada pessoa retratada é “realisticamente” representada. A integração que esta competência de avaliação permite apazigua o espectador, ao ponto de poder mesmo apreciar ou não aquilo que vê. Pode até comentar-se que um nariz ou uns olhos são parecidos com os de minha mãe. Neste sentido, o figurativo delimita – não a limitando, compreenda-se – a superfície interpretativa, o território expressivo que pode desejar-se expor e oferecer. No discurso abstracto, suprimidos, mesmo, todos os elementos figurativos, impõe-se um novo quadro de referências ambivalentes, dos quais apenas resta, dir-se-ia, a estética. “No abstracto temos, por assim dizer, só estética”, aventurou o crítico. E este desafio é especialmente polémico por tão desligado das contrapartidas que o figurativismo sempre faculta ao espectador. O abstracto obriga a termos de lidar com a ausência de competências especiais para apreender um significado concretizável das coisas, e se esta falta constitui razão ancestral de angústia, ela é também o fundamento de toda a indústria humana. Figurativa, por aparente paradoxo.

Isto, entre muitas outras novidades. Uma lição de erudição cristalina, sem impurezas, sem maneirismos, com um sapiente encantamento. Que aula extraordinária. Que sentido tão completo de comunicação exigente e cabal. Uma maravilha. Vamos lá então a Tomar.
publicado por Rui Correia às 11:21
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4 comentários:
De frangipani a 12 de Maio de 2004 às 22:35
Claro. E é precisamente aí que entra a "só estética". Sem barco ela nunca existe. Qualquer que seja o barco; ou os barcos. De preferência os barcos.
De rui a 12 de Maio de 2004 às 01:10
Sim, mas interessa saber com que barco desembarcas?
De frangipani a 11 de Maio de 2004 às 17:57
“No abstracto temos, por assim dizer, só estética”, aventurou o crítico.
Para mim é suficiente. Por mais voltas que lhe dês é sempre aqui que desembarcas.
De rui a 11 de Maio de 2004 às 11:46
"O Museu Municipal de Tomar será inaugurado pelo Presidente da República, no dia 9 de Maio
A assinatura do contrato de doação da colecção José-Augusto França, que constituirá o Núcleo de Arte Contemporânea do Museu Municipal de Tomar, decorreu, no dia 23 de Abril, no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
A cerimónia contou com a presença do professor José-Augusto França, do presidente do Instituto Português de Museus, Manuel Bairrão Oleiros, e do presidente da Câmara Municipal de Tomar, António Paiva.
O Núcleo de Arte Contemporânea do Museu Municipal vai ser inaugurado pelo presidente da República dia 9 de Maio, pelas 15 horas. Na ocasião abrirá também ao público, na Galeria dos paços do Concelho, uma exposição biobibliográfica de José-Augusto França.
Com a inauguração do Núcleo, Tomar ficará a possuir um espaço museográfico de grande importância, inteiramente dedicado à arte contemporânea portuguesa, com uma colecção pública que é única no país pela qualidade da sua origem e pela sua coerência de gosto pessoal, com responsabilidade crítica, sobretudo, no quadro da criação artística nacional dos anos 1940 a 1970, anos marcados historicamente pela eclosão do Surrealismo e do Abstraccionismo e já da Nova-Figuração, mas comportando também obras do Modernismo anterior e do variado Pos-modernismo que vem dos anos 70 até à actualidade.
Embora lhe faltem, naturalmente, representações de alguns artistas ilustres no período considerado, o vasto acervo exposto permite acompanhar o desenvolvimento da criação artística portuguesa na segunda metade do século XX, através de algumas obras da maior importância – dez delas seleccionadas em “100 Quadros Portugueses no século XX”, de J.-A. França (2001) -, e da autoria de uma dúzia de artistas distinguidos com os prémios anuais da AICA, instituídos em 1981, e os quatro titulares do prémio Maluda para jovens pintores (1999 – 2002), que são galardões significativos da vida artística portuguesa actual.
O edifício do museu, na Rua Gil Avô, junto aos Correios, fica ainda marcado por duas obras de grandes dimensões, expressamente criadas e amistosamente oferecidas pelo pintor e escultor José de Guimarães (escultura em aço que funcionará como ícone daquele espaço) e pelo pintor Eduardo Nery (um painel de azulejos), ambas no exterior do edifício.
O Núcleo de Arte Contemporânea integra obras dos seguintes artistas: José de Almada Negreiros, Armando Alves, Manuel Amado, Manuel Amorim, Fernando de Azevedo, Manuel Baptista, José Barrias, René Bertholo, Carlos Calvet, Gracinda Candeias, Alberto Carneiro, Carlos Carneiro, Manuel Casimiro, Lourdes Castro, Romy Castro, Vasco Costa, Raul Costa Camelo, António Costa Pinheiro, Cândido Costa Pinto, Ricardo Cruz Filipe, João Cutileiro, António Dacosta, Luís Dourdil, Mário Eloy, José Escada, Fala Mariam, Paolo Ferreira, Eurico Gonçalves, José de Guimarães, Alice Jorge, Júlio (Júlio dos Reis Pereira), José Júlio, Fernando Lanhas, Francisco Laranjo, Fernando Lemos, Luís Lemos, João Machado da Costa, Albertina Mântua, Bernardo Marques, Jorge Martins, Maria Lucília Moita, João Moniz Pereira, Carlos Moura, Emília Nadal, Eduardo Nery, Luís Noronha da Costa, Mário de Oliveira, António Palolo, António Pedro, Jorge Pinheiro, Júlio Resende, Joaquim Rodrigo, José Rodrigues, Henrique Ruivo, António Sena, Ângelo de Sousa, Eugeni Torrens, Cristina Valadas, Artur Varela, Marcelino Vespeira, Ana Vidigal e João Vieira.
Paralelamente, a Galeria dos Paços do Concelho, que é parte integrante deste Núcleo, vai retomar, a partir de agora, a sua vocação de espaço de exposições temporárias de complemento ao Museu. Assim, após a mostra biobibliográfica de José-Augusto França, será apresentada, em Junho, uma exposição de Eduardo Nery."

in

http://www.radio.cidadetomar.pt/noticia.php?id=508

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