Terça-feira, 8 de Novembro de 2005

Bocas Juniores

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Já não há dentistas. Dentistas como o meu primeiro dentista, pelo menos, já não há. Chamemos-lhe Dr. Portugal. Não publico o nome do meu dentista por razões que estão um bocadinho associadas ao meu instinto de sobrevivência. Aprendi cedo que não é prudente contrariar a pessoa que nos faz a barba. E um dentista agitado é o mesmo que o tal elefante numa loja de porcelanas. Por isso, ficamos já entendidos: o tal Dr. Portugal é fictício. Quer-se dizer, é mais ou menos fictício, porque Portugal é o nome do médico de Coimbra que me arrancou duas amígdalas que me tinham demorado doze anos a inchar. Mas contra esse nada tenho. Bem pelo contrário. Devo-lhe a primeira sensação de perda controlada de sentidos com um lenço molhado de clorofórmio. Uma maravilha. Recordo-me de acordar umas horas mais tarde, já desamigdalado, e contente por tudo quanto acontecia no mundo em geral.
De boca em boca, acabei um dia por ir parar ao meu primeiro dentista. Corria na cidade que era muito bom. Dizia-se. Mas isto já se sabe, em matéria de reputação de dentistas, não bastam umas bocas, porque a maioria é tudo coisas ditas da boca para fora.
Chamo-lhe o meu dentista, mas a verdade é que nada tinha de meu, o homem. O meu dentista era um tirano velho; daqueles sem pachorra para miúdos, modernices ou outras clemências. Era um descendente directo dos famosos dentistas barbeiros e trepanadores da Idade Média.
É mentira que pela boca morre o peixe. Sempre que fui ao meu dentista, por indiscutível instrução da minha mãe, saí de lá em agonia. Eu morri pela boca sempre que ia ao meu dentista. E também não é verdade que se morra só uma vez. Morria-se muitas vezes no meu dentista. Sempre que lá ia, sabia que me ia meter na boca do lobo. Mal me apanhava de boca aberta, o fictício Dr. Portugal empenhava-se numa espécie de vandalismo bocal que consistia em despachar inoxidavelmente o seu propósito de cavar dentes e retalhar gengivas.
De vez em quando, o meu primeiro dentista passava por mim na rua mas nunca me cumprimentava. Acho que nem era por mal. Acontece é que ele apenas conhecia a minha boca. O resto da minha cara era-lhe indiferente. Tudo era feito à força de um alicate e uma broca que iam sempre mais além; chegavam onde nunca nenhum homem tinha chegado antes. Eu acabava sempre com uma ou duas cáries irreversivelmente raspadas e um maxilar entorpecido.
Uma vez perguntou-me: “Dói-te mais algum dente?” Respondi “ã㔠com uma sandes de gaze na boca e abanei para os lados com a cabeça. Tinha um nervo doloroso escondido debaixo de um molar, mas não me atrevi a denunciá-lo à autoridade. Desconfiou. Olhou-me fixamente para dentro da boca. Aproximou-se de tal modo que pensei, de olhos arregalados, que o meu dentista me ia fazer respiração boca a boca. Enchi-me de pânico, por causa do seu hálito estragado. De repente, afastou-se e disse: “Boca linda”. Livrou-se de um murro no céu-da-boca.
Desde então tudo mudou. Hoje, ir ao dentista é um contentamento. Uma sorte. Tudo é asseado, transparente e asséptico. A cadeira é verde clarinho e parece-se com uma espécie de cockpit futurista, carregadinho de luzes, botões e tecnologia. Hoje tenho uma dentista. É simpática e muitíssimo paciente. Hoje ir ao dentista faz crescer ainda mais água na boca. Tanta, que a minha dentista até tem um sistema de escoamento eléctrico de saliva, astuciosamente embutido na própria cadeira. Usam microcâmaras de vídeo e fazem microradiografias. Isto para um homem é brinquedos. Os consultórios têm música ambiente. As mãos da minha dentista são de látex. Tem a minha dentadura toda registada no seu computador. Usa uma máscara de plástico transparente para não espirrarmos uns para cima dos outros. É delicada, culta e tem sentido de humor. Não é dentista. É odontologista. Não quis ser médica como as outras. Para ela, dentes é que era bom. Tem uma reprodução de um Gustav Klimt na parede. Gosto muito da minha dentista e do seu moderno consultório.
Mas isto vem tudo a propósito de outra coisa. Juro-vos que é verdade. A última vez que me sentei no ergonómico assento da minha dentista, comentei com ela a música que estava a dar na rádio. Killing me softly. Ela deu uma gargalhada cheia de dentes perfeitos. Lembrei-me então do meu primeiro dentista.
publicado por Rui Correia às 12:47
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