Terça-feira, 13 de Julho de 2004

dar

michaelpalin.jpg

“O que é que está a dar na televisão?” Esta frase não apareceu muito, muito cedo na minha vida. Na minha rua ninguém tinha televisão, quando eu nasci. Mas cinco anos passados, não conhecia ninguém que não tivesse uma. E ninguém tinha duas. Todos os meus amigos que cresceram comigo, cresceram com a televisão. O meu pai chegou à Lua com ela. Eu apenas tinha idade para copiar a emoção dele ali, ao vivo. Depois disso, fiquei sempre de televisão ligada. A mim. Acho mesmo que a maioria das coisas que hoje conheço, devo-a à televisão. Que me perdoem os meus amigos livros e os meus amigos. Sou, serei sempre, reverente por beneficiar desta tecnologia opaca que me mostra uma bola de ténis a saltar num court de ténis no Japão, exactamente ao mesmo tempo que a mesma bola de ténis salta num court de ténis no Japão. Sou muito saloio neste - como noutros - aspectos.
Por ócio, deu-me para inventariar as séries de televisão que nunca quis que terminassem e que terminaram. A fila é curta demais, mas será completada com outras que o tempo e os amigos me recordarão. Vamos lá então.
“O santo” do Roger Moore, “Os vingadores” com o Patrick Macnee (1961-1969), o “Batman” na reposição dos anos 60, o "Bonanza" com o genérico a arder, "Les Galapiats", ou, à portuguesa, "Os pequenos vagabundos - o tesouro do castelo sem nome”, uma série de aventuras de língua francesa que revi até me deixarem, da qual muitos da minha idade recordam o tema musical do genérico e que hoje procuro em dvd com afã de fã, (soube que a tv belga RTBF acaba de a repor para celebrar os seus 50 anos de emissão); o Kabir Bedi de olhos claros, o tigre da Malásia, o "Sandokan" que me ensinou mais em italiano sobre facas curvas, em meia lua, do que sobre colonialismo europeu no Sudeste Asiático; “A família Bellamy” e, já que falamos de mordomos, o “Soap”; o “Sherlock Holmes”, na versão com o Jeremy Brett; os “Goodies” – que foram a minha introdução ao nonsense inglês. Os “Monty python flying circus” – um curso avançado de surrealismo que mudou o meu riso para sempre, para mim e para muitos, a melhor série de humor que jamais veremos; o "Verão azul" com o velho Chanquete, Tito, Bea, Javi, Pancho, Piraña, Quique, Desi e Julia, uma espanholada balnear que me tingiu a adolescência e de que me ficou muito marcado o episódio em que a Bea passou de menina a mulher; era filmada em Nerja (Málaga); o “Espaço 1999”, do comandante Koenig e do melhor piloto de eagles, o australiano Alan; o “Cheers”, divertidíssimo nas suas três séries que hoje revejo com nostalgia encantada. Desse tempo, recordo o "Fame", que me atirava sempre para duas horas certas e sabidas de guitarra com o meu irmão.

Por esta altura, deixei a têvê por uns anos e agarrei-me aos livros e à música. Quando voltei, já as têvês tinham comando à distância. Peguei nele e comecei a ver o “Seinfeld”, a segunda melhor série de humor que jamais vi, pelo prodígio de talento e a longevidade do génio na melhor escrita de textos de humor. Mais recentemente, o “Frasier”, o "Couplings", e, depois desta, a terceira melhor série de humor que jamais vi - “The Office” - do grande Ricky Gervais, sobre a qual nada sei dizer que não fique aquém. Noutro âmbito, as voltas e mais voltas ao mundo do python Michael Palin, homem de espantosa simplicidade e humanidade ("Full circle", "Pole to pole", etc.); “Os desafios da vida” do David Attenborough e, também dele, “A vida secreta das plantas”, documentários inacreditáveis para quem acha que já viu tudo. E depois, todos aqueles talk shows da Ruby Wax ("Do you speak? Or do you just have breasts and therefore you are?"), do Larry King, o “Crossfire” e, claro está, o do maior de todos os anfitriões, Michael Parkinson, uma lição caminhante e universal de humanismo, gentileza e inteligência, toda reunida num único ser humano; o Vitorino Nemésio e a Ana Sousa Dias a provarem cerejas como se fossem palavras.

Hoje em dia, para além de rever tudo isto, ocupo os meus ócios televisivos com coisas cada vez mais escolhidinhas e o controle remoto é o meu competente bibliotecário. Selecciono e catalogo tudo com a pressão de um botão já sem número, (com esta idade voltei a contar pelos dedos). Só largo o comando quando me aparece pela frente o "Daily Show" do Jon Stewart e da sua espantosa equipa, o “Changing rooms”, um programa de decoração de interiores, ou o “Ground force”, um programa de decoração de jardins, com um anfitrião encantador chamado Alan Titchmarsh (www.alantitchmarsh.com) de que sou adepto incondicional, o “Flog it” ou o “Antiques Roadshow”, ambos sobre antiguidades. Ultimamente, tenho-me também divertido com um jogo de televisão chamado “Friends like these” que me perde o tempo em troca de um permanente sorriso. Desta lista ad hoc retiro que é maioritariamente britânico o meu gosto televisivo. Seja. Desta televisão vejo eu sem fastio, privilegiado. Enfim, vou-me entretendo, aprendendo e, sobretudo, recebendo com tudo isto, que é para isso que ligo a televisão. Para estar a dar.
publicado por Rui Correia às 20:52
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d