Quarta-feira, 23 de Junho de 2004

o ovo de Américo

É um equívoco bom demais para se ignorar: por que razão a América se chama América? Para o saber, temos de recuar no tempo até à pequena cidade francesa de Saint Dyé. Ali vivia no ano de 1500 o cónego e estudioso Martin Waldseemuller, membro de uma pequena sociedade cultural com a obscura designação de Gymnase Vosgien. Este clube de eruditos tinha por patrono um clérigo afortunado, Walter Ludd, que possuía fazenda suficiente para adquirir uma impressora, na qual pretendia publicar os seus escritos e outras obras de autores famosos. Este grupo de literatos tinha particular afeição por Ptolomeu. Com a compra da impressora pensaram imediatamente em publicar as obras do geógrafo mais brilhante e influente do mundo antigo e medieval.
Ao preparar a edição da obra cartográfica de Ptolomeu, Waldseemuller estudou uns folhetos anónimos que circulavam por todo o mundo letrado nos quais se celebrava o nome de Americo Vespucci, navegador italiano que havia descoberto uma ignota e quarta parte do planeta, depois da Europa, África e Ásia. Não era verdade. Antes de Vespucci, Cristóvão Colombo (Cristoforo Colombo) fora o primeiro europeu a atingir o Novo Mundo, sem ser pelo mar do Norte.
Desconhecedor desta prioridade histórica, Waldseemuller quis honrar o navegador florentino dando a essa quarta parte o nome do seu descobridor. Amerige – terra de Américo. O cónego achou que se os restantes continentes tinham nomes femininos, ninguém se oporia também que essa regra se aplicasse ao Novo Mundo: não Américo, portanto, mas sim América.
A partir da publicação da primeira carta, datada de Abril de 1507, todos os mapas impressos por Waldseemuller passaram a incluir a referência “América”. Esta primeira cartografia americana, ou melhor, a primeira em que se escreveu a palavra "América" foi adquirida em 2001 pela Library of Congress a um príncipe alemão, um tal von Waldburg-Wolfegg-Waldsee Wolfegg de Würtemberg, cuja família a manteve em seu poder durante 400 anos. Em alguns destes mapas, o padre chegou mesmo a incluir os retratos de Claudius Ptolomaeus voltado para Oriente e Americus Vespucius voltado para Ocidente. Um sucesso. Em poucos anos o mapa tinha vendido um total inédito de mil exemplares e era estudado em todo o mundo intelectual quinhentista. Por todo o lado se adoptou a nova nomenclatura de Waldseemuller. O Novo Mundo baptizara-se de América.
Alguns anos mais tarde, o cónego de Saint Dyé apercebeu-se do equívoco e julgou-o tão monumental que retirou a expressão “América” em todos os três mapas que publicou a seguir. Mas era tarde demais. Ainda por cima o seu primeiro mapa representava, com uma presciência extraordinária, uma América com contornos imaginados, e muito aproximados da realidade e apresentava também um novo oceano para Ocidente da América do qual nunca se ouvira sequer falar.
Influenciado pelo trabalho de Waldseemuller, o famoso mapa de Mercator (1538) incluiu pela primeira vez na história uma “América do Norte” e uma “América do Sul”, tal foi a celebridade da terminologia de Waldseemuller. Entretanto, os relatos autênticos das viagens de Cristóvão Colombo vendiam apenas um terço do que vendiam os relatos apócrifos das viagens de Américo Vespucci.
Mas quem era Americo Vespucci? Um “ladrão”, segundo Ralph Waldo Emerson que dele escreveu: “É estranho que a grande América tenha de usar o nome de um ladrão. Américo Vespúcio, o negociante de pickles de Sevilha que viajou em 1499, um subalterno de Hojeda, cujo posto naval mais elevado foi o de contramestre de uma expedição que nunca navegou, conseguiu, neste mundo mentiroso, suplantar Colombo e baptizar metade da Terra com o seu próprio e desonesto nome” .
O irreverente historiador americano Bill Bryson refere-se-lhe da seguinte forma: “Como foi que dois continentes acabaram por vir a ser nomeados em sua honra é algo que envolve uma improvável medida de coincidência e erro. Vespucci fez, de facto, algumas viagens ao Novo Mundo (...) mas sempre como um passageiro ou um oficial de baixa condição. Ele não era, de todo, um verdadeiro marinheiro.”
O historiador italiano Giancarlo Nacher Malvaioli, por seu lado, diz-nos que “ ’Mondo Nuovo e Paesi Nuovamente Trovati’ era uma falsificação de um editor sem escrúpulos, que por isso mesmo não tornou público o seu nome, e que prolongou este equívoco, sem que Vespucci o soubesse, ou pudesse fazer qualquer coisa para impedi-lo, (nesse tempo era comum plagiar obras, e faziam-no a quase todos, sobretudo aos autores famosos). Em 1508, foi um editor holandês Giovacchino de Watt, quem inventou uma quinta viagem de Vespucci e ainda circulam livros que a consideram provável.”
Americo Vespucci era, segundo o seu mais famoso e coevo amigo, o próprio Cristóvão Colombo, “um homem que sempre desejou fazer-me seu amigo, e é um homem de bem.” , escreveu o navegador numa carta ao seu filho Diego. Nasceu em Florença a 9 de Março de 1454. Nado numa família nobre foi cosmógrafo e explorador ao serviço dos reis de Portugal e de Espanha. Dirigiu a agência bancária dos Medici em Sevilha e participou nos preparativos da segunda viagem de Colombo. Foi piloto de Alfonso de Ojeda com quem viajou até à Venezuela e Colômbia. Foi ele quem inventou o nome “Venezuola” – pequena Veneza - ao ver que os índios de Maracaíbo construíam as suas habitações sobre a água. Fundou a primeira feitoria portuguesa no Brasil, acabando por se casar em Espanha, reino que o naturalizou. Faleceu em Sevilha a 22 de Fevereiro de 1512.
Ironicamente, Americo Vespucci é tido por felizardo porque o seu nome fica ligado ao achamento de um continente que não achou em primeiro lugar. A verdade é que Vespucci acaba por ser a maior vítima de umas cartas apócrifas publicadas e distribuídas comercialmente, sem a sua autorização ou conhecimento, por um editor desonesto que amplificou os seus feitos. Falsas como eram, as cartas macularam a obra, o trabalho, o entusiasmo e o valor histórico de um extraordinário cosmógrafo, astrónomo e geógrafo. Partiu-se do princípio que Vespucci nada havia feito de notável. Mas fez. Vespucci podia não ser marinheiro, como diz Bryson, mas era cientificamente mais capaz do que Colombo, de quem se sabe que media a latitude de forma empírica, “a olho”; Vespucci fazia-o por cálculos matemáticos e cosmológicos precisos. Refira-se, a propósito, que os seus cálculos foram os mais exactos do seu tempo, tendo errado o total da circunferência terrestre por apenas 80 kms.
Para o mesmo historiador italiano Giancarlo Nacher Malvaioli, “O mérito de Vespucci foi o de ter-se dado conta que a terra era muito maior do que o que se acreditava: precisou que ela tinha 40 mil quilómetros de circunferência, intuiu a existência de um oceano entre o Novo Mundo e a Ásia e foi o primeiro a descobrir que a terra ao sul da Spagnola formava um continente novo.”
Quando Cristoforo Colombo chegou às Índias - vem em todos os livros de história - o genovês acreditou ter chegado onde nunca chegou. A esperada Taprobana nunca lhe sorriu. Morreu sem saber o que achou. Foi o italiano Vespucci, ao serviço de D. Manuel I de Portugal, quem compreendeu que se tratava afinal, não das Índias, mas de um novo continente e de um novo oceano. Ao pensar que chegara à Índia, Colombo cometia um erro natural. Ao aceitar acriticamente a genuína falsidade das cartas publicadas sobre Vespucci, cometemos nós o erro histórico de julgar absurdo chamar América em sua honra.
publicado por Rui Correia às 12:35
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