Quinta-feira, 13 de Maio de 2004

as minhas calças brancas parte II

calcas.jpg


Haverá ser humano que nunca tenha desejado ardentemente um objecto?
Estou em crer que a resposta é negativa.
O meu grande desejo material, devo confessá-lo, foi um par de calças. Lembro-me de ter quase 18 anos, quando passei pela montra de um loja em tudo inacessível e de me ter deslumbrado com um par de calças de ganga de cor branca. Não digo a marca por dois motivos. Seria publicidade e não me pagam para isso, e como ainda as tenho – e já vou com 45 – as outras marcas decerto que me processariam.
Enquanto massacrava os meus sagrados progenitores, conquistava, diária e pacientemente, as graças das “minhas calças brancas”. Foi uma inacessibilidade que não passou o primeiro natal.
O primeiro dia de calças brancas coincidiu com a minha maioridade moral. Eu sei que estas coisas da moral não têm barreiras definidas, mas, e desculpem-me a franqueza, ajuda-me a contar a história.
Saio de casa, depois dos inúmeros olhares deslumbrados para um espelho de corpo inteiro, e dou com um charco imenso. Se a minha intenção era a de chegar a um local que se situava exactamente no lado oposto à saída de minha casa, o aparecimento de um obstáculo lamacento surgiu-me como uma dificuldade inultrapassável. Parece-me que se compreende. As amadas calças brancas cheias de salpicos de uma mais que indesejada lama castanha? Nem pensar. Nem um pingo sequer. Havia que contornar o charco, com a certeza da sua finitude. E aí, decerto que o outro lado se alcançaria.
Têm sido anos e anos de caminhada e o charco parece não ter fim. Não raras vezes, recebo convites de pessoas que se atravessam charco adentro motivados pela impaciência para caminhadas longas, limpas e seguras. Chafurdam na lama, mas também nunca as tinha visto de calças brancas, é certo. Acenam-me do outro lado ou mesmo em pleno charco. A todos digo que não. E já não mudo.

Ah, e o que é que isto tem a ver com a morte, direis vós? O outro lado, o inferno de que vos falei, direi eu.
publicado por Rui Correia às 23:00
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1 comentário:
De rui a 14 de Maio de 2004 às 14:42
Absolutamente esplêndido, meu amigo. Que estupendo realismo metafórico. Nem para aqui é chamado o terror antecipado que sempre me assaltou nos meus primeiros e distantes dias, não de calças, mas de sapatilhas brancas e aquela mania desvirginal, muito popular no meu grupo de amigos, de jogar ao "pisa" sempre que se pressentia a presença de calçado branco nas proximidades. Mas como nada disto avulta quando o que dizes é tanto mais do que o que escreves. Muito bom. Cada vez me interessa mais a rapidez com que dás fim às tuas histórias. Como algo que lentamente começa, chega mesmo a parar e depois, perto do fim acelera até à vertigem, deixando-me sempre afogueado. "Uma bela ideia", dirias tu que aprecias o adjectivo. Agora, disse-to eu também.

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