Domingo, 20 de Novembro de 2005

Fazes-me falta

pedrosa.jpe

O livro de Inês Pedrosa “Fazes-me falta” surge-me como a descrição a duas vozes protagonistas, a quatro mãos heroínas de um velar. Uma mensagem escatológica, invocada por um homem de 53 anos e uma mulher de 28 que morre, inesperadamente. O processo quotidiano de um nojo em que se procede a uma releitura de vida, das oportunidades perdidas, bem como das oportunidades saboreadas e devidamente apreciadas, na respiração atribulada e incongruente dos dias. Constitui também um virtuoso documento de referência para compreender afectivamente o Portugal dos dias que temos. Fundamente poética, senhora de uma escrita inteligente, intelectual no melhor sentido, rigorosa no conhecimento de vida que não só demonstra mas que também exige do leitor, a autora consegue sempre afirmar a sua originalidade, contornando os habituais escolhos literatos do jogo de palavras e do humor desnecessário. A experiência de vida que emana do livro parece secular. A autora conhece com inteireza a anatomia da vida em sociedade. Conhece o jogo social com aqueles limites que a vivência idealista, tanto quanto a cínica de cada um de nós, sempre impõem. O livro expõe como saber lidar com o que de mais impossível de superar existe – o desaparecimento de um amor, de um ensejo de ser feliz. Quando uma benquerença se impõe sobre o amor, os limites do amor impõem-se como uma rotina difícil. Saber como sustentar – no seu sentido bífido - a dor, olhando ao longe o temível lugar da tristeza, onde não é viável a vida humana. O lugar inóspito da incompreensão, que as mais das vezes excita a tentação de aquiescer ao divino, ao intemporal, a tudo o que não é secular e historicamente detalhado e acomodado, em legítima defesa. Conhecer o mundo que nos rodeia não passaria de uma “impaciente teoria” senão se interseccionasse com a existência e a inexistência de todos os demais. Neste sentido, existe uma sensação de partilha que, ao ser tão eloquente e humanamente expressa, gera no leitor, em mim, enfim, um sentimento de conivência e de sentido comum. Um livro prodigioso e uma revelação maravilhosa cuja leitura se impõe.
publicado por Rui Correia às 16:40
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