Sexta-feira, 11 de Junho de 2004

da Amadora a Santa Margarida com a superioridade estampada no rosto - parte II

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Sempre me confundiu a ideia de pátria. Um mal ou um bem necessário? Será que os homens têm sempre que encontrar um meio que os divida? Ou será uma necessária ideia de aglutinação? Seria possível a ideia de rebelião sem a ideia de pátria?

Nunca fui capaz de querer mais a alguém em função da sua pátria de nascimento ou de adopção. Nunca me pareceu superlativo. Isto pode parecer ingenuidade, eu sei, pode parecer um total desconhecimento da natureza humana, eu sei, mas eu também sei que não consigo passar sem o sonho de um mundo sem fronteiras. Já conhecem a retórica.

Isto vem a propósito da proliferação de bandeiras que, neste momento de ascese futebolística – a coisa eterniza-se – inunda a paisagem portuguesa. Qual é o verdadeiro significado de tudo isto? Ouço dizer que os povos verdadeiramente orgulhosos – britânicos, franceses, alemães, americanos, etc – cultivam o hábito. Que seja.

Chegados a este ponto, não resisto a citar-vos o parágrafo de uma das minhas leituras – o tal que referi na parte I: “Parece que certas realidades transcendentes emitem em torno de si radiações a que a multidão é sensível. É assim que, por exemplo, quando se dá um acontecimento, quando na fronteira está um exército em perigo ou derrotado, ou vitorioso, as notícias bastante nebulosas que dele chegam e de que o homem culto não sabe retirar grande coisa, provocam na multidão uma emoção que o surpreende e na qual, depois de os especialistas o terem posto ao corrente de verdadeira situação militar, ele reconhece a percepção pelo povo daquela “aura” que rodeia os grande acontecimentos e que pode ser visível a centenas de quilómetros”.

Caro leitor, eu sei que fui eu que escolhi a citação, mas tenha a bondade de não considerar que eu me acho uma pessoa culta.
Voltando ao que estava a escrever.

O que será que está para acontecer? Da minha parte, qualquer que seja o resultado de cada um dos jogos, é digerido no segundo seguinte.

É que devo confessar-vos: ao longo da minha vida, visitei imensos lugares onde reinavam bandeiras, que não a portuguesa, e sempre fui feliz. Da Amadora e de Santa Margarida guardo, para além das imagens que vos transmiti, o imaculado exercício diário do hastear da bandeira.
publicado por Rui Correia às 00:00
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2 comentários:
De rui a 11 de Junho de 2004 às 12:55
O Hermann Hesse tem uma frase de que gosto muitíssimo "Tudo é metade", referindo-se ao seu desfavor pelos juízos humanos. Gostei muito, como compreendes, de ler a tua frase "Será que os homens têm sempre que encontrar um meio que os divida?". Pergunto-te-me: esta fronteira que nos divide a todos é a mesma que nos impede de sentir tranquilidade, ao pressentirmos e percebermos a inépcia de abarcar uma outra metade: o outro lado do outro?
De rui a 11 de Junho de 2004 às 00:24
"Só há uns poucos de anos é que soube que o meu pai esteve na linha da frente do desembarque da Normandia. Durante este tempo todo ele nunca nos falou disso." Assim falou um moço de 50 anos numa memorável entrevista à BBC no passado 6 de Junho. O horror não se revisita com a simplicidade de quem dele se vangloria por nada pensar ou por nada sentir e tudo julgar. Muito obrigado pelo teu texto, Paulo, que achei bonito e muito esclarecido.

Contar bandeirinhas de Portugal tornou-se um desporto automóvel. De aqui de casa até Alfeizerão contei com o Rui Pedro 50 bandeirinhas.

Disseram-me que algumas delas, em vez de quinas, têm estrelinhas e que, em vez de torreões, têm pagodes. Isto não é o hastear da bandeira. Isto é o asnear da bandeira.

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