Terça-feira, 22 de Novembro de 2005

"e finge tão completamente"

A experiência das “aulas de substituição” na Escola Básica Integrada de Sto. Onofre tem-se revelado muito elucidativa da notória irreflexão com que decisões de tão grande monta e impacte foram decretadas. O que é revelador desta espantosa leviandade é a visível necessidade das autoridades educativas superiores em adicionar constantemente novos elementos para legitimar decisões que deviam ter sido inicialmente fundamentadas nesses mesmos dados. A conversão de horas não lectivas em lectivas que afinal o não são, a aritmética imorredoura da redução das aulas de 50 minutos para 45 minutos – cuja necessidade nunca tinha, aliás, sido sentida – entre muitas outras medidas contraproducentes, nada mais fazem senão amotinar o ambiente escolar e devorar a já minguada motivação do funcionalismo público.
À mercê das disposições legais que se impuseram sobre os professores, sem negociação e sem consulta, as escolas tiveram de criar um sistema que se abateu, pasme-se, sobre os docentes com mais anos de serviço. Hoje, os mais novos descansam e os mais velhos multiplicam o seu trabalho.

Como se isso ainda tivesse alguma importância para quem decide, há quem repita que os professores estão desmotivados. Vejamos um exemplo de como se produz este desencorajamento. Será aceitável pedir-se aos docentes que aceitem desempenhar responsabilidades de coordenação de grupos, departamentos, representação em Assembleias, reuniões, projectos, núcleos, tudo actividades que não têm de promover ou, sequer, aceitar se, ainda por cima, o fizerem sem atribuição de tempo útil para esse efeito? Repare-se: está-se a pedir aos professores que produzam mais, ao mesmo tempo que se lhes retira o tempo de que antes dispunham para o fazer. Haverá alguma empresa, por mais arrebatadamente neo-liberal ou anti-sindical, que o fizesse? O que decorre daí é, evidentemente, uma demissão crescente. Quem era negligente, vê confirmado o seu costume; quem resistia e ainda procurava ser profissional, vê-se travado a sê-lo. Premiar o mérito é, cada vez mais, uma miragem que se desvanece. Falar de avaliação assim, só por vício de retórica.

Nenhum professor quer “furos” na escola. Todos concordam. Os professores têm de trabalhar mais horas, porque o país atravessa uma crise financeira e económica grave. Encontre-se dinheiro. Não faltam ideias. Um país com constrangimentos orçamentais não pode viver acima das suas possibilidades. Não pode, por exemplo, dar-se ao luxo de ter disciplinas que já não dizem nada a quase ninguém. Disciplinas como Estudo Acompanhado ou Área de Projecto são hoje um malogro evidente. Os professores e os alunos não estão a fazer mais agora do que antes se fazia quando estas disciplinas não existiam. Numa escola com mil alunos, isso representa quase 100 horas que poderiam ser reorientadas. Para além do mais, nem sequer há ainda quem, cientificamente, concorde com a autonomização destas matérias. Todos as encaram como uma necessidade transversal. Recentemente, uma comissão científica deliberou não criar a disciplina de Educação Sexual nas escolas portuguesas por defender, também para aqui, a transversalidade. Se, mesmo assim, não tivermos orçamento capaz, não deveriam, as coisas ser feitas com tacto e com medida?

(Um parêntesis, já agora. Ninguém se atreve a dizer quanto tempo deve um professor “gastar” a preparar uma aula? É que se a aritmética das horas tem de ser assim tão implacável, somemos então: um professor tem 35 horas no horário. Se uma escola decidir inscrever 24 horas em que o professor tem de estar na escola, seja a dar aulas, seja a aguardar que o chamem para ir fazer uma substituição, então sobram 11 horas para preparar 24 aulas. O que perfaz 27 minutos e pouco de preparação. É o tempo oficial: nenhum professor deve despender mais do que meia hora para preparar uma aula. Se o fizer é porque. Por mais nada.)

Os professores são hoje uma importante resistência à mudança. São-no, realmente. Aprenderam, ao longo de anos de “mudanças” irresponsáveis que é vital ir resistindo às sucessivas negligências governativas. Contrariar tormentosas intempéries legislativas, vendavais de decisões esdrúxulas, que mudam por mudar e não mudam por fazerem sentido. Os professores são conservadores? Claro que são. A sociedade paga-lhes para o serem. Se a Pop-Art está fora de moda, não é por isso que deve deixar de ser estudada. A revolução francesa, os vulcões e a electrólise também não. É preciso trabalhar, ensinar o cânone. E ensinar implica moderação e sensatez. E muitas vezes estas confundem-se com atavismo.

Não se tome o todo pelas partes. Se o projecto é acabar com os “furos” e reduzir as despesas, seja. Mas faça-se com tempo, tacto e inteligência. Não com impaciência e inquietação. Dentro das horas lectivas do professor, atribuam-se horas de substituição. Mas se é um objectivo nacional que a educação seja uma coisa séria, então invista-se na educação dos miúdos e não se finja que as aulas de substituição não o são realmente, que as coordenações o não são realmente; que há 5 minutos a haver; que há 67 justificações para faltar ao trabalho, como se fosse melhor que não houvesse tantas. Indignidades. Não se insista nesse erro clamoroso que é fazer desabar todo um edifício legal em ruínas, justamente sobre aqueles professores com mais anos de serviço e que há mais anos têm suportado as consecutivas pilhagens de direitos adquiridos que permitem que um professor com trinta anos de serviço tenha hoje muito mais horas lectivas e maior cômputo de alunos do que um que, ainda anteontem, queimava fitas.

Mas, sobretudo, abandone-se de vez essa eterna puerilidade ministerial de pensar que é possível governar em benefício das crianças, apoucando quem com elas convive todos os dias. Todos os dias.
publicado por Rui Correia às 20:56
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1 comentário:
De Lus Filipe Redes a 30 de Novembro de 2005 às 18:01
Não há dúvida: as aulas de substituição são aulas. Embora toda a casta de sociólogos e pedo-sociólogos pretenda transformar-nos em "animadores", continuamos a ser professores de alguma coisa. É neste "alguma coisa" que está o problema: nas aulas de substituição querem que ensinemos sem complemento directo. Ora, todos sabemos que ensinar é um verbo transitivo, para mal de todos os econo-, pedo-, socio- e psico- que enxameiam o mundo da educação, sem terem o azar de serem simplesmente professores.
Alguns professores desenrascam-se muito bem. São mesmo divertidos, nesta coisa das aulas de substituição. Os alunos adoram-nos. Coitados dos miúdos, fartos de profs. que estão sempre a dar "matéria". Assim... é tão bom! Quase como se tivessem um furo!
Outros não sabem o que fazer. "Vou lhes dar uma aula de quê?"
Tudo bem! Sempre temos outras competências que aplicamos em Formação Cívica, Estudo Acompanhado e Área de Projecto, disciplinas onde temos alguns "quês" para ensinar: ser cidadão, saber estudar, saber pesquisar. Mas precisamente, são áreas curriculares, com o mesmo ewstatuto das outras disciplinas.
Agora, como temos que nos prepararmos para as aulas de substituição temos que concluir que nos aumentaram tanto a componente lectiva, como a não lectiva!

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