Quarta-feira, 16 de Junho de 2004

Antoninus

antoninus.jpg

Antoninus - prólogo

Queria recordar um lugar que conheci - as termas de Antoninus Pius, na costa tunisina. O império de Antoninus Pius (138-161), sucessor de Adriano e sogro de Marco Aurélio, foi de Pax Romana, uma calmaria que convidava a todo o melhoramento humano, e, obviamente ao usufruto das talassoterapias por que eram conhecidas as termas púnicas que o Pater Patriae mandou edificar. O que estas ruínas têm para oferecer ultrapassa a monumentalidade, necessariamente especial, que umas termas romanas junto ao mar, por si só, possuem. Interessam-me sobretudo pela ponderação a que me obrigaram. Com elas, divisei pela primeira vez uma realidade que me era até então completamente teórica: o que significa para mim a tão propalada “Herança mediterrânica”.
Já tinha visto muitas vezes o Mediterrâneo do lado europeu. Do meu lado. Tomei banho nele e tinha sempre visto aquele mar do lado Norte. Abalou-me perceber que, visto do lado Sul, o Mediterrâneo é igualmente nosso. Causou-me, não é turístico dizê-lo, forte impressão. Inicialmente, aproveitei aquele meu passeio como pretexto para estudar mais acerca da presença europeia nesse infinito Norte de África. Um conhecimento que, repito, não atravessara mais do que largas e insuficientes centenas de páginas de livros sobre o tema. Lera-o. Não o vivera.
Mas o Norte de África é, sabemo-lo bem, um território singular, por nele se acotovelarem milénios de convivência entre povos com costumagens muito dissemelhantes. O seu valor estratégico no controlo marítimo do nosso mar interior não foi indiferente a ninguém. Ali confluíram as principais rotas caravaneiras que uniram os pontos de referência económica de toda a África, meridional e setentrional, interior e litorânea. Fenícios, egípcios, etíopes, gregos, romanos, muçulmanos, árabes, berberes, bantos, quase todos aqui prosperaram. Todos foram protagonistas de uma história comprida de convivência étnica, que faz deste lugar uma paragem de enorme significado humano.
Beneficiando da leitura de dois livros do francês Serge Lancel, erudito historiador da Antiguidade norte-africana, procurei arredar o mais possível da minha reflexão os ensinamentos extraídos das obras helenísticas que escolhi de Gustave Glotz, H.D.F Kitto, Moses Finley, Werner Jaeger e Maria Helena da Rocha Pereira; dediquei-me, então, a compreender, o melhor que sabia, aquele novo contexto cultural em que me embrenhava, desta vez, vivendo-o. Compreenda-se, por isso, que aquilo que me tocou neste reduto, tão africano quanto improvavelmente europeu, foi ter, activa e objectivamente, procurado filtrar a escolástica europeizante que, imperceptível, regia, e rege ainda, quase toda a minha formação académica e literária.
Compreender adequadamente uma cultura tão distinta da minha impunha-me uma revolução coperniciana. Conhecê-la pelos meus olhos tornara-se mais promissor e interessante do que espreitá-la à luz dos maravilhosos livros que li sobre o tema.
Resumindo: com as termas de Antoninus Pius compreendi a vulnerabilidade natural que existe em todas as culturas. Entre umas pessoas e as outras. E de como é, afinal, tão plausível e documentável o acordo entre os homens. Esta não é, bem o lamento, uma reflexão para poucas linhas, por isso interrompo-a por querer discorrer ainda sobre outra coisa.

Antoninus II

Quando, nesses dias, entrei numa livraria de Cartago, amanheci para uma orbe inteira de reflexões desacostumadas. Realidades que, não me sendo completamente desconhecidas, me eram ainda excessivamente simples. A das relações, como se diz muitas vezes hoje, entre o “Islão” e o “Ocidente”. Repare-se, desde logo, na impropriedade grosseira desta definição: “Islão” e “Ocidente”. De um lado, um critério religioso, do outro, geográfico. Nem já pergunto que “Ocidente” é este, por saber, grosso modo, a que se referem. Pergunto-me, isso sim, que universo islâmico é este? Notoriamente, um acento político opõe estas duas realidades culturais. De um lado temos o “Ocidente”, um mundo que enaltece a liberdade e a igualdade como valores basilares do seu quotidiano, e, do outro, o universo “islâmico”, aparentemente incapaz de apresentar até hoje, exemplos e modelos de convivência democrática.
De um livro escrito pela marroquina Fatima Mernissi, retirei recentemente a ideia-força pela qual toda a incompreensão a que é sujeito o Islão, pode muito bem ser mensurável pelo olhar que o “Ocidente” dedica à mulher islâmica. Esta socióloga chega mesmo mais longe e defende que toda a reflexão que se opere acerca da democracia nos países islâmicos é indissociável do tema da condição feminina.
Assim sendo, o que sabemos nós sobre a condição feminina no mundo islâmico?
Recentemente, o assunto inundou as primeiras páginas dos jornais com a interdição jurídica de vestuário e símbolos religiosos nas escolas francesas e inglesas. No caso das mulheres muçulmanas, o que estas leis de secularização do ensino proibiram foi a utilização do Jilbab, uma peça de tecido que cobre todo o corpo. A interdição estendeu-se, no caso francês, ao Khimar, um lenço tradicional que cobre a cabeça. A adopção de uma ou outra vestimenta havia gerado distinções fundamentalistas entre o que se considera ser a conduta exemplar da boa e da má muçulmana. Na verdade, só a mulher que use regularmente o Jilbab é acolhida na sua comunidade como muçulmana por inteiro. Mulher que o não faça é tomada por viver em pecado e por alegadamente contrariar os preceitos da Sharia'a, sistema legal ditado por Maomé, baseado no Corão. A proibição legal do Jilbab procura impedir objectivamente que a segregação religiosa se opere em instituições laicas. Mas interfere directamente com os direitos de liberdade religiosa; se, por um lado, impede que esta liberdade se exerça livremente em qualquer espaço público, por outro, concede uma verdadeira liberdade de credo a quem deseja seguir uma linha moderada dos preceitos islâmicos. Compreende-se, assim, por que razão não existe um movimento de apoio muçulmano à publicação destas tão debatidas leis. Esse grupo de moderados seria, muito provavelmente, incompreendido pela comunidade ortodoxa islâmica.
Actualmente, nenhum “ocidental” desconhece a burka, entendida no “Ocidente” como o derradeiro ícone da opressão feminina. É fundamental compreender que a burka não vem expressa em nenhum passo da Sharia. Aliás, os primórdios da burka visavam esconder toda a pele para que se não descobrisse qual a sua cor e assim impedir constrangimentos étnicos. A verdade é que usar ou não a burka constitui uma prerrogativa da mulher muçulmana, que escolhe livremente o que quer usar, sem que lhe possa ser imposto qualquer código de vestuário. Aliás, a Sharia é bem clara neste preceito: nenhum aspecto de fé deve ser imposto, sendo expressamente proibido e pecaminoso que um marido imponha a burka à sua esposa. Mas se a Lei corânica assim o profere, distinta é a sua interpretação exegética pelos homens e mulheres. Não é um fenómeno insólito. Processo idêntico se verificou na Cristandade. Muito do que lemos na "Imitação de Cristo" de Tomás Kempis excede largamente os preceitos bíblicos. Ironias: enquanto num lugar da história as mulheres queimavam soutiens, como forma de emancipação, noutro lugar, outras lutam ainda pelo direito de sentir o ar na cara, quando passeiam na rua entre homens.

Antoninus III

Não é sem tédio que ouço recorrentemente alguém, sempre diferente, dizer-me que a democracia não é um conceito aplicável em qualquer ponto do globo, indiscriminadamente, imposto pelos "ocidentais", nomeadamente sobre países de cultura islâmica. E o mais espantoso é que o fazem com uma intenção intuitiva de favorecer a cultura islâmica. É esta a matéria crucial que desejo estudar com esta prosa. Não conseguirei compreender este ponto de vista, hoje tão popular. É como se a democracia fosse coisa endémica, reservada a um cabimento geográfico ou religioso qualquer. Como se os "ocidentais" conhecessem o suficiente sobre o Islão para saberem identificar quais as superfícies territoriais onde um regime democrático pode ser implementado ou não com sucesso. Como se os ocidentais soubessem a diferença que existe entre um Irão e uma Malásia, para opinar sobre essa suposta impermeabilidade do Islão à vivência democrática. Como se os ocidentais não conhecessem em primeira-mão o que significou conquistar um regime que permita a livre expressão de todas as ideias, por todos os cidadãos, sem medos de repressão. Como se os “ocidentais” tivessem esquecido cada passo, cada medida, cada gesto que acabou no “Ocidente” com aqueles tempos de barbárie social, em que os homens estavam catalogados à nascença, para abraçar um outro sistema em que todo o indivíduo, qualquer indivíduo, é munido de dignidade e honra. Como se os “ocidentais” soubessem do que falam, quando falam de islamismo.
Dizemos que não conhecemos o Islão. Que estabelecemos inúmeros equívocos em relação ao Islão. Defendemos que só o tememos porque, justamente, o desconhecemos. E ditamos estes lugares-comuns, confiando na meia verdade que encerram. Incriminamo-nos e envergonhamo-nos da nossa ignorância perante o Islão. Mas isso não nos impede, por outro lado, de prescrevermos que tipo de regimes políticos achamos que o Islão é capaz de implementar ou não. Pretender que o Islão seja isto ou aquilo é, frequentemente, saber pouco de coisa alguma. O Islão não é isto ou aquilo. "Islão" é um conceito tão operativo como o conceito de "Cristandade". Use-se com moderação, pois. Por outro lado, o Islão, como a Cristandade, cometeram e cometem ainda inúmeras atrocidades que estupram os mais elementares valores da decência humana. O Irão ou a Irlanda constituem lições hodiernas de uma intolerância criminal.


Antoninus IV

Existe entre nós, os “ocidentais” um preconceito penoso e antiquado contra o mundo não “ocidental”. O que há, hoje de novo, é que, à viva força de o querer contrariar, reforçamo-lo. Esse preconceito passa por proclamar todas as outras civilizações como igualmente dignas de respeitabilidade. E de o fazer de um modo tão indiscriminado e vazio de sinceridade. O preconceito nasce de não querer confrontar os nossos valores mais elementares com o que a realidade nos demonstra, todos os dias, sem rodeios. Agrada-nos assinar postulados de grande tolerância para com todos os povos do mundo. Mas a realidade torce-nos as pernas. Fixemo-nos, por agora, nas muitas sociedades islâmicas de que nos chegam livros, relatos, notícias e imagens. Não o iludamos, por conveniência retórica. O cadastro em matéria de direitos humanos é trágico, nos países islâmicos. Muito do que se passa nas sociedades islâmicas ofende horrivelmente a nossa sensibilidade. E entre o que mais nos agride é o silêncio que mantemos quanto à realidade vivida das diferentes sociedades islâmicas. O que sabemos do Islão é o que os media nos revelam. Mas o Islão é muito mais do que o que nos mostram os media. O Islão não é uma terra de ninguém onde o caos e o horror reinam. O quotidiano islâmico tem inúmeras lições de humanismo que não chegam aos media. Exemplos comoventes e modelos de convivência humana. Nos grandes concertos de música islâmica só uma coisa se vende aos espectadores: raminhos de jasmim para os homens se perfumarem. Nestes países, a criminalidade corrente é ínfima. Mas o que os media nos mostram também não é uma elaborada mentira. Existe efectivamente um défice de liberdade no seio da comunidade internacional islâmica. E isto é intolerável.
A democracia não é um capricho ideológico dos “ocidentais”. E a liberdade é uma missão universal, ecuménica. As vitórias que mais estimamos não são sobre mais nada, a não ser sobre as tiranias. Não são vitórias casuais, acidentais. São demoradas, elaboradas. Não é ocidental, nem acidental, que um jornalista possa escrever o que quer que seja no seu jornal, mesmo que vá contra a ideologia, ou o bom senso, reinantes. Não é ocidental, nem acidental, que exijamos que uma mulher deve ter as mesmas oportunidades de um homem. Não é ocidental, nem acidental, que defendamos com unhas e dentes que as crianças merecem uma infância livre de trabalho; não é ocidental, nem acidental, que consideremos que as preocupações ambientais, que não são árabes, nem muçulmanas, nem cristãs, sejam hoje em dia matéria de empenhamento político prioritário das sociedades. Não é ocidental, nem acidental, pretender que a representatividade eleitoral signifique uma forma legítima e determinante de partilhar o poder e a responsabilidade cívica entre governantes e governados.
Nenhum diálogo entre civilizações será possível sem que o Islão compreenda que, no “Ocidente”, nunca aceitaremos regimes que não integrem na sua estrutura valores tão irrepreensíveis como os da Declaração Universal dos Direitos do Homem. A luta do “Ocidente” pela liberdade tem milhares de anos. Por ela morreram milhões. O “Ocidente” tem continuamente derrotado os tiranos que desejaram esmagá-la. E todos permanecemos em estado de alerta quando estes valores são ofendidos na nossa terra. Se um qualquer político nos diz que os imigrantes “roubam os empregos aos nossos” sabemos muito bem como agir: eriçamo-nos como animais e recordamos que todos os estômagos são iguais. Sorrimos, porém, ao ver uma mulher de burka ou quando alguém arenga sobre os haréns das mil e uma noites. É algo que situamos ali na região conceptual do “exótico”, do "folclore", do "pitoresco" e no resort educado dos “particularismos culturais”.

Antoninus V

O processo de “democratização” do Iraque concitou um debate tão elucidativo como ruidoso. Muito cedo desapareceu dos discursos oficiais a expressão “democratização do Iraque”. Passou a falar-se de “restabelecimento do sistema governativo” do Iraque. A nós, “ocidentais”, agrada-nos difundir a ideia pela qual não queremos “impor” – os termos utilizados são sempre muito desagradáveis – a democracia aos outros. No entanto, “impor” a democracia aos outros é o que temos feito ao longo de toda a nossa história colectiva. Impusemo-la recentemente aos alemães, aos italianos, aos espanhóis ou aos portugueses, só para nos lembrarmos de alguma história próxima. Impusemo-la, justamente, em contextos históricos resolutamente inimigos da vivência democrática; na maior parte dos casos, em diametral oposição à mentalidade dominante; em lugares e tempos de fundamentalismo desapiedado. Existe toda uma história de tormentos impostos sobre os nossos melhores. Os nossos melhores cientistas, os nossos melhores intelectuais, os nossos melhores políticos foram obrigados a retractar-se das verdades que descobriram por serem blasfematórias, inconvenientes ou “revolucionárias”. Muitos dos que o não fizeram foram executados. Queimados vivos, alguns deles, como Savonarola. Pretender que “impor” um regime de liberdade numa região do globo, seja um inaceitável constrangimento estrangeiro, impuro, sobre nações que podem não desejar viver num regime baseado na ideia de liberdade é aceitar o inaceitável. Este constitui um preconceito já experimentado antes sem qualquer valia. Faz lembrar o rico que não dá esmola ao pobre porque, muito provavelmente, este não saberia o que fazer com o dinheiro. Todas as potências coloniais consideraram que a vida em liberdade e igualdade não era adequada aos povos "pré-civilizados" que dominaram.
Recordemos o único argumento incontroverso: os “ocidentais” não fazem a menor ideia sobre o que pensam os não-ocidentais sobre o que quer que seja, quanto mais acerca da viabilidade de um Estado islâmico democrático.
O sentimento de culpa por todo um passado imperial de aniquilação de todas as identidades autóctones e indígenas, onde quer que “ocidentais” tenham querido mandar, não pode impedir-nos de reflectir com bom-senso. A vivência democrática não impõe regras incompatíveis com metas de quaisquer comunidades que aceitem que toda a vida humana possui o mesmo valor e dignidade. Não conhecemos nenhuma religião, entre as mais públicas do mundo, que refute este axioma.
Como podemos nós aceitar com evidente satisfação que um muçulmano nos recorde que nada há no Alcorão que se oponha a uma existência democrática e defender, ao mesmo tempo, que o “Ocidente” é arrogante ao querer ver surgir no seio do Islão uma pluralidade de regimes democráticos sustentados e estáveis.
Mas assim é: a “democracia” – continuamos a proclamar – não pode ser “imposta” aos povos. A isso nos obriga o relativismo cultural. Parece-me isto bastante estúpido.


Antoninus - Epílogo

O Islão não pode continuar, como continua, a ofender a sensibilidade ocidental. O “Ocidente” não tolera abdicar dos valores de liberdade por que lutou e luta ainda hoje de forma intransigente. O respeito pela vida humana é inegociável para a sensibilidade ocidental, como o é para o Islão. As violações a este ditame devem ser punidas e não favorecidas. Cada bombista que se suicida comete um atentado aos ensinamentos do Islão, da Cristandade, da Democracia; porque se trata de um atentado à liberdade humana. A morte do jornalista Daniel Pearl e as decapitações de "ocidentais" em vídeos publicitados na internet, como a do engenheiro Paul Johnson, um amigo e estudioso do Islão, servem os propósitos preversos de quem deseja escavar mais fundo essa ancestral separação mediterrânica entre "Islão" e "Ocidente". E aqui o Islão fica a perder. O cinismo "ocidental" esconde cuidadosamente as provas, envergonha-se quando elas estupidamente surgem nos media, como foi no episódio da prisão de Abu Ghraib. Por seu turno o Islão conserva um silêncio clamoroso perante atentados ou decapitações em nome de Deus. E tudo quanto os líderes dos países islâmicos dizem contra isto não atinge os media e a opinião pública "ocidental". Resta apenas, a distinção entre "Islão" e "Ocidente", que tem efeitos práticos e fáceis de digerir, bem ao contento do ritmo de vida contemporâneo. O mesmo processo ocorre com os media islâmicos, ainda mais intemperados na sua contestação ao "Ocidente". Da refrega renasce o preconceito xenofóbico. Mas há um caminho imenso a percorrer pelas sociedades islâmicas contemporâneas. O respeito pela vivência do Islão impõe que o Islão saiba integrar-se numa convivência de humanidade entre os povos. A democracia e a liberdade são valores adquiridos; adquiridos a muito custo. Areópagos como as Nações Unidas, funcionam sob formulações e fundamentos democráticos, subscritos por países democráticos e também pelos não democráticos. E tudo isso porque dentro ou fora do tal “Ocidente” toda a liberdade é consuetudinária. Toda a liberdade é, por essência, intransigente.
publicado por Rui Correia às 01:15
link deste artigo | comentar | favorito
4 comentários:
De rui a 22 de Junho de 2004 às 00:04
Não volto a escrever uma coisa assim deste tamanho. Ou melhor: escrevo, mas depois divido-o a fingir que são muitos textos diferentes. Agradeço-lhe a paciência para me ir lendo. Acontece que tenho esta mania de pensar que os que lêem as coisas aqui são daqueles que ainda lêem. Depois é isto. Pensei várias vezes em suprimi-lo, mas o meu amigo proibiu.
De cafezeira a 21 de Junho de 2004 às 17:21
Estou desde dia 16 a ganhar coragem para ler este enormíssimo texto- não acredites. Não tenho computador desde quarta até sábado. Mas domingo já tenho. Portanto, realmente, só ontem é que não me apeteceu. Dou-te os parabéns. Mas é um pouco difícil de comentar. Posso-me agarrar a um tema muito limitado, claro, como costumo fazer com o frangipani, mas tenho a certeza que se o fizesse, escolhia logo, mulher que sou, a problemática da burka, o tema do apedrejamento, etc. E há mais para comentar. A favor, e contra. Parabéns de novo. Mas destruiste-me a tarde. Estou há três horas a ler-te :) E vim há três horas e meia do trabalho. Muito pior do que isso, tenho que me deitar daqui a três horas. Quero a tarde que me roubaste!!!!
De rui a 17 de Junho de 2004 às 16:49
Obrigado, Luís pelo teu comentário. Muito, como sabes, há a dizer acerca do que enuncias. A tentação de estabelecer comparações impõe sempre grande comedimento.
Num ponto, porém, eu gostaria de não ser tão lacónico. A escolha de Antonino deve-se ao facto de, ao visitar as suas termas, me ter sido obsidiante a convivência entre povos ao longo de milhares de anos neste recanto do Norte de África. Não creio mesmo que o Mediterrâneo, desde o seu passado fenício ao actual mapa geoestratégico, alguma vez possa não ter sido encarado como uma fronteira de divisão entre África e o "Ocidente". Conjunturas houve, historicamente se documentaria, em que tal definição se esbateu ou avultou, da mesma forma como a Península Ibérica durante séculos deixou de ser o portal da Europa para se tornar o scriptorium da ciência árabe. Mas neste espaço, mesmo conhecida a sua importância militar e estratégica, toda a distinção social que aqui se fez sentir passou quase sempre pelo estrito sucesso económico de cada visitante, muitos séculos antes de este critério de distinção social plutocrata passar a ser o corrente com o Humanismo quinhentista. A heterogeneidade da sua população, que ainda hoje se documenta, reflecte uma realidade multitudinária que não é aceitável ignorar. O facto de se tratar de umas termas, únicas no mundo clássico, junto do mar reforça ainda mais o carácter singular daquela estância púnica.
De Lus Filipe Redes a 17 de Junho de 2004 às 01:24
Obrigado por lembrares Savanarola. Foi sem dúvida um mártir na caminhada pela liberdade de consciência. Um defensor do direito de pensar e interpretar a palavra de Deus. Defendia uma Florença republicana e era contra a corrupção dos Bórgia, família de que o Papa era um expoente. Por que motivo colocaste como título da tua peça Antoninus? Queres opor o Mediterrâneo, lago romano, ao Mediterrâneo, lago árabe? Sim, talvez Antoninus possa significar por metonímia o tempo em que o Mediterrâneo não era ainda uma fronteira entre o Ocidente e o Islão. Contudo, só muito recentemente o Ocidente começou a significar liberdade, direitos do homem e democracia: quando o Ocidente deixou de se opor ao Leste. A oposição política mais estruturante do discurso de então era entre capitalismo e socialismo. O rei Hassan, o Xá do Irão e outros eram aliados do Ocidente. Eram os que promoviam a ocidentalização dos seus países, mas não a democratização. Nesse sentido, não eram muito diferentes de Salazar e Franco.
Acho que a questão de se é democrático impor a democracia ficou apenas enunciada. As únicas situações em que a democracia foi imposta foram aquelas em que um país democrático se viu obrigado a intervir militarmente noutro. Uma vez derrubados os poderes desse país, a única solução é fazer uma consulta popular. Mas a guerra é que nunca foi justificada pela necessidade de expandir a democracia. Isso só aparece no discurso trotsquista da "revolução permanente" que foi extrapolado para o discurso neoconservador como obrigação moral de levar a democracia aos povos que dela não usufruem. Há quem diga que alguns neoconservadores foram trotsquistas na juventude e que têm por objectivo fazer a revolução democrática no mundo segundo o modelo do Gen. Mc Arthur no Japão. Algo parecido com os casos do Afeganistão e do Iraque. Quanto aos valores da liberdade e da tolerância, não tenho a menor dúvida: não podemos deixar de defender os nossos. O relativismo é inaceitável: não posso dizer que a opressão da mulher se compreende porque é a "maneira deles viverem". Também temos os nossos mártires - os que morreram por causa desses valores. Quando uma mulher é enterrada e apedrejada, eu tenho que denunciar os que cometem esse crime e criticar o discurso dos que defendem esse facto.

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d