Quarta-feira, 1 de Junho de 2005

notas I

Notas para um balanço dos mandatos 1998/1999-1999/2002-2002/2005
do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Sto. Onofre


ponto um - um cenário de sobrelotação

Quando iniciou o primeiro mandato do Conselho Executivo da Escola Básica Integrada de Sto. Onofre, ainda em 1998, a equipa directiva encontrou uma escola com alunos a mais. Foi este o seu primeiro problema a abordar: o da sobrelotação. Um edifício escolar público preparado para acolher seiscentos alunos, tinha, afinal, matriculados um pouco mais de mil.

As consequências desta situação eram numerosas e previsíveis: dois turnos escolares, aulas na biblioteca, aulas na sala de reuniões do conselho executivo; aulas no gabinete do presidente do conselho executivo, entretanto bondosamente desocupado; desaparecimento dos gabinetes de grupo, prontamente convertidos em salas de aula; inexistência de sala de acolhimento a encarregados de educação, recebidos no meio dos corredores com choros e dramas pessoais, perceptíveis à vista desarmada; ocupação do gabinete médico para aulas de apoio; um pbx promovido a sede da associação de pais; inexistência de associação de estudantes; desaparecimento do espaço interior de recreio para alunos do primeiro ciclo, convertido em sala de aula; um ginásio ínfimo compartilhado por duas e três turmas que combatiam por espaço vital nos balneários; torneiras que não vertiam água quente por evidente periculosidade de uma válvula que ameaçava detonar a caldeira; um pavilhão distante que exigia a deportação de alunos para longe da escola por autocarros; corredores convertidos em salas de estudo, com o aproveitamento cúmplice de móveis metálicos de costas largas, azuis; aproveitamento de casas de banho para deficientes para arrecadações, ocupadas por indispensáveis máquinas de lavar roupa.

E depois outras insuficiências menos incontornáveis: um bufete exíguo com muito do seu espaço ocupado por um estorvo conhecido por balcão; um gabinete do Conselho Executivo com capacidade para duas pessoas e meia; um polidesportivo exterior, mal concebido e construído, dotado de uma insólita vedação exterior, colocada abaixo da altura do próprio piso do campo de jogos; dezenas de autocarros públicos que, ao fim da manhã e da tarde, atafulhavam o trânsito com centenas de manobras e marchas atrás com consequências que inevitavelmente se tornaram trágicas; um sistema eléctrico deficiente e incapaz de suportar as exigências mais elementares de um estabelecimento deste tipo; uma rede de holofotes cuja manutenção se revelou irrealizável, dados os custos inconcebíveis que importam para um orçamento limitado; um sistema de sinalização luminosa de saídas para situações de quebra de corrente, que solidariamente se apagava sempre que a luz também; uma canalização de gás com furtivas e inúmeras fugas que se escapavam teimosamente a qualquer esforço sério de detecção; um sistema caríssimo de rega automatizada que deixara de funcionar em pouco mais de dois anos, sem que quaisquer garantias pudessem ter-lhe valido; uma rede telefónica analógica e subaproveitada, reconhecidamente obsoleta já para a época em que havia sido instalada; um método extraordinariamente empírico de identificação de chaves e de portas, que tornava materialmente impossível a evacuação rápida de um local ou a intervenção desembaraçada de forças de emergência; a inexistência de um plano discriminado de segurança; inexistência de alarmes ou seguros de qualquer espécie; um avançado equipamento electrónico de solicitação de funcionários, directamente accionado nas salas de aula, que alguém que nunca geriu uma escola achou emblematicamente sofisticado, mas que nunca ninguém soube ou desejou pôr funcionar; um sistema de relógios que, em menos de três anos, deixou de operar, tendo falido, havia pouco tempo então, a empresa que o havia instalado. Reuniões oficiais convocadas a giz num quadro verde, um orçamento interno sem perspectiva de futuro, obedecendo a frenesis de parcimónia e de poupança que roçavam a extravagância; circulares e directrizes ministeriais que se amontoavam nas corticites da sala de professores, pregadas com fita-cola e punaises coloridos, lado a lado com ofertas de quartos para alugar, o essencial coberto pelo supérfluo. Inexistência de espaços para não-fumadores e nem mesmo uma máquina de bebidas quentes ou um distribuidor de água mineral, um quadro desta envergadura impunha um desânimo generalizado que consumia alunos, encarregados de educação, professores e pessoal não docente.

E, no entanto, no ano da sua inauguração, não obstante as dificuldades inerentes a uma escola recém-criada, a Escola Básica Integrada de Sto. Onofre havia já mostrado o que pode ser uma escola, mesmo sem máquinas de bebidas quentes nem distribuidores de água mineral. Com poucas centenas de alunos, o espaço era perfeito e o entusiasmo proliferava. Padecendo ainda de alguma imaturidade inevitável - a tipologia EBI (Escola Básica Integrada) juntava os três ciclos de ensino básico pela primeira vez em Portugal - apalpava-se terreno pedagogicamente movediço com cautela e tento. Mas professores, alunos e pessoal não docente empenhavam-se em dar um sopro de vida nova a um contexto escolar concelhio visivelmente envelhecido.

Mas depois de um ano excepcional de “instalação”, chegaram mais alunos. Muitos mais. Demasiados alunos. Nenhuma instituição suportaria serenamente esta enchente. Nenhuma gestão saberia como pôr-lhe cobro. Cinco anos após a inauguração, a Escola Básica Integrada de Sto. Onofre, parecia, afinal, destinada a reunir todas as condições para, humanamente, sucumbir a um contexto de desmotivação e de ausência de condições elementares para um regular funcionamento de uma escola.

Para combater esta sobrelotação que atingia as escolas de todo o município, em pouco tempo se viu instalada entre as escolas uma lógica surda, mas colectiva de legítima defesa, que se resumiria assim: transferir para as escolas vizinhas os “maus” alunos, os alunos com dificuldades, os alunos difíceis, os alunos problema, os alunos com necessidades educativas especiais, o que quer que se lhes chamasse. Ninguém os queria. Todos os sacudiam para o vizinho, em disputas telefonicamente indecorosas e uma vultuosa circulação postal e inútil de processos individuais, sem aviso de recepção. Esta verdadeira imoralidade educativa chegava ao ponto de se tornar sabido que a Escola Básica Integrada de Sto. Onofre era uma escola para miúdos com problemas. Uma escola também ela problema, situada num bairro tradicionalmente perspectivado como social e economicamente desfavorecido. Um bairro problema. Estava enraizado um estigma que invadiu também a própria comunidade escolar. Famílias evidentemente desprotegidas, não escondiam apertos de vária ordem e confessavam dificuldades em garantir um acompanhamento sereno e objectivo da vida escolar dos seus filhos. Meia dúzia de anos depois da sua inauguração, a comunidade escolar conhecia já de perto contrariedades disciplinares de alguma monta.

Era necessário construir uma cultura de escola sustentada em hábitos de escolaridade consistentes e, como então se começava a dizer, inclusivos. Mais simplesmente, assumiu-se como prioritária a condenação do estado crítico de sobrelotação em que entrara a Escola Básica Integrada de Sto. Onofre. Não havia possibilidade de promover a inclusão sem, abertamente, assumir uma aptidão em confrontar os desafios educativos mais difíceis que se nos colocaram.

Um dos rostos mais visíveis desta exclusão passava por uma certa forma de abandono escolar que caracterizava um grupo numeroso de alunos. Haviam desistido das aulas, mas não da escola. Por ali permaneciam, anos a fio, sem minimamente procurarem a superação das suas dificuldades. Foram então escolhidos, não sem controvérsia, não sem muita negociação, para integrarem turmas especiais. Turmas dirigidas por alguns dos mais experientes professores da escola. Escolhidos a dedo. Uns e outros. Recusar a exclusão e definir estes casos individuais como prioridades educativas e individuais foi uma das mais gratificantes e proveitosas decisões que a escola abraçou. De um momento para o outro, a escola manifestava abertamente o seu orgulho em querer alunos que noutras escolas haviam criado problemas ou que, pura e simplesmente, se não adaptaram. Confirmado o empenho desta escola em apoiar os alunos mais desamparados, começaram a surgir, lenta, mas confiadamente, as parcerias com instituições de apoio social a crianças e jovens. A comunidade começava a confiar-nos os seus casos mais sensíveis. Sentiram que aqui estavam em mãos profissionais e mãos de afeição.

A consistência desta política educativa, entretanto expressa num projecto educativo simples, que pragmaticamente enunciava a visão que a escola possuía do seu futuro próximo, começara a dar os seus frutos. Conduziu, logo no final dos primeiros anos de actuação, a uma integração bem sucedida por parte de alunos que, poucos anos antes, viam a escola como um empecilho de felicidade, um factor de prostração escolar e insolvência afectiva. Alguns destes alunos venceram por duas vezes a então já formada associação de estudantes, naquele que constituiu um desfecho notável do seu percurso escolar.
publicado por Rui Correia às 02:50
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d