Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2005

o ponto verde da educação

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Num texto clássico do Roland Barthes, que o linguista, humorado, intitulou "O pêssego careca", dizia-se que o difícil na mutação de paradigmas, o interessante e o complexo não os encontramos nós na determinação de metas. O importe maior reside na identificação das vias para essa transição.

Em Portugal, no domínio da educação a mudança é imperiosa. E sabemos o que fazer. As estratégias são conhecidas e qualquer tentativa de as subestimar soçobrará, com custos temíveis, atropelando o futuro com o presente. E fazê-lo, como tem sido feito, terá por resultado, como tem tido, colocar a educação em ponto morto. Uma privação de dinâmica, de que já hoje padecemos e que nos fará recuar.

Num país com o legado autoritarista como o nosso, numa jovem vivência democrática que não soubemos ainda consolidar, e que, como em todas as adolescências, já nos damos ao luxo de vilipendiar, floresce, adubado num magnetismo bajoujo pelas novas doutrinas importadas do mundo empresarial, um encantamento flautista pelo tema da liderança, factor entendido por determinante para a consecução de todo o projecto de mudança, educativo ou administrativo.

Gestores contra professores é o refrão da nova cantilena progressista que se pretende entoar. Mas o que é certo, o que os dias nos demonstram é isto: gestão escolar não é Informática Aplicada à Gestão nem Contabilidade e Gestão Financeira nem Fundamentos Teóricos de Organização e Administração. Gestão escolar é tudo isso somado ao que mais importa: um conjunto de valores, um agregado de princípios e de objectivos expressamente enunciados e protagonizado por uma equipa que se afirma capaz de os accionar junto de uma comunidade educativa a quem é cometida a responsabilidade eleitoral de distinguir quem quer ver a dirigir os destinos de todos os alunos e de seleccionar o que quer para o seu futuro. Gestão escolar é atribuir a devida importância à comunidade escolar. Resulta improcedente cometer responsabilidades à comunidade escolar, se lhe for retirada a habilitação para escolher a quem confia os destinos executivos da sua escola.
O que torna o nosso país, o nosso ensino, a nossa escola, tão enfraquecidos é esta deturpação aleijada, este anexim repreensível de imputar responsabilidades à liderança escolar para legitimar outros proveitos, bem mais indecorosos. Quem viva os dias das escolas sabe que as escolas não são o que são por causa da liderança escolar que têm tido. As escolas ainda conseguem ser o que são por causa da liderança escolar que têm tido. Algumas das melhores soluções de gestão escolar conseguem-se com a participação da comunidade escolar. Se o sistema de ensino não é pior do que é, e pode mesmo ser ainda muito pior, só assim o é porque quem vive nelas vai desejando para elas o melhor possível e a elas vai entregando o seu melhor possível.

Nem a água é mais límpida do que isto: se os rumos forem dispersos, também as energias o serão. Precisa-se de poucas ideias. É necessária uma ECOLOGIA EDUCATIVA com os seus três érres: reduzir, reciclar e reutilizar.

R E D U Z I R o número de alunos por turma, através da supressão dos desdobramentos e pela edificação de novos espaços escolares.

R E C I C L A R os procedimentos administrativos com vista a uma gestão da informação moderna e pensadamente útil, eliminando procedimentos que datam, efectivamente remontam, de há dois séculos atrás.

R E U T I L I Z A R, ano após ano, os procedimentos estruturantes do sistema educacional, perseguindo-se a estabilização do corpo docente e o necessário estacionamento processual e pedagógico, contrariando esta bulimia legislativa em que nos cevamos. Só assim se amplia a inteligibilidade do sistema. Só funciona aquilo que se compreenda com clareza. Para compreender é preciso tempo. Não podemos mudar de rumos todos os mandatos, é preciso reutilizar com criatividade e novas leituras sim, mas reutilizar, ano após ano, mandato após mandato, o que já possuamos.

Temos, pois, como sempre tivemos, a perspectiva da árvore e a da floresta. O que mais custa a compreender é que ainda haja quem não saiba o que sobre isso já todos devamos pensar.
publicado por Rui Correia às 12:48
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2 comentários:
De Rui Antunes Correia a 18 de Janeiro de 2005 às 00:56
Absolutamente. Entre o muito que me espanta por vezes no determinismo igualitarista que permeia a legislação sobre avaliação é um certo espírito utopista, que nada tem de utopismo por ser tão essencialmente conservador, pelo qual toda a avaliação se fará para todos da mesma forma. Isto todos defendem e aceitam bem. O problema começa no momento em que desatamos a apresentar soluções concretas para essa desmistificação. Quando a docimologia, no concreto integra elementos de diversidade criterial, ou, o que é o mesmo, avaliações diferentes e critérios diferentes dentro da mesma sala, aí a confusão e o desmazelo é total. No pior dos sentidos, os alunos querem-se todos diferentes para serem exactamente iguais.
De Lus Filipe Redes a 14 de Janeiro de 2005 às 21:57
Reduzir o número de alunos permitirá individualizar, diferenciar e personalizar, príncipios que se opõem à massificação e à falsa e cínica equitatiividade do sistema.
Quando as condições de origem e de acesso são diversas, a escola com pretensas normas gerais e universais apenas confirma e perpetua diferenças iníquas.
Será possível uma escola em que todos os alunos vão verificando os seus progressos e em que não haja uma grande minoria que vá constantemente confirmando a sua inépcia? Em que a adaptação curricular resulta no escamotear desta inépcia? - esta é para mim a grande questão.

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