Quarta-feira, 9 de Junho de 2004

cilada

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A maré-cheia tempera a terra de nardo marítimo. Sem pressas e de olhar adunco, as gaivotas armam-se em albatrozes e os pescadores à cana fingem-se amenos quando alguém fila um robalo de dois quilos. Olham para o mar como se vigiassem a bóia. Mas não é verdade. Nada está em desalinho. A terra está ensopada num descanso apenas cortado pelas ondas, suadas como crianças. Existe um sossego quieto vindo de todos conhecerem bem este mar povoado. Como se uma espera estivesse sempre prestes a começar, os homens andam encostando o olhar ao chão marinho. Os barcos chamam-se nomes de mulher antiga e todos passeiam o seu domingo assim. Presos em terra e atrelados ao mar. Impávido, um cotovelo na janela de um jeep recua para rebocar um barco da água. Até um circo forasteiro de três pistas com artistas de três nomes pressente este ruído mudo. As feras enjauladas não se falseiam temíveis. Nada há por demonstrar. A sinceridade do mar a tudo dá um desconto. Não deixa nada por dizer.
publicado por Rui Correia às 09:48
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2 comentários:
De Rui Correia a 12 de Junho de 2004 às 15:59
Está completa, também aqui, a incompletude de Gödel.
De frangipani a 10 de Junho de 2004 às 14:53
Lindo e ponto final.

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