Terça-feira, 8 de Novembro de 2005

vinte e cinco linhas

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Bernhardt. Assim se chama o meu amigo. Um alemão bondoso de grande figura. Barba branca e riso sólido. É director dos serviços de inspecção educativa na Alemanha. O que o seu gabinete faz é, a bem dizer, coordenar as equipas do que em Portugal chamaríamos “inspecções educativas”. Ou seja, ir às escolas saber se as coisas estão a ser feitas como devem sê-lo e, caso não estejam, analisar as situações e instaurar medidas de solução. É um burocrata, verdadeiramente, o Bernhardt. Digo isto sem ressentimentos, porque não existe justiça nem democracia sem burocratas. Herr Bernhardt é um burocrata no sentido necessário do termo. Muita papelada, muita viagem e muito processo disciplinar. Muita papelada.
Mas Bernhardt não foi sempre inspector ou director. Foi também professor do Colégio Alemão durante quatro anos. Cá. Em Lisboa. Teve, portanto, um contacto demorado com o povo português e com os dias de Portugal. Vinte anos depois, ainda fala um português carregadinho de alemão, mas asseado e inteligível.
Ao saber-me em representação de Portugal numa comitiva europeia a que ele próprio pertencia, confessou-me logo o seu amor imperecível pelo nosso país – Bernhardt é um amigo íntimo de Portugal. Eu fiquei como os portugueses ficam, sempre que um estrangeiro fala bem do nosso país, que é mais ou menos aquela sensação secreta de que sei coisas que eles não sabem e que também não é agora que lhes vou dizer. Mas não tive, confesso, muito tempo para guardar segredo.
Geralmente, nestas ocasiões, os turistas falam da gastronomia, do sol, do mar, das pessoas, da simpatia, das praias, da paisagem, do fado, do vinho, do vinho do Porto, da luz, do campo, do Pessoa, do Saramago, do Eusébio ou do Figo, dos Descobrimentos, da cultura, do Alentejo, do Minho, do Algarve, dos dias de Lisboa e das noites do Porto, dos monumentos, da história e por aí diante; ou seja, falam de tudo o que os portugueses amam e que todos os dias preferem não lembrar. Não. No seu primeiro contacto comigo, Bernardt estava impaciente para falar sobre aquilo que mais o espantara em Portugal. Decretou, então, no meio de um sorriso que lhe enchia a cara:
“O pápel azul dê vintê tzinco linhas”. “O pápel azul dê vintê tzinco linhas”. De tudo o que há no mundo para começar uma bela conversa sobre Portugal, o alemão escolhera o papel azul de vinte e cinco linhas. “O pápel azul dê vintê tzinco linhas. Diz-me, Rui, áinda existe o pápel azul dê vintê tzinco linhas?”. Só então percebi que Bernhardt não foi um turista. Foi um estrangeiro em Portugal. Disse-vos: esteve connosco quatro anos. Foi, por isso, com alguma aflição que lhe disse que o papel azul de vinte e cinco linhas já não existia em Portugal. Um decreto nos anos oitenta extinguira-o. O alemão desabafou um “Schade!” (Que é mais ou menos o nosso gaita). “Ah! Que pena. Parra tudo erra prreciso o pápel azul dê vintê tzinco linhas. Sê querria uma declárratzão de qualquer coitza, um contrrato, uma autorritzação érra prritzizo o pápel azul dê vintê tzinco linhas.” Contou-me que, a conselho de um colega, a primeira coisa que comprou em Portugal foi uma resma de papel azul de vinte e cinco linhas. Foi o melhor que fez, porque acabou por usá-las todas. E teve mesmo de voltar para comprar mais.
Comprar papel de vinte e cinco linhas - lembram-se? - sendo um imperativo burocrático do nosso país, parecia sempre um acto clandestino. Em Portugal, o papel de vinte e cinco linhas vendia-se naquelas papelarias mínimas, obscuras, furtivas, sem anúncios, geralmente enfiadas na entrada de um prédio, com uma senhora de 50 anos ao balcão que nos perguntava para que era o papel, só para saber quantos selos fiscais nos havia de vender.
Depois, nada podia escrever-se à mão. Máquina. Máquina de escrever. Sem rasuras, sem correcções, assinar por cima dos selos e datar um selo de cada vez, para ficar devidamente inutilizado. Para assuntos mais sérios, indispensável o selo branco. Esse ainda hoje é. Tudo para rogar alguma coisa a alguém. Enfim, pragas.
Pobre Bernhardt. Percebeu que o seu “pápel azul dê vintê tzinco linhas” era uma lembrança de um passado extinto. Uma espécie de lince da Malcata da administração pública. Para amenizar a mágoa do meu amigo alemão, assegurei-lhe que nem tudo estava perdido. Se é certo que já não usamos o papel de vinte e cinco linhas, garanti-lhe que agora, em Portugal, já só falta acabar com a mentalidade do papel azul de vinte e cinco linhas. E que essa, esteja herr Bernhardt tranquilo, não há-de acabar com um decreto.
publicado por Rui Correia às 12:50
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