Segunda-feira, 13 de Junho de 2005

silente

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Mesmo de dia, a claridade das fogueiras vê-se ao longe. A praça está repleta de gente. Vêmo-la nas ruas, agitando archotes e gargalhadas. Cantam as suas almas. Júbilo e abraços unem milhões que correm as ruas numa galhofa estrepitosa. Milhões de gestos amanhecem com alento rejuvenescido. De repente, a vitória parece-lhes – parece-nos – próxima. “Ganhámos”, gritam-nos na cara. Dão-me um encontrão no ombro, ao desafio. Depois vão embora, dançando. “Cantando e rindo”.

Entretanto, o que havemos nós de fazer com este dia? Esbofeteados nas duas faces do ânimo, com a desumanidade insuportável que resulta do sumiço destas duas coragens humanas. De dois empregos de alma. De duas cores luzentes. De duas vagas, oceânicas, de luz, de onde tantas vezes, anónima como as ondas, raiou somente a esperança. De duas existências afugentadas por “um tempo de espantosa solidão e de uma angústia para que não há nome”, como um deles nos quis dizer. Percamos, mais uma vez, a inocência e olhemos em silêncio o auto de fé, onde se queimam palavras em efígie.

Cantarolam os mil rostos do obscurantismo.
Apanho do ar uma página de rebordo ardido, com frases assim escritas:


Depois que o escudo se ajustou ao flanco e a couraça ao dono,
deixando as armas, aperta Ascânio nos braços
e beija-o de leve, sob o capacete, com tais palavras:
“Aprende comigo, ó filho, a virtude e trabalho honesto,
a fortuna com outros. Agora a minha dextra
te protegerá em combate e te levará a grandes recompensas.
Procura, logo que atingires a idade viril,
lembrar-te disto, e, fazendo por seguir os exemplos dos teus,
que te incitem a lembrança de teu pai, Eneias, de teu tio, Heitor”.

Virgílio, Eneida XII, 432-440



Dobro e guardo no bolso. A pira é enorme. Dois corpos no chão.
Perdemos, simplesmente.
publicado por Rui Correia às 14:41
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1 comentário:
De Lus Filipe Redes a 19 de Junho de 2005 às 19:01
Onde os heróis jazem, há apenas lugar, nas inscrições, para as suas virtudes. Tudo o resto é pó que é varrido pelo vento.

A Cunhal, lembro Ruy Cinatti: Amo a minha Pátria / causas perdidas / são as que me dão vida / Construo outra casa / igual, parecida

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