Sexta-feira, 4 de Junho de 2004

conhecer

Ser professor de história permite-nos estar em contacto constante com a simplicidade e a originalidade do edifício social, bem como da sua arquitectura ética. Tenho para mim que estas questões realmente estruturantes começam a estabelecer-se na adolescência. Como professor, a minha responsabilidade é total e o meu emprego é, como dizem, radical, na medida em que nos é exigida, resolutamente, a maior genuinidade e autenticidade de intenções. É-me dispensável formular as minhas opiniões. Indispensável é fomentar a construção do aparelho crítico e ético de cada aluno, de forma autóctone e segura.
O que se segue é uma reconstituição de uma conversa numa aula recente entre mim e uma aluna, na sequência de um debate sobre um tempo de antena propagandístico de um partido de propensão nacionalista na nossa televisão. Discutia-se os juízos que ali eram feitos sobre os imigrantes de leste. Achei perdulário não reter esta troca de ideias, pelo que possui, tanto de diligente, como de nostálgico.

- Mas é possível a alguém não formular juízos? – perguntou-me a aluna.
- Não. - tentei eu - Mas é possível contrariar a tendência para achar que os juízos são mais do que apenas juízos. Que têm valor só por serem juízos. Por mais estranho que te possa parecer, é perfeitamente possível, e habitualmente proveitoso, agir em dissonância com os juízos que fazemos.
- Não é isso que é a hipocrisia? – insistiu, e bem.
- Sim. Mas não é isso que proponho. Hipócrita é justamente o juízo de valor que te impeça de agir de acordo com o que consideras ser a forma correcta de agir. Repara. Se, para ti, um colega homossexual é alguém com quem tu não estás à vontade, por razões que nem tu sabes ou desejas explicar, consideras importante agir de modo que essa pessoa perceba claramente o que tu sentes por pessoas com aquela orientação sexual?
- Não tenho qualquer preconceito contra homossexuais.
- Excelente, mas não é isso que te perguntei. Achas indispensável revelares a essa pessoa o que pensas dela?
- Não, necessariamente.
- E consideras esse silêncio uma hipocrisia tua?
- Não. A sua orientação sexual é assunto seu. Não é meu.
- Precisamente. Então diz-me: se tivesses mesmo um preconceito contra homossexuais, achas que seria indispensável para ti demonstrar o que sentes, apenas para não seres tomada por hipócrita?
- Não.
- Quer dizer que agirias como se nada fosse contigo, ainda que te incomodasse teres por perto um amigo homossexual?
- É-me difícil pensar em mim como alguém com esse tipo de preconceito, mas acho que agiria com a maior naturalidade.
- Ainda que te não fosse fácil essa naturalidade, agirias assim para não magoar ou ferir esse colega?
- Julgo que sim.
- E isso faria de ti hipócrita?
- Um pouco, sim.
- Porquê?
- Porque não estava a agir de acordo com o que penso, ou melhor, com o que sinto.
- Aí está a primeira grande dificuldade fundamental. Nem tudo o que pensamos se ajusta ao que sentimos. E esta diferença tem gerado a maior das confusões, ao longo dos tempos. Houve sempre quem defendesse que se trata de duas realidades totalmente separadas. Hoje, a ciência informa-nos que são cada vez mais imprecisas as distinções entre pensar e sentir. Entre a razão e a emoção. Diz-se que todo o pensamento humano se caracteriza por uma produção integral que envolve aquilo a que nos habituámos a distinguir por racional e emocional.
- Então isso quer dizer que se eu sentir aversão, por exemplo, por um transsexual, eu, na verdade, sou contra os transsexuais?
- Não. O que significa é que a informação que possuis sobre transsexuais é, provavelmente, insuficiente. O problema não se passa ao nível restrito das sinapses cerebrais. O preconceito não nasce aí. Nasce de não se saber, nem se querer saber o suficiente para se ter uma opinião consolidada sobre um assunto. Qualquer que ele seja. Assuntos como o aborto, a eutanásia, o sexo, etc., não são só assuntos delicados, como se costuma dizer. São assuntos complexos. Não há assuntos complexos, sem haver complexidade. Para entender assuntos complexos é preciso investigar a complexidade. Ora o tempo que temos para investigar assuntos complexos é habitualmente diminuto. Por isso satisfazemo-nos com explicações simples para assuntos que são complexos. É aqui que todo o preconceito nasce. De não querer saber mais. Ou não poder.
- Então quando se diz que podemos “melhorar” - o que quer que isso signifique - no fundo o que estamos a dizer é que precisamos de saber mais coisas.
- Sim, "conhecer"; este é o passo indispensável para não teres opiniões que não se aguentem muito tempo numa conversa mais ponderada sobre um assunto destes com os teus amigos.
O preconceito é sempre uma injustiça. Se te perguntar o que é um transsexual ou uma prostituta, provavelmente sabes do que estou a falar. Mas, será que sabes, mesmo? Todos sabemos que todos somos diferentes. Mas depois agimos como se acreditássemos mesmo que os transsexuais são todos iguais, que os homossexuais são todos iguais, que as prostitutas são todas iguais, que os negros são todos iguais, que os imigrantes são todos iguais e por aí fora. A pergunta que devemos fazer-nos sempre que pressentimos a proximidade do preconceito é a seguinte: o que sei eu concretamente sobre transsexuais, homossexuais, prostitutas, negros ou imigrantes, se eu não sou nenhuma dessas coisas?
- Mas não preciso ser nenhuma dessas coisas para ter opinião, não é?
- Precisamente. Mas também não precisas de desconhecer o que pode significar para uma pessoa, hoje, em Portugal, ser transsexual, homossexual, prostituta, negro ou imigrante. De que adianta a tua opinião se for excessivamente rudimentar? Para os outros e para ti. Ou para colocar isto de outra forma: imagina que tens uma mota e ela está com uma avaria. Para conhecer o problema de uma mota recorres a um mecânico. Porque o mecânico estudou bem esse assunto. Com experiência e tempo. Ele conhece-o bem. De que te adiantam as opiniões de pessoas que sabem pouco sobre mecânica? Interessa-te é que a mota passe a andar na perfeição. Voltando ao nosso tema. Que valor tem, para ti, a opinião de uma pessoa que não sabe bem do que fala? Ou, o que é a mesma coisa: que valor tem para ti a minha opinião, se perceberes que eu não sei do que estou a falar? Nesse momento, vais gostar que te diga: "Deixa-me pensar um pouco mais sobre isso." Nesta ordem de ideias, que valor terá para os outros a tua opinião, se não souberes bem acerca do que falas?
- Mas isso pressupõe a ideia pela qual eu não sei muito sobre uma coisa. Ou seja, antes de aceitar que não sei muito sobre um assunto, tenho de perceber que não sei muito sobre um assunto. Como é que eu sei que não sei o suficiente sobre um assunto?
- Tens razão. Essa é a outra grande dificuldade. É preciso ter sempre presente aquilo que os gregos antigos, há 25 séculos atrás, já sabiam: que, quanto mais sabemos, mais sabemos que pouco ou nada sabemos. É preciso exercitar todos os dias essa modéstia. Por muito que saibamos, há sempre mais por saber. É fascinante. Esta grande dificuldade de aceitar que pouco sabemos é incómoda e mesmo dolorosa. Mas é também o tiro mais certeiro para saber mais. Não é fácil. Mas não há outra alternativa. É preciso mesmo aceitar que se sabe pouco. É preciso desejar conhecer mais. Conhecer os outros. Conhecer é uma forma de benfeitoria, de fazer o bem.
- Conhecer melhor os outros é uma maneira de não ser hipócrita com eles.
- Precisamente. Mas mais importante do que isso. Deixas de ser hipócrita contigo mesma. As apreciações que faças de alguém ou de algo serão mais completas. Geralmente fazendo perguntas, acabas por aprender mais. Os teus juízos serão apenas mais competentes, mais completos. Os juízos estão na essência da vida humana. Um juízo, se for bem estudado e completo, transforma-se numa lei segundo a qual te reges. Um juiz é um tribuno. Um juízo é um tribunal. Todos precisamos de leis, mesmo que não simpatizemos mesmo nada com a necessidade de lhes obedecer. Por outro lado, sempre é melhor ter leis que funcionem do que outras que não funcionam. Convém que as leis funcionem em muitas situações. Se achas que devemos olhar para ti e aceitar-te como és, com os teus defeitos e virtudes, então tens de aceitar que essa deve ser uma lei que funciona também para os outros. Para que uma lei, tal como um juízo, funcione, é preciso que se aplique numa variedade muito grande de situações diferentes. E isso exige que conheçamos bem o nosso mundo. Á nossa volta. Conhecer é um atalho para termos melhores opiniões, para formularmos juízos – ou leis - que funcionem. Conhecer mais é uma forma de sermos melhores. Qualquer opinião que tenhamos tem de estar preparada para ser aperfeiçoada, porque nenhuma lei está acabada, nenhum juízo é irrepreensível.
- Acho que percebi. Mas olhe que eu não sou homossexual.
- Está bem. Se tu o dizes...
publicado por Rui Correia às 13:42
link deste artigo | comentar | favorito
2 comentários:
De Nuno Marques a 17 de Março de 2007 às 20:55
uma aluna com ideias muito próprias e muito segura e racional no que diz , bem capaz de ter uma excelente conversa.

realmente professores assim merecem alunos assim
De frangipani a 10 de Junho de 2004 às 14:54
Gostei mesmo.

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d