Quarta-feira, 12 de Maio de 2004

teleimóvel

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Pergunto-me se, hoje em dia, ou mesmo à noite, é possível evitar que um telemóvel toque numa sessão qualquer de algum evento onde o silêncio seja adequado. Concertos, reuniões, palestras, cinemas, assembleias, liturgias, onde quer que se reúnam mais de três portugueses calados, tarde ou cedo se produzirá, por certo, uma repentina estridência digital. Olhando para mim, dir-me-ão Ninguém é perfeito. Têm, claro está, toda a razão.
Mas se sou capaz de entender isto, expliquem-me, por obséquio, as razões que levam uma pessoa a NÃO atender o seu telemóvel quando, num destes eventos silenciosos, ele desata a tocar?
Imaginemos – sim, porque isto não passa de um exercício de pura imaginação – alguém que está a discursar defronte de uma assistência interessada. De repente, na plateia, um telemóvel põe-se a trautear uma musiquinha do riquimartin ou aquela do titanique. Quando todos imaginavam que alguém faria alguma coisa para acabar com aquilo, eis que, subitamente, nada acontece. Toca, toca, toca e o toque dura, dura, dura e é duro. As cabeças viram-se, as testas enrugam, murmuram-se insultos entre dentes e nada, ninguém atende. O silvo de um Silva qualquer continua por ali fora, a esbofetear os trrim, trrímpanos de todos. Não está ninguém. Deixe mensagem após o sinal. Pip. Nada. Ninguém se mexe. Um verdadeiro teleimobilismo.

Ajudem-me aqui: o que é isto? Será o embaraço de assumir que não desliguei o som como, até eu, sei que deve fazer-se? Será vergonha de assumir que aquele intenso assobio digital é o meu? Fui apanhado. Uma coisa é certa: não é surdez, por várias razões. Será comodismo? Será isto o tal "perigo comodista" dos McCarthistas constipados? Será apenas inépcia em saber reprogramar um telemóvel? Será premeditado? Assim como uma coisa terrorista; uma espécie de atentado suicida, em que trago o apito explosivo atado à cintura, e fico ali, junto de muita gente inocente, à espera que me rebente nas mãos, para minha própria condenação e salvação eterna?
Ou será apenas aquele fenómeno antigo e simples que, à falta de melhor palavra, vamos identificando por “asneira”, palavra que descende, não o esqueçamos nunca, de uma etimologia apropriadamente asinina?
publicado por Rui Correia às 10:56
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