Quarta-feira, 1 de Junho de 2005

notas II

ponto dois - amealhar tempo

Em simultâneo, tornara-se decisivo trabalhar um segundo propósito pedagógico. Criar uma cultura escolar que contemplasse o tempo e a credibilidade como os dois factores mais influentes de todo o sucesso e consistência escolares.

O tempo. Dispor de tempo foi sempre para os professores um dos principais factores de dedicação. Se tal é compreensível numa escola bem dimensionada e adequadamente habitada, quando se vive em clima de sobrelotação, a falta de tempo torna-se um agente resoluto e amargo do insucesso. Disponibilizar tempo para os professores entendia-se como um elemento despoletador de outras mudanças ulteriores. Este tempo de que falamos não era entendido numa acepção meramente conceptual, etérea ou insubstancial. Entendemo-lo, de facto, como um instrumento indispensável para obter níveis sérios de sucesso escolar. A questão que se colocava era: como podemos diminuir o tempo consumido em tarefas burocráticas e ampliar a dedicação dos professores a actividades e considerações objectivamente didácticas e pedagógicas?

Naturalmente, a redução do rácio aluno/professor parecia uma orientação óbvia, que assumia, em turmas de 28 alunos, uma propriedade incontestável. Às limitações legais e constrangimentos físicos que impediam a adopção desta solução, juntavam-se os estudos de ex-ministros que pretendiam demonstrar, por a mais b, que os resultados em exames não melhoram em turmas com menor número de alunos, pretendendo assim acabar com um lugar-comum das pretensões de todos os professores.

No caso da Escola Básica Integrada de Sto. Onofre, podemos afirmá-lo sem hesitação, os hábitos escolares e culturais dos alunos que integram turmas com 22 alunos ou menos são notoriamente aperfeiçoados. O absentismo reduz-se notoriamente e os professores trabalham de forma mais focalizada, sobretudo nos casos de alunos com dificuldades mais delicadas. Talvez estas sejam consequências menos mensuráveis em estudos estatísticos, mas traduzem-se em corolários incomparavelmente mais poderosos do que as classificações em exames. Resulta da nossa experiência que a diminuição de alunos por turma, muito faz pela saciedade de tempo que caracteriza, hoje em dia, a tarefa do professor.

A questão operativa a formular foi: “Onde está a escola a perder tempo?” Ou, colocada a questão de outra maneira: “Qual a informação de que realmente precisamos?” Crítica generalizada era a de que alunos, professores e serviços administrativos produzem e solicitam informação que realmente não necessitam e que não será devidamente aproveitada e rentabilizada. Informação que ninguém nunca irá reutilizar. Maços infindos de papel amontoavam-se de um ano para o outro, anos a fio. Grande parte do tempo em reuniões de professores era ocupado com a resolução de trabalho burocrático. Muito poucos eram os conselhos de professores, especificamente convocados para preparar trabalho de aula. O senso comum, e a maior parte dos professores, exigiam que esta lógica se invertesse. Era, afinal, necessário tempo para providenciar tempo.

A solução tecnológica revelou-se, desde o início, uma imposição inexorável. Ela garantia a resposta a algumas das preocupações inventariadas. A maior parte dos produtos no mercado, não só não representavam soluções credíveis, como muitas delas não passaram de esforços empíricos, muito pouco flexíveis e redutores das exigências e expectativas dos utilizadores. Providenciavam alguma resposta burocrática, mas constituíam soluções medíocres quando se tratava de assegurar maior disponibilidade de tempo dos professores para as crianças. Correndo o risco real de assumir um compromisso que o futuro severamente puniria ou premiaria, decidiu-se construir estas ferramentas. Abreviando, a confecção de numerosas bases de dados articuladas entre si, tornou-se a principal investida para abordar estes problemas. Começámos a completar estas bases de dados, numa preocupação selectiva de circunscrever a informação ao que efectivamente seria para um concreto usufruto de todos. Muito do que, até aí, se pedira aos professores deixou de ser pedido e alguma informação que não se havia pedido até então passou a ser pedida. Foram seleccionadas para figurar nas bases de dados apenas as informações consideradas absolutamente indispensáveis.

O núcleo central desta abordagem informática para a gestão escolar foi constituído pelas bases de dados de alunos, de professores, de horários, de salas e de projecto de turma, num conjunto bastante mais vasto de aplicações, todas elas fortemente correlativas da realidade escolar da Escola Básica Integrada de Sto. Onofre; na maior parte dos casos, aparentemente intransmissíveis.

Contudo, tornar a informação disponível não constitui, consabidamente, o factor principal para um fluxo informativo eficaz. É claro que a tecnologia deve tornar o trabalho tradicional mais simples, mais profissional e deve consumir menos tempo para fazer aquilo que antes se fazia com mais. Foi, por isso, indispensável assegurar que todos entrariam em contacto com novas tecnologias e abertamente subestimámos toda a resistência às novas rotinas, disponibilizando - e este constitui o factor crucial de toda a inovação - ferramentas credíveis, simples e que funcionam. Ferramentas que poupem tempo precioso. Para tal foi forçoso instalar uma rede interna, confortável e segura, de computadores que assegurassem um acesso a informação necessária e certificada.

Esta adopção de novas rotinas poderá ser lenta, mas é empolgante. É necessária determinação, sim, mas sem pressas, nem atropelos. Muita formação formal e informal foi encorajada ao longo destes anos. Trata-se, reconhecidamente, de uma matéria muito delicada, esta da introdução dos meios e rotinas informáticas no meio escolar. Modificar as práticas tradicionais dos professores implica uma abundante dose de diplomacia e fundamento. O propósito final é o de articular toda a informação num único procedimento, conhecido de todos, que simplifique o trabalho administrativo e amplifique a sua eficácia. A burocracia constitui um factor indispensável de inovação e justiça. Mas, quando mal planeada, a burocracia converte-se no mais poderoso adversário das nossas crianças.
publicado por Rui Correia às 02:48
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