Sábado, 5 de Fevereiro de 2005

homo electus VII

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Quem já andou, mas sobretudo quem já comandou na tropa, sabe muito bem que o aspecto e a falácia das pessoas não conta para nada. O mais fanfarrão e musculado dos homens gela perante o medo, paralisa perante o risco e traz a morte a todos com a mesma naturalidade com que o mais tímido e franzino dos recrutas se pode revelar o mais estrénuo dos combatentes. A verdade, nas coisas como nas pessoas, demora. Não se mostra. Vai sendo revelada. Não se encontra. Vai-se descobrindo.

O modelo de debate televisivo à americana, com as luzinhas a dar a dar e com a impossibilidade de interrupção, não funciona. Um comentador disse-o da melhor forma. Os portugueses gostam de uma boa zaragata. É mesmo verdade que o pior e o melhor de cada um vem ao cimo em situações de tensão. Nos debates queremos vê-los assim. Gostamos de os ver assim. Emocionalmente descalços. Sem rede. Ver-lhes a verdade sentida. Quando a tensão é clinicamente conduzida, tudo fica asséptico e controlado. E isso não é nada português. O voto, o meu pelo menos, dou-o a quem demonstra verdade. Um debate assim estorva a verdade. Além do mais é arbitrário. Uma boa imagem televisiva significa uma boa imagem televisiva. Bem sei que um líder quer-se assim. Com boa imagem televisiva. Mas num debate, aquilo que mais me interessa é saber se ela ou ele sabem o que dizer e como dizer em momentos difíceis; se sucumbem à boçalidade ou se se mantêm rectos e íntegros, superando o aperto.

Ler a transcrição do debate entre Sócrates e Santana é a melhor prova de que estes debates não servem para coisa nenhuma. Os contendores ficam mais preocupados em responder à letra ao adversário, do que a dizer o que têm para nos dizer. Veja-se este passo:

SÓCRATES
O que nunca me tinha ocorrido é que o Dr. Santana Lopes achasse que podia
resolver o problema da pobreza nos idosos com estágios profissionais. Eu ouvi
bem, estágios profissionais.
SANTANA
Mas porquê, não têm direito? Não têm direito?
SÓCRATES
Por amor de Deus, Dr. Santana Lopes, não sabe do que está a falar. Estamos a
falar de pobreza.
SANTANA
Mas, os pobres…

Uma idiotice pegada. Um comenta o que o outro nunca quis dizer. Não se compreende que ainda se pretenda que um debate televisivo seja fundamental para decidir o que quer que seja. Não é. Cada vez menos. Tenho para mim que, nos nossos dias, o que mais importa é o que dizem os jornais no dia seguinte e não o que sucede durante o debate. Partindo do princípio que alguém ainda não sabe como funcionam os jornais. Por isso é que as máquinas partidárias desatam a celebrar vitória e a televotar. O que realmente vale é dar a entender que o nosso venceu o outro. Dar a entender. Quanto ao debate, esse nem é para ver.

Um indeciso não é um tipo que vive amargurado por não saber em quem vai votar. Ou um que estuda atentamente cada frase do debate para poder finalmente decidir-se. Quem lê as transcrições de um debate político, ou é alguém que não mesmo mais nada para fazer, ou então é aquele que já sabe ao que vai. Um indeciso é aquele que nem sabe o que um ou o outro defendem. Nem quer saber. Estamos em Fevereiro. No preciso momento em que os candidatos debatem na televisão, o indeciso está a preparar a sua fatiota de Carnaval. Não só não pensou em quem há-de ir votar como agora não pode pensar muito nisso porque também ainda não sabe se este ano se veste de José Castelo Branco ou de Alexandre Frota. Pensar que o país está dependente de dependentes, e os seus líderes decidem-se por indecisos tem sido a matéria favorita de todos os anti-democratas para averbar da falibilidade democrática e da sua extrema vulnerabilidade. Mas isso é a velha relação custo-benefício, ou melhor, a velha ralação custo-benefício que governa a vida de todas as decisões, de todos os sistemas. Os três debates Kerry-Bush demonstraram que os debates não são o que já foram. Nos debates televisivos de hoje, todos perdem e todos vencem e ninguém sai beliscado ou premiado com isso. Quem convenceu ontem, não vencerá amanhã. Em Portugal, um debate televisivo só determinará um vencedor se um dos contendores baixar as calças, rasgar a fotografia do Eusébio e da Amália e gritar Viva Espanha, com sotaque.

No debate televisivo de ontem, incompetente e amador, foi, ao menos, interessante conhecer de perto o conceito de "Democracia Universal" que Santana Lopes perfilha. É, basicamente, aquele que permite que cada um diga o que lhe apetece sobre quem quer que lhe apeteça. Nas suas palavras, quando Sócrates é publicamente acusado de ser um cripto-homossexual, não há aí nada de exorbitante:

“Se acha isto ofensivo, então, não sei de que é que se pode falar em política.
As campanhas em que se fala dos adversários são hábito em todas as democracias, nomeadamente, na americana. O Eng. Sócrates quer uma
democracia à portuguesa, sem as regras da Democracia universal.”

Tudo é, pois, aceitável e pertence, afinal, às “regras da Democracia universal”. Nada mais que um “hábito em todas as democracias, nomeadamente, na americana”. Tudo naturalíssimo. Não se percebe é por que razão, se tudo é tão natural assim, Santana se ressente tanto por escutar

“ofensas todos os dias, ao pé dos meus filhos, à mesa, ao telejornal”

E pensar que foi este mesmo Santana aquele que quase regurgitou quando no congresso do PS, José Sócrates utilizou o teleponto, “à americana”. Usar teleponto foi encarado como um sinal de fraqueza. Não era uma cábula. Era um ignóbil disfarce de convicção e de eloquência. Contrário certamente às “regras da Democracia universal”. Um gesto reprovável e contrário a tudo o que é “hábito em todas as democracias, nomeadamente, na americana”.

R.I.P. Tocqueville.
publicado por Rui Correia às 17:47
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