Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005

blue treino

Desculpe lá ó Pedro Moreira, amigo, mas o concerto que deu nas Caldas da Rainha antes de ontem ficou muito aquém do que de si sempre espero e do que de si já ouvi antes. (Sobretudo no mesmo dia mundial da música em que o meu rapaz comprou a sua primeira guitarra de jazz). O casamento que procura entre as duas famílias musicais acabou em divórcio ao fim do segundo tema. Uma absoluta desvinculação intelectual e artística entre o sector da clássica e o sector do jazz; entre um competente combo de jazz totalmente acabrunhado por pautas incompletamente interpretadas e um medíocre quarteto de cordas com umas miúdas giras, que é excelente para casamentos, lançamentos de livros sobre o barroco em Mafra e recepções de empresas na Exponor. Repito: mesmo que as miúdas sejam giras. Sabe mais do que isso para dizer que se trata de um quarteto de cordas "sensacional". Muita fífia, muito prego e muita corda desafinada. Sobretudo muita corda desafinada. O Chet Atkins lá dizia, custe o que custar, doa o que doer, "Stay tuned". E se ele o disse... A Joni Mitchell também escreveu aquela música em que elogiava as "girls that really play". Faltou ali treino. Muito treino. Muita hora por ensaiar. Não era tempo de apresentar aquilo ao pessoal. Mesmo na província. Mesmo nas Caldas. Tudo não passou de um mau ensaio. A obra perdia o pé na pretensão e sobejou em disparate. A composição não é irrepreensível mas é muito boa. O que não resulta é quando a simbiose é mais proclamada do que desejada. Faltou esse desejo. Importa é que a simbiose aconteça. E nunca aconteceu, durante a noite. Uns para um lado, outras para o outro. Tudo em diametral distinção. Elas ali. Eles aqui. Toda a rara integração das cordas nos temas era tímido, nervoso e com notórios problemas de tempo.

Agora, coisas boas: cinco momentos, cinco. Um solo lacrimejante do Bruno Santos na guitarra, um poderoso e intempestivo solo do José Moreira, uns arranjos de cordas realmente necessários - a palavra é escolhida a peito por "necessário" ser o que de melhor sei dizer sobre qualquer coisa em matéria de criação artística - um silêncio competente e discreto do Sousa Machado, (dono e senhor de tudo e todos permaneceu numa eminência parda notável e impressionante). E, finalmente, um aplauso de dez minutos em pé pelo tema "recordações" que é o que mais apreciei no concerto do Pedro Moreira, e também o que me pareceu que mais lhe assenta: um seguro lirismo contemporâneo, sem receios desse lugar comum que sempre será a afeição.

Tudo o mais não passou de um casamento por conveniência. Não o desejo a ninguém. Mas sei de quem assim viva anos e anos. Não foram mãos dadas. Foram mãos que se deram.
publicado por Rui Correia às 23:59
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