Domingo, 8 de Maio de 2005

independentes II

Independentes. Procura-se. Qualquer que seja a sua pigmentação partidária. Dão-se alvíssaras a quem provar pertencer-lhes. Com a proximidade de eleições, está aberta a caça aos independentes. E há também quem ainda faça confusão entre independentes e indecisos. Deve ser coisa minha, mas chega a parecer-me que todos se estão nas tintas para os independentes, a não ser em vésperas de verter votos. Talvez não. O independente é, no fim de contas, um independente. Alguém que, por definição, não depende senão de si mesmo. Uma voz livre. O independente pensa de forma livre. Não é constrangido por uma qualquer disciplina, seja ela social, económica, corporativa ou partidária. O independente obedece apenas ao imperativo do seu livre e independente pensamento. E é disso que os líderes e os exemplos são feitos. De independência. Os partidos precisam disto.
Com menor centelha oratória, poderia também dizer-se que independente é todo aquele que nunca preencheu nenhuma ficha de militante, ou rasgou todas as que preencheu. Mas quem são estes independentes? O que quase sempre acaba por comprovar-se é que muitos dos mais notórios independentes da nossa praça são indivíduos que, cedo ou tarde, lá acabaram por perceber que ninguém estava para os aturar. Na maior parte dos casos porque, ou não trabalhavam, ou não sabiam trabalhar ou não deixavam trabalhar quem trabalhava. Para sobreviver à rejeição, nas suas conversas de café, ou enquanto calcorreiam as suas piscinas caciquistas, justificam o seu distanciamento partidário com “divergências ideológicas” ou “incompatibilidades pessoais”.
Neste momento particular em que os partidos abrem as suas portas aos independentes, advirto para a existência de três ou quatro tipos de independentes especialmente nocivos a todo e qualquer partido:

De um lado, os intocáveis, que são independentes à prova de toda a bala, indivíduos que se empinam no direito de impor juízos, arengar convicções e atear rumores sobre toda a gente mas, quando a hora chega, esquivam-se admiravelmente de assumir quaisquer responsabilidades que denunciem a sua inépcia. Destes, não se lhes conhece trabalho sério duradouro, nem qualquer verdadeira significância. Temem, acima de tudo, que saibamos realmente o que realmente sabem.

Ao lado destes, estão os insaciáveis, indivíduos que são denodados independentes até ao momento em que se lhes abane com umas comendas, homenagens ou gabinetes, sempre desembaraçados quando lobrigam benefícios próprios, mas calaceiros quando do seu trabalho resulta apenas a benfeitoria colectiva dos cidadãos. Ao contrário dos primeiros, estes não temem, sequer, a humilhação pública. Nem chegam, aliás, a suspeitar dela, mesmo quando é aparatosa.

Há também os indecifráveis, indivíduos que tudo fazem para dar a entender que nada querem ter a ver com partidos e politiquices. Usam muitas vezes a expressão “aparelho” para endireitar os dentes com que tanto mentem. A única coisa que trai a sua construída imperturbabilidade é a sua ambição. Vêem-se a si mesmos como a próxima Índia por descobrir. Anseiam por convites para guerrear no futuro quem os convide hoje.

Para além destes, vive outra esmagadora minoria silenciosa de independentes a que eu, meio engasgado, confesso pertencer. Não são intocáveis, nem são insaciáveis e muito menos indecifráveis, mas têm manhas de felino esfomeado. São os imponderáveis. Usam de todas as armas que conhecem para amolecer os seus ímpetos idealistas. Ou porque “O dinheiro, o vil metal, amiguinhos, corrompeu todos e quaisquer valores”, ou porque “Estás-me a ver a mim no meio dessa gente?”, ou ainda porque, “Já não há gente seriamente empenhada na causa pública”. Ou porque “Não sei pôr a família em segundo lugar”. Ou porque ou porque.

E, mesmo assim, os partidos lá andam à cata de independentes. Destes e dos outros. Chamam a isto “renovação de quadros”. A atracção fatal pelos independentes tem explicações. Uns falam de falência do sistema partidário, outros, muito mais cínicos, dizem que tudo isto não passa de uma cosmética partidária. Um esconder de rugas. Uma lipoaspiração localizada contra aquela gordurinha inestética que convém dissolver.

O que move os partidos a pôr-se do lado dos independentes não é duvidoso. Vencidas as eleições, interessará conferir o que movia, então, os tais independentes.
O tempo. Sempre o tempo.
publicado por Rui Correia às 16:33
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6 comentários:
De Rui Correia a 11 de Maio de 2005 às 12:09
Luís, gostei muito da tua reapreciação e, de novo, aprendo contigo. A aesthesis helénica impõe cuidados acrescidos sim, mas tornam o texto um animal com vida própria. Sabes quando encontramos um aluno, passados dez ou quinze anos depois de termos sido seus professores? É sempre inesperado encontrá-lo e perceber que muito pouco do que lhe conhecíamos ainda é identificável. Dizemos, estupefactos, "Eia, como tu estás diferente... Cresceste." Assim é com alguns textos. Queria, finalmente, acrescentar um ponto à contenda. A dado momento, diz-se expressamente no texto: "advirto para a existência de três ou quatro tipos de independentes especialmente nocivos a todo e qualquer partido." É sobre esses - os nocivos - que eu discorro. A ideia pela qual eu ache que os independentes "é tudo malta de pouca confiança" constitui, evidentemente, uma exorbitância insustentável. Não se procure ali, por tudo isto, pelos Sousas Francos, Freitas e outros quejandos, que aqui não são chamados, até porque não pertencem a nenhum dos perfis que ali caricaturei.
Paulo, a ideia de criar e manter um blog, sobretudo quando é decidida a dois, como este foi, implica uma assiduidade que não se regateia. Amigo, impróprios para incómodos andamos todos.
De Lus Filipe Redes a 11 de Maio de 2005 às 09:53
Aceito que o artigo não tenha nenhuma mensagem cifrada, isto é, que não se dirija a um certo independente, embora não me pareesse errado, se tal fosse o caso. Portanto, não apontei tal coisa à conta de uma censura ao texto. Acho que na melhor prosa política há textos desses. O articulista está preocupado com um certo caso e, generaliza, classifica o fenómeno, sem deixar de, simultaneamente, se dirigir para o caso particular. Há assim textos que têm vários destinatários e que suportam leituras diversas. A recepção, ao fim e ao cabo, mesmo para o Jauss, está no próprio texto, e no próprio acto da escrita e de endereçamento da mensagem. "Falo para vocês todos, mas tu sabes muito bem aonde eu quero chegar." Pareceu-me sinceramente que era o caso, por isso, contrariando o paradigma do texto, apresentei-me como exemplo de independente, coisa que eu sei que não sou, porque obviamente, só se aplica o adjectivo "independente" a membros de listas de candidatos. Enfim, nada tenho nem a favor nem contra os independentes, porque não concorro com eles nem com militantes partidários para o preenchimento de listas. Sei que há um mal-estar dos elementos partidários relativamente aos independentes. Mas isso não atinge os eleitores, apenas os seus concorrentes. Para nós trata-se apenas de saber se é ou não um bom candidato para o lugar. Quando aparece um artigo que trata em geral dos independentes, o leitor questiona-se: "este tipo será membro de um partido ou será independente?"; "que caso é que motivou este discurso?". Se o texto apontasse exemplos dos bons e dos maus independentes ou se referisse um qualquer evento como motivo dessa prosa genérica, haveria menos lugar a tal questionação. É que cada um dos tipos apresentados pode valer como perífrase para casos que não se querem nomear e lá nos pomos nós a procurar exemplos e a pensar: "será que era este o caso que ele queria referir?". Por exemplo, Sousa Franco a que tipo corresponde? E o Freitas? E a nível local, deixem-me lá ver...
De Rui Correia a 10 de Maio de 2005 às 22:58
Bem. Assim sendo, o melhor é simplesmente admitir rapidamente que tenho óculos por desembaciar, como acha o Paulo, que a mensagem é cifrada, como acha o Luís, porque estou ressabiado, como volta a achar o Paulo. Fico, confesso, estupefacto com as duas leituras. Jauss no seu melhor.
De Rui Correia a 10 de Maio de 2005 às 13:21
Concordo contigo quanto ao que se tem feito da militância. Fiquei foi sem perceber o que é para ti a militância.
De Rui Correia a 10 de Maio de 2005 às 13:19
Putativo, tudo o é. Cifrado é que não, que não tenho tempo nem propensão para essas mordeduras. Cifrado é pensar que há mensagens cifradas em tudo o que parece redutor. E não são três. São quatro, amigo. Todas elas, sim, tens razão, muito convenientes. Mas não demasiado.
De Lus Filipe Redes a 9 de Maio de 2005 às 22:59
É um caminho cheio de equívocos, esse de discorrer sobre a "ética da independência". Considero-me independente apenas porque, apesar de ter convicções políticas claras, não pertenço a nenhum partido. Sou socialista, mas nunca cheguei realmente a fazer parte do PS nem de qualquer outro agrupamento partidário. Tentei ser membro do PS, mas depressa percebi que ter o cartão significava assumir-me como putativo candidato a um tacho ou a uma panelinha qualquer. Ora isso, em abstracto, não me interessa (quero dizer, entrar e esperar por uma oportunidade). De resto, o trabalho de militância fica vazio. Se eu for necessário, chamem-me! Ora, do que se trata aqui é de quem é que vai ser candidato a quê na lista de qual partido. Quanto a isso, acho que a classificação em três categorias é demasiado conveniente. Parece-me que é uma mensagem cifrada para alguém, algum putativo independente, talvez...

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