Terça-feira, 22 de Junho de 2004

fósforo

fosforos.jpg


Descobri hoje uma palavra nova: filumenismo. Não sei ainda o que significa, mas parece-me que diz respeito aos coleccionadores de caixas e carteiras de fósforos. Se assim é, tenho aqui a oportunidade perfeita para prestar uma, muito justificada e aguardada, homenagem. A homenagem devida a todos quantos coleccionam coisas estúpidas. Refiro-me, mais exactamente, àquelas colecções, dir-se-ia, menos nobres, do tipo latas de refrigerantes, porta-chaves, copos, canetas, pacotes de açúcar, calendários de bolso, bases para copos, pins, miniaturas de garrafas e, claro, carteiras de fósforos, esse tipo de coisas. Quando digo menos nobres, não é fortuito. Existe, toda a gente o sabe, uma hierarquia nobilitante para coleccionadores. Isto é de tal maneira elitista que os coleccionistas adoram burilar palavras para se designarem e distinguirem uns dos outros, em diferentes seitas: bibliófilos, filatelistas, numismatas, enófilos, medalhísticos, cartofilistas, notafilistas, e, claro, filumenistas, tudo sempre mais ou menos fundamentado com uma etimologia propícia, que a todos elucide. Isto, meus amigos, é coisa séria. Eu diria que a aristocracia dos coleccionadores é encabeçada pelo coleccionador de arte, a par com o coleccionador de livros raros, móveis e automóveis. A seguir é capaz de vir o coleccionador de selos, moedas e vinhos. Para terminar, a arraia-miúda dos coleccionadores de coisas estúpidas. E estes é que me desarmam por completo.
É enigmático este deslumbramento por coleccionar coisas. Não me refiro, repito, ao coleccionismo de selos; dizem-me, até, que é para conhecer outras realidades geográficas e culturais. Pode ser, embora não esteja totalmente convencido. Moedas e notas terão um longínquo interesse financeiro e político, o que é admissível, também. No entanto, conheci um amarantino coleccionador de vinhos, um enófilo, que não bebia, facto que não é estranho, uma vez que um filatelista pode muito bem não enviar cartas a ninguém. Mas já aprendi que o coleccionismo envolve uma distante potencialidade cultural, que parece não ser mínima nesta equação das devoções ociosas.
Pela minha parte, nutro grande admiração por quem colecciona, ponto final. Não importa o quê. Basta vê-los numa daquelas numerosas feiras que existem por todo o lado; nunca se chega a perceber se estão ali para vender, comprar, trocar ou só para armar barraca. Não é fácil identificá-los. São os que andam com uma espécie de bíblias pequeninas debaixo do braço e que consultam com grande insistência; para disfarçar, os devotos dão a estes livros sacrossantos o nome pagão de "catálogos". É uma gente persistente e atarefada, numa espécie de ocupação desocupada, deambulando por ali, demoradamente. É que, além do mais, coleccionar é coisa para demorar. Nenhuma colecção tem interesse se não demorar. Lembro-me de um amigo figueirense, que recebeu, inesperadamente, uma colecção tão gigantesca de selos internacionais de altíssimo valor que, imediatamente a seguir, talvez por isso mesmo, perdeu o interesse pela filatelia, que era até aí uma sua predilecção. A dádiva empanturrara de alimento uma dieta que se mantinha até então rigorosamente equilibrada.
Daqui a predilecção que tenho por coleccionadores. Sempre me pareceram todos maratonistas. E eu conheço a importância das corridas de fundo. Eu gosto das coisas que demoram.
Mas filumenismo é algo de novo para mim. Só para mim, reconheço, que eu muito bem sei que existe, no Porto, a Associação Portuguesa de Filumenismo (Rua Formosa, 400-2º 4000-249 Porto, 222059850). Já fui ver. Mas, pronto, a mera existência de uma palavra para identificar quem colecciona caixas de fósforos é-me muito gaiteira e reinadia. Encher uma casa com caixas de fósforos certamente terá algo de pirómano, mas não é só. Não sei ainda compreender por que razão alguém decide encher a casa com esta bugiganga, mas o certo, certo é que existem apartamentos neste país habitados por caixas e mais caixas, cheias de pacotes de açúcar que têm 20, 30, 40 anos de idade, paredes e prateleiras carregadinhas de latas e tectos cobertos de porta-chaves. Pasmo, sempre que visito uma destas colecções. Que interesse poderá ter esta embirração? Porque isto não é coleccionismo. Não se aprende nada sobre cerveja, com oitocentas bases para copos, que um único livro sobre o assunto não ensine. Ou uma imperial. É, portanto, uma teima.
Num mundo em que nada permanece e tudo muda, tenho para mim que o coleccionismo é uma dessas manifestações humanas, tanto cutâneas como medulares, que resultam de um fascínio pelas coisas que não terminam. O meu pai durante muitos anos foi coleccionador de lápis de carvão. Legou-ma a mim, que, por respeito à diligência recolectora paternal, a tive de organizar de acordo com um patético método cromático; os azuis, junto dos azuis, amarelinhos com amarelinhos e por aí adiante. Mas eu acho mesmo que existe um lado quimérico nestas colecções, menos nobres. Porque não têm fim e não servem para quase nada. Podíamos agora convocar uma retórica mais ou menos paspalhona, que referisse aqui e ali a palavra “imortalidade” para dar um ar cuidado ao pensamento. Não sei se é do fósforo que não chega a riscar-se, mas acho mesmo que esta coisa do coleccionismo envolve uma reflexão, mesmo que inadvertida, sobre a finitude das coisas. Não acredito que esta gente, como o meu pai, juntem coisas por juntar. Existe algo mais do que isto, que me é sempre ténue e imperceptível.
Pela minha parte, eu apenas colecciono calinadas. Gosto de ouvir dizer que uma equipa está a “quilómetros-luz” de outra, ou alguém que diz “eu caí aqui de enxofre”, ou quem me confessa que padece de uma "hérnia fiscal" e que o seu médico é “pugilista que faça a operação”, que determinada pessoa, antes de ir para fora, “teve de levar uma vacina contra a Malásia”, quando alguém diz que fulano é tão giro que podia muito bem ser um "top-móvel", alguém que me assegura de uma passagem bíblica que vem no “Livro dos Genesis”, um outro que se apercebe que Portugal anda a perder mais e mais "postes de trabalho" ou quem me pergunta se quero o seu “número de telemóvel ou do telefone físico”, enfim, coisas deste tipo. Mas isto é corridita pouca. Fogachos de fósforo. Estou a quilómetros-luz dos meus amigos filumenistas.
publicado por Rui Correia às 13:21
link deste artigo | comentar | favorito
2 comentários:
De cafezeira a 23 de Junho de 2004 às 15:53
A nossa conversa ?? suscitou-me uma ideia. Portanto escrevi um texto. A idade faz a diferença. Falo sobre ti... não, não falo. Falo é sobre o Paulo... não, tb não é isto. Falo sobre os blogs... não exactamente. Espera, falo sobre os mails que troquei com o Paulo... esquece! Vai ver o destinos, aqui no sapo, e logo vês. Podes dizer alguma coisa, que eu não me chateio. Nada.
De cafezeira a 22 de Junho de 2004 às 17:58
Malvado! Depois de te ler durante quarenta minutos, estava já eu toda inflamada contra os colecionadores de coisas menores- que chatos, mas se isto tem alguma lógica, é só perder tempo- é que tu te descoses. Não só te legaram uma coleção de lápis, como ainda por cima tu a organizas- azuis com azuis...

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d