Segunda-feira, 18 de Abril de 2005

Kantinflas

cantinflas.jpg

Ouvi recentemente dois ecos afáveis de leitura de um texto meu. Houve dois tipos que acham que eu disse coisas do Kant que não devia. Entendi ambos os reparos como uma espécie de Declaração Amigável de Acidente. O meu texto, entre outras coisas que nada importaram aos meus amigos leitores, referia-se à excelsa figura do filósofo de Konigsberg. No texto eu afirmava que de Kant se diz “que matou Deus”. O meu amigo disse-me que não. Que o criminoso é outro. Ora, isto de homicídios não é coisa para tratar com duas lérias. Tentemos, ainda assim, ao menos duas.
Há muitos anos, quando estudei o idealismo alemão ainda com vontade disso, depois do dificílimo Hegel, ficou-me na memória a comparação que o poeta Heinrich Heine fez sobre Kant e Robespierre. Dizia ele, segundo o meu professor Veríssimo, que “Esse terrível Robespierre matou um rei e alguns milhares de franceses, o que pode ser perdoado. Agora Kant, esse, matou Deus, por ter desmantelado os mais válidos argumentos da teologia”. Aprendi, então, (e, confesso, até hoje), que Heine se referia naturalmente à crítica de Immanuel Kant sobre a metafísica tradicional. De facto, considerando Deus uma das suas “sínteses infinitas”, que, por explicação na sua Crítica da Razão Pura, escapam ao processo gnoseológico tradicionalmente encetado pela especulação metafísica, corrente desde a Idade Média, pude com a frase de Heine melhor compreender tanto a relevância de Immanuel Kant, como a de Deus. E fico-me. Lá se sempre foi Kant quem matou Deus ou se o alegado delinquente foi Nietzsche ou outro ainda mais rábido, deixo isso aos que melhor conheçam as perícias forenses da filosofia.
Outro risco na pintura do meu texto envolvia a seguinte frase: “O exemplo de Kant diz-nos que mudar o mundo passa por mudar o nosso mundo”, referindo-me aos usos estantes do velho prussiano. Que não. Que não podia ser. Que o Kant nunca disse nada disso. Que o meu texto não tinha referências bibliográficas. Ora, contra isto é que é mais difícil argumentar. Porque ler não é difícil. E quando não se percebe à primeira, tenta-se à segunda. O que não se pode é fingir. Quer-se dizer: poder, pode, mas não deve.
Sempre tive a preocupação de contrariar intensidades intelectuais nos meus muitos escritos inócuos, que não passam de meros exercícios de bonomia literata. Ainda vou conhecendo a estridente disparidade entre uma sugestão instruída e uma proposição científica.

Ergamos, pois, o copo ao grande Mário Moreno
publicado por Rui Correia às 19:41
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8 comentários:
De Lus Filipe Redes a 23 de Abril de 2005 às 03:05
...Contudo, dou mais crédito à teoria do Big Bang do que à da imaculada conceição.
De Lus Filipe Redes a 23 de Abril de 2005 às 03:03
Heinrich Heine foi talvez quem mais mitificou Kant. A ideia do homem metódico, monástico de Koenigsberg, certo como um relógio, é dele. Queria opor uma espécie de serenidade cerebral às emoções românticas e Kant serviu de protótipo para um dos extremos. Há quem critique isso a Heine. Para Kant, não é racionalmente possível nem comprovar a existência de Deus nem contestá-la. "Não comprovável" é diverso de "inverosímil". Como kantiano, não posso dizer que Deus é inverosímil. Que uma virgem deu à luz - eis uma proposição inverosímil. Que Deus criou o mundo, ou que Deus é a última causa, o princípio de tudo, são proposições que escapam à questão da verosimilhança. Para chegar a Deus, diz Kant, temos que recorrer a analogias. Inagino eu que seja do estilo: se algo é deixado a si próprio, degrada-se então a natureza para ser mantida em ordem precisa também duma inteligência e uma força superior que é Deus. Ou: se a mais simples máquina humana para existir necessita de alguém inteligente que o conceba, então que dizer da maravilhos complexidade de uma simples célula? Não comprova isso a existência de Deus? Trata-se de analogias. Ora a analogia é uma figura da expressão e não um processo de dedução analítico nem tampouco um processo sintético, de ordem contingente, indutiva. Então, Deus para Kant é uma entidade moral de que muitos de nós precisamos: Deus deve existir para garantir que a justiça, o bem, etc. vençam. Agora se me perguntarem o que é mais inverosímil, Deus ou o Big Bang, não sei. A ciência fornece explicações para a teoria do Big Bang. Mas, de facto, que todo o Universo tenha saído de algo do tamanho da cabeça dum alfinete é, à partida, tão inverosímil quanto a imaculada conceição...
De Lus Filipe Redes a 22 de Abril de 2005 às 02:16
... Contudo, dou mais crédito teoria do Big Bang do que à da imaculada conceição.
De Lus Filipe Redes a 22 de Abril de 2005 às 02:13
Heinrich Heine foi talvez quem mais mitificou Kant. A ideia do homem metódico, monástico de Konigsberg, certo como um relógio, é dele. Queria opor uma espécie de serenidade cerebral às emoções românticas e Kant serviu de protótipo para um dos extremos. Há quem critique isso a Heine.
Para Kant, não é racionalmente possivel nem comprovar a existência de Deus nem contestá-la.
"Não comprovável" é diverso de "inverosímil". Como kantiano, não posso diser que Deus é inverosímil. Que uma virgem deu à luz - eis uma proposição inverosímil. Que Deus criou o mundo, ou que Deus é a última causa, o princípio de tudo, são proposições que escapam à questão da verosimilhança. Para chegar a Deus, diz Kant, temos que recorrer a analogias. Inagino eu do estilo: se algo é deixado a si próprio, degrada-se então a natureza para ser mantida em ordem precisa também duma inteligência e uma força superior que é Deus. Ou: se a mais simples máquina humana para existir necessita de alguém inteligente que o conceba, então que dizer da maravilhos complexidade de uma simples célula? Não comprova isso a existência de Deus? Trata-se de analogias. Ora a analogia é uma figura e não um processo de dedução analítico nem tampouco um processo sintético, de ordem contingente.
Então Deus para Kant é uma entidade moral de que muitos de nós precisamos: Deus deve existir para garantir que a justiça, o bem, etc. vençam.
Agora se me perguntarem o que é mais inverosímil, Deus ou o Big Bang, não sei. A ciência fornece explicações para a teoria do Big Bang. Mas de facto, que todo o Universo tenha saído de algo do tamanho da cabeça dum alfinete é, à partida, tão inverosímil quanto a imaculada conceição.
De Rui Correia a 19 de Abril de 2005 às 12:52
"Não me parece aceitável ver a filosofia kantiana como dirigida a eliminar Deus, como o fará Nietzsche ou Marx".

Não me parece que "aceitável" seja a palavra que procuras. Na minha perspectiva o que não vejo como "aceitável" é desdenhar no novo formato que kant desenha para a renovada inverosimilhança nominal da existência de Deus, e antes dele no implosivo empirismo de Hume, os fundamentos basilares para a constituição de outras visões ulteriores, eventualmente mais explícitas para a desmontagem do divino como objecto de conhecimento, tal como até então nunca pôde sequer deixar de ser contemplado.
De Rui Correia a 19 de Abril de 2005 às 12:41
Pronto. Até agora sabia o que o Heine pensava sobre o Kant. Agora também já sei o que tu pensas sobre o assunto.
De Lus Filipe Redes a 18 de Abril de 2005 às 23:38
De resto simpatizo com a segunda parte. Kant tem uma preocupação ética e estética que é mesmo o fundamento da primeira crítica. Ele quer mudar o mundo, mudando as pessoas. Basta ver as últimas páginas para compreender isso. Acho, de resto saudável essa observação que se opõe precisamente à 11ª tese sobre Feuerbach (do Marx) que diz que a filosofia se tinha até aí limitado a pensar sobre o mundo e que o que importava era mudar o mundo. Se pensarmos nas contingências que Sócrates, Déscartes, Galileu e Espinosa, por exemplo, sofreram nas suas vidas por filosofarem e se atreverem a pensar, temos que reconhecer que essa observação de Marx é extremamente injusta e, mesmo, falsa.
De Lus Filipe Redes a 18 de Abril de 2005 às 23:25
Meu caro, essa foi com certeza a leitura de Heinrich Heine. Quanto a mim, só posso falar do que leio. Nunca vejo em Kant, uma posição militante anti-religiosa como a de Voltaire - "Écraser l'Infame!" - no seu libelo contra a Igreja. No máximo, poder-se-ia dizer que Kant, na Crítica, põe de lado os argumentos ontológicos a favor da existência de Deus, próprios da metafísica de São Tomás. No final da Crítica da Razão Pura, Kant aceita a possibilidade da existência de Deus, mas afirma que contrariamente ao que faz com as categorias do entendimento e da razão, Deus não pode ser demonstrado de forma necessária. E, por outro lado, também não pode ser demonstrado através da experiência sensível em que se baseiam as ciências empíricas. Deus fica assim dependente da Fé e da moral que diferem da Razão. Parece-me que, em termos práticos, Kant acha aceitável a crença em Deus, desde que despojada dos atavismos das crendices, como se verá num outro texto sobre o Conflito das Faculdades. Deus aparece mais claramente na Crítica da Razão Prática, como elemento que fundamenta o juízo moral. Não me parece aceitável ver a filosofia kantiana como dirigida a eliminar Deus, como o fará Nietzsche ou Marx.

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