Segunda-feira, 28 de Junho de 2004

vaias e fitas

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Não conheço absolutamente ninguém que não dê um pontapé ocasional na gramática ou no prontuário. A começar por mim e por todos os meus amigos, tirando aí uns dois ou três. Quando - por ser parvo - corrijo as calinadas que se proferem à minha volta, sugerem-me por vezes que me deixe de fitas. Lá terão a sua razão, mas sempre tive para mim que ouvir alguém errar e fingir que nada se passa, é ofender a dignidade de quem erra; coisa de professor, se calhar. No meu entender, uma calinada é como uma canelada. Deixa nódoa. Faço-o apenas por considerar que ser amigo me obriga a esta lealdade. Goste-se ou não, todos "calinamos".
Aliás, a verdade é que, muitas vezes, o português correcto parece uma calinada. Cheguei recentemente a esta conclusão quando me explicaram que a forma correcta de conjugar o presente do conjuntivo do verbo expelir é “expila”.
Dito isto, é, na mesma, perturbador que em tão pouco tempo de televisão - dez minutos, asseguro-vos - eu tenha escutado, de rajada, tantas calinadas tão primárias. Caneladas.
Numa conferência de imprensa, o jogador Jorge Andrade comentava assim a decisão do guarda-redes Ricardo de ir a pé a Fátima, se Portugal for vencedor do Euro2004:
"- Ele que vaia sozinho."
Na mesma conferência o jogador Petit, mais velhote e precavido, afirmava que, lá porque Portugal se apresenta como favorito, não queria “entrar em euforismos”. De facto, chegadas a meias-finais, a pressão a que estão sujeitas as selecções de futebol é sempre grande. Questionado sobre isso para o caso português, Petit rejeitou a ideia, explicando que a forma magistral e displicente como Helder Postiga, seu colega de selecção, marcou o penalty contra a Inglaterra evidencia bem “a irresponsabilidade que a gente tem demonstrado perante a pressão”.
Fartinho, mudei logo para outro canal onde ouvi um juiz dizer que, uma vez num julgamento ficou tão zangado “que estava capaz de cuspir um prego”.
Procurei refúgio no canal 2. Ali, o programa "magazine" apresentava uma peça sobre um tal de Tó Tripes, elemento da banda "dead combo" que toca, de acordo com a redacção daquele programa requintadamente cultural, um "western vadio saído algures das vielas de Lisboa". Tó Tripes explicou que a sua música, uma ligação insólita entre o fado e o blues, tem por objectivo "exorcitar os espíritos".
Estava mesmo prestes a acreditar que se tratava de uma verdadeira perseguição quando mudei outra vez para um canal que estava a transmitir uma homenagem do American Film Institute à actriz Meryl Streep; ouvi, então, a jovem actriz Claire Danes dizer-lhe o seguinte:
“Obrigado por me ter ensinado que é possível alcançar a excelência com exploração, risco e amor”.
Nem uma vaia.
Desliguei logo a televisão, para que também esta minha fita tivesse um final feliz.
publicado por Rui Correia às 14:48
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3 comentários:
De rui a 4 de Julho de 2004 às 13:04
(aplauso vibrante) Tenho para mim que a qualidade de uma pessoa pode ser também vista pela forma como aceita as críticas e as correcções que outrem lhe lança; sobretudo as que são "ligeiramente injustas", as mais difíceis de aceitar. Na verdade, quando uma crítica é claramente injusta, a coisa, pelo absurdo, custa pouco a digerir por a colocarmos no domínio da má-fé. Quando a crítica é justa, não é difícil reconhecer a sua validade que se impõe sem rodeios e falácias.
Agora, quando a crítica é semi-injusta, como grande parte das críticas tende a ser compreendida, (uma conhecida técnica de defesa pessoal, para se se camufle a realidade da falha cometida), então aí é que as coisas são mais reveladoras. Quanto mais se faça para dissolver na água a intensidade do erro, mais explícita se torna a incapacidade de acolher a crítica, mesmo que edificante.
De Lus Filipe Redes a 30 de Junho de 2004 às 19:24
Os erros gramaticais são inevitáveis. Facilmente aplicamos um paradigma morfológico errado, especialmente em casos de pouco uso. Será o caso de expelir. Quando me perguntaram como é o presente do conjuntivo de "expelir", fiquei sem saber de que me socorrer. Os verbos da mesma família, como "repelir", "compelir" ou "impelir", pareciam-me todos esquisitos na 1ª pessoa do presente do Indicativo, e ainda mais no presente do conjuntivo, pois são mais frequentemente utilizados na 3ª e nas formas do pretérito perfeito do indicativo. Só depois de pensar um bocado é que me lembrei que o paradigma deveria corresponder ao de verbos como "ferir" e "preferir" e outros com a mesma configuração: vogal temática "i" e última vogal do radical "e".
Será, então, "eu prefiro, eu expilo", "que eu prefira, que eu expila".

Finalmente, hoje, ao terminar a leitura integral da Odisseia, dou com um servidor de Ulisses a pedir-lhe perdão, pedindo-lhe que não o repelisse: "Ulisses, não me repilas, tem piedade de mim". Lembrei-me, logo, do caso de “expelir” que eu, por engano, vejam lá, ia, agora, escrever "expilar".

Pois é, a língua é feita destas generalizações de formas duns casos para os outros.

Quem não desenvolveu a língua escrita, mesmo que a tenha aprendido na escola, não faz e não aplica as generalizações certas. "Não vaia" corresponde ao modelo que se aplicaria a "sair" e não a "ir".

É a escrita que conserva e defende a língua oral da deriva que transformaria a língua portuguesa numa intrincada soma de dialectos incompreensíveis. Quanto maior o analfabetismo, maior será a diferenciação dialectal e esse é o nosso problema nos acordos ortográficos. A língua deles evolui muito mais e tem mais dialectos do que a nossa. Precisamente por esse motivo, estão sempre a pedir novos acordos ortográficos para tentar que a escrita mantenha uma imagem mais verdadeira da
oralidade.

Algumas estrelas dos nossos "media" têm uma relação muito pobre com o universo da escrita. Por isso, não falam bem. Confesso que, apesar de simpatizar com a figura e com a personalidade de Luís Figo, a sua modéstia, o reconhecimento de que o
futebol é algo bastante "básico", quando o ouço falar, é como se ouvisse alguém a riscar no quadro negro com as unhas, especialmente quando ele diz "logicamente". Mas o Luís Figo não está aí para escrever nem para falar, mas sim para ser objecto de escrita. Alguém que não ele há-de pôr em boa forma escrita alguns dos seus lances, dos momentos em que a sua habilidade e a sua inteligência táctica nos deixa surpresos e encantados!

Acho que a coisa melhor que me podem fazer é criticarem-me. Apesar do impulso auto-defensivo de rejeitar a crítica, penso: "é melhor ouvir, senão inibo os meus críticos".

Se nos criticarmos uns aos outros, defenderemos uma linda senhora, uma rainha que tem súbditos nos quatro cantos do mundo: a Língua Portuguesa.
De Slvia a 28 de Junho de 2004 às 17:28
Concordo plenamente contigo. Aliás, quando erro, tb gosto que me corrijam! Prefiro mil vezes a correcção do que continuar a errar. :) A questão é que a maioria das pessoas não interpreta assim, e julgam que estamos a tentar superiorizarmo-nos perante elas. Quando assim, é, que se lixe, que continuem a insistir no erro!
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