Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005

homo electus VIII

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Era fatal. O teleponto voltou hoje à baila, no arranque da campanha. Em Castelo Branco, terra de Guterres e Sócrates, o ministro Nuno Morais Sarmento - advogado aziago que, se calhar por estarmos no Carnaval, não consigo deixar de imaginar vestido de diabinho com capa, cornitos e collants vermelhos - disse que Sócrates só sabe dizer três coisas:

1 - o que diz Guterres.
2 - o que diz António Vitorino.
3 - o que diz o teleponto.

Não é inesperado que Sarmento diga mal de Guterres e de Vitorino. O que está ainda por apreciar ainda melhor é esta inimizade recorrente pelo teleponto. Justamente vinda do homem da televisão. Mas pronto. Telepronto. Ficamos a saber em definitivo que o teleponto é uma coisa má. Não é uma novidade. Já o suspeitávamos. O teleponto é uma coisa tão má que se não fosse o teleponto ninguém conheceria a Teresa Guilherme. Nunca ela tinha aberto a boca para falar fosse o que fosse. E Portugal sabe o que ganharia se tirassem o teleponto à Teresa Guilherme. Mas isso é televisão. E, como sabemos, a política e a televisão não se misturam e se há coisas que o pêpêdêpêéssedê de Santana odeia é a política espectáculo.

Fica então assente que, em Portugal, em política, o teleponto não deve usar-se. Nenhum político português que se preze devia ter a temeridade de usar teleponto. O teleponto é muito nocivo para a política. Faz parecer o que se não é. Permite que se olhe os espectadores nos olhos sem que estes percebam que não estamos a olhar ninguém nos olhos mas sim a ler cábulas, para não errar no discurso. Não é natural. E Sócrates, mesmo assim, mesmo sabendo disto, teve a desfaçatez de ser o primeiro político a usar teleponto em Portugal. Sócrates é diferente de todos os outros políticos porque ao contrário de Sócrates, todos os outros políticos são realmente o que se vê. Um político de papel na mão é credível. Muito, mas muito mais credível do que um com duas placas de acrílico por perto. O teleponto desvirtua a tradicional credibilidade dos políticos portugueses. Diminui a política e os políticos. O teleponto está para a política portuguesa assim como a telepizza está para a gastronomia portuguesa

Sarmento sabe do que fala porque ele é que é o homem da televisão. Sarmento herdou uma érretêpê desgovernada. Sócrates não soube fazer nada com aquilo. Sarmento fez. E muito. Mas uma coisa que Sarmento não fez na érretêpê, uma só que Sarmento ainda não fez na érretêpê foi acabar com o teleponto. E isso só aconteceu porque o teleponto parece até servir bastante bem para que locutores de continuidade possam dizer coisas sem parecer que estão a ler. Mas mais nada. Não falemos mais sobre isto: o teleponto é um aparelho que não deve existir fora de um estúdio de televisão. O que verdadeiramente importa é falar sobre os reais problemas do país. Não faltava agora mais nada do que andarem para aí todos os políticos com o teleponto atrás - ou à frente - a destruir a sua natural candura e credibilidade. Só nos faltava mais essa.

(botinhas pretas justas e tridente… estão a ver?)
publicado por Rui Correia às 00:26
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