Sexta-feira, 28 de Maio de 2004

trégua

lagrima.jpg


Fui hoje, novamente, abalado pela comoção. Somos todos iguais, felizmente. Mas não somos todos iguais, felizmente. Distingue-nos aquilo que ateia esse incêndio, a significância que deflagra um tal estremecimento. Uma fotografia, uma frase num livro ou na boca de um rapaz, um trecho musical de que me vou esquivando em legítima defesa, conduzem-me invariavelmente a um estado de sensibilização fundíssimo; tão integralmente inocente que me desarma em absoluto. É um estado limpo de exposição e de entrega intransmissíveis. Mas o que mais me enamora nestes instantes é a contiguidade enfeitiçada de sentimentos tão contraditórios; o seu oxímoro. É como sentir uma carne finalmente viva, em carne viva. Reproduz uma calmaria magoada que, ao mesmo tempo, parece persignar uma exausta mansidão; um armistício dorido que me robustece a serenidade. Quase sempre convoca uma epifania de tudo o que em nós possa existir de mais fundamental, de mais essencial. E esta visita pontual ao que mais genuinamente sinto e sou, esta descida ao poço de mim, obriga-me a uma renúncia de toda a afectação, torna supérfluas todas as defesas e transparente qualquer máscara. É como se nesse momento a candura fosse uma obrigação, um dever. Uma abdicação real. Com tudo o que uma abdicação implica de sacrifício e de emancipação. Um tal estado de desarmamento pode ser muitíssimo inoportuno, debilitante até, e nem sempre me é possível contrariar que estes abalos sejam perceptíveis aos outros. Mas talvez seja esta, simples e cálida, uma forma de despoluição encontrada por cada um de nós para revisitar o que nos existe de mais asseado e contundente, reconduzindo ao trono dos nossos dias o que de melhor temos por dentro, tudo condensado no fulgor joalheiro e freático de uma lágrima.
publicado por Rui Correia às 11:08
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1 comentário:
De cafezeira a 30 de Maio de 2004 às 16:20
não tens que sentir vergonha. todos nos emocionamos, se formos verdadeiras pessoas. eu queria vir comentar-te, assim em jeitos de cumprimento. não resisti em dizer uma tontice qualquer, num outro blog. mas não queria que tu não desses conta. só para te dizer olá.

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