Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005

El Gil

Já todos tivemos pesadelos. Muitos deles ocorrem durante o sono. Outros não. Foi o caso hoje. Entreabri um olho letárgico na direcção da mesa-de-cabeceira, (que já um dia se chamou mesa da valente cabeçada), e vi, distintamente, o nome do José Cid no livro do José Gil que ando a ler. Estava lá. Claro. “Monstros - José Cid”. Acordei arrelampado, estiquei os olhos novamente na direcção do livro e amansei. Sempre era José Gil e não José Cid. Deixei-me cair de novo na cama a perceber que o dia tinha começado. Sendo tão completamente irreligioso como não sei deixar de ser, e porque nenhuma das minhas convicções lógicas exclui a fortíssima probabilidade de estar enganado em quase tudo quanto penso, decidi que Deus faz-me destas partidas, porque Deus é um tipo que me dá vontade de rir. Deus é assim como o Tino de Rans e a Fátima Campos Ferreira, só que com mais gosto a vestir-se. Aliás, levo
Deus tão a sério que já avisei a família que, quando morrer, quero ser cremado com uma T-shirt a dizer “Deus, és cá dos meus”. E, ao contrário das vozes estarrecidas do nosso tempo, não acho nada que Deus nos tenha abandonado, como conclui aquela maravilhosa obra do Mike Nichols “Angels in America”. Acho é que, como a maioria dos nossos pais, hoje em dia, o Pai nosso não tem mão nos filhos.
“Monstros, José Cid”. Para algo que não fazia sentido nenhum, o pesadelo fez-me pensar de olhos fechados. Para quem se não lembre, o José Gil é aquele professor de filosofia a quem ninguém ligou nenhuma anos a fio, até que lhe deu para escrever um péssimo capítulo a dizer mal do Santana Lopes, assim fundamentando - filosoficamente - a antipatia que todos os jornalistas e mesmo pessoas em geral nutrem pelo marialva-mor da política ao vivo. “O medo de existir” fez ainda mais outra coisa espantosa: dizia mal dos portugueses por nada mais fazerem senão dizerem mal dos portugueses. Intrigas. Que é aliás o que o próprio José Gil muito bem desvendou num outro livro dele – incomparavelmente mais excitante – sobre o “Salazar, A retórica da invisibilidade”.
Mas a verdade é que existem semelhanças entre o José Gil e o José Cid e não é apenas na vizinhança homófona do nome. O José Gil é filósofo, o José Cid também. Entre a análise do governo de Santana Lopes e a Cabana junto à praia estampa-se um grau idêntico de precisão analítica. Tal como o José Cid, o José Gil é um nome famigerado por ter tido um enorme sucesso público com a sua pior obra. O José Cid também. Quem conhece o “Domingo em Bidonville” ou “Lenda de Nambuagongo” obras maiores do cancioneiro do nosso Zé Cid? Talvez os mesmos que leram ”A metamorfose do corpo” do nosso Zé Gil. Aliás, a identidade temática das obras de um Zé e do outro Zé é indiscutível. O Zé Gil tem um livro sobre “A imagem nua e as pequenas percepções” e o Zé Cid tem o “Junto à lareira” onde diz, claramente “Vem fazer amor de madrugada / E acordar calma e cansada, às oito e meia dou-te um beijo, adeus”.
A negação do sentido impõe-se como um traço que une a obra destes dois homens. Num dos seus temas predilectos, José Gil procura encontrar o sentido da abstracção na dança e qual a relevância que a gesticulação de corpos pode ter para a filosofia. No seu “Movimento puro”, um livro dianteiro sobre dança e filosofia, ele encontra na abstracção de uma Pina Bausch a necessidade primordial de esvaziar o movimento de significado expressivo. Que é exactamente aquilo em que consiste toda a obra artística do José Cid. Esvaziar todo o significado expressivo. Aqui para nós, que ninguém nos lê, acho mesmo que José Cid é um heterónimo de José Gil. O Zé Cid é o autor da obra “Cantamos Pessoas Vivas” e o Zé Gil escreve ensaios sobre o Pessoa. Tal como o José Gil, o José Cid também vive dos ensaios. Em Espanha, o José Gil é conhecido por “El Gil”.
Enfim, sendo notório e público que nunca os vimos juntos, não é de excluir que o José Gil e o José Cid sejam uma e a mesma pessoa. Nada é de excluir. Nada é de excluir. Sobretudo a indiferença e a frivolidade com que se trata de tudo. Tudo é o mesmo. Mesmissimamente o mesmo. O que importa é que o tempo vá passando e que não se dê muito por isso. Ao menos até termos quarenta anos de idade, que é quando damos muito por isso.
publicado por Rui Correia às 22:41
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