Quinta-feira, 15 de Julho de 2004

insecticida

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Desde o momento em que descobri que WC significa "water closet" que tento não usar expressões que não conheça. Mas há palavras e expressões que continuamos a usar todos os dias e que não sabemos o que querem dizer. A vida e os dias - a sua espuma, como disse o Boris Vian - levam-nos a pensar noutras coisas e não chegamos a resolver estes pequenos nadas. O problema é que depois estas abreviaturas, palavras e expressões não me saem da cabeça. De vez em quando ouço-as a rondar. Parecem melgas a zunir. É como usar t-shirts com caracteres orientais que não sabemos o que dizem: podem estar a dizer “Ando à procura de um lémure para acasalar” que é a mesma coisa. É aqui que o estudo faz falta e resulta.
Uma das expressões mais dadas a uso e abuso é o famoso “ok”. Toda a gente diz “ok”. O que significa a expressão “ok” ? Andei por aí às voltas e já descobri, finalmente. É coisa inventada por militares. Eu explico. Quando uma operação militar termina, no regresso à base é pedido ao oficial responsável um relatório sumário do que aconteceu. Ora, o mais importante é saber se há baixas humanas. O Ok surge para dizer que tudo está bem. Que houve, (é aqui que muitos se enganam), zero baixas, ou seja, “zero killed”: "0 k.". Ou seja aquilo que eu sempre pensei ser um ó é afinal um zero. E pronto. Agora já sei: quando alguém me disser “ok”, está a dizer: “não morreu ninguém”.
Outra das expressões que durante anos andei para saber mais exactamente de onde vinha, era a expressão “Terceiro mundo”. Ainda por cima, uma expressão tão contestada. Até o Sting, esse rapaz de bom viver, tem uma canção onde diz “One world is enough for all of us”. Hoje em dia, “Terceiro mundo” ainda se utiliza com enorme frequência, mesmo tendo já perdido, como veremos, bastante do seu sentido original.
A expressão - fui estudar - foi cunhada pelo economista Alfred Sauvy num artigo da Le Nouvel Observateur em 14 de Agosto de 1952. Era uma referência ao “Terceiro Estado”, expressão oriunda dos tempos da revolução francesa para designar quem não pertencesse à nobreza ou ao clero. Os termos “primeiro mundo”, “segundo mundo” e “terceiro mundo” eram usados para distinguir as nações mundiais em categorias económicas. O ”primeiro mundo” referia-se às sociedades de regime capitalista, o “segundo mundo” aos países de regime comunista e “terceiro mundo” para os países não alinhados, muitos deles países subdesenvolvidos da América Latina, África e Ásia. Hoje em dia, com o muro de Berlim no chão, a expressão está desactualizada. Mas não irremediavelmente, prevejo eu.
Enfim, trapalhadas. Desculpem andar para aqui a explicar o que já sabem, mas como eu desconheço tanta coisa, fico sempre contente quando desconheço menos uma. Que habitualmente me recorda outra que não sei. Mas há que continuar. Gosto disto. De pegar em coisas que não sei e abatê-las, como quem mata melgas. O estudo é o insecticida da ignorância. Nessa minha longa lista de coisas a pulverizar, a seguir ao “Terceiro Mundo”, vem a explicação para a corruptela aportuguesada “pioné” (punaise). Ando a ver se descubro se a palavra vem de uma flor ou de um insecto. Um percevejo.

tssssssssssssst. Gaita. Falhei. 0k. Chatice.
publicado por Rui Correia às 20:36
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1 comentário:
De rui a 15 de Julho de 2004 às 21:08
PS. "percevejo" é uma boa palavra que devia significar outra coisa: uma mistura de percebo com "vejo".

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