Sábado, 10 de Dezembro de 2005

Munich

munich.jpg


Há momentos que ficam assim, para sempre. Podem até não parecer, na altura, mas depois o tempo, essa demora apressada a que alcunhamos vida, mostra que afinal a perfeição estava lá. Como a revelar fotografias. Sem coisas por cumprir. Num pleno vagar. Um perfeito vaguear. Passear, em absoluta paz nas ruas parisienses de Budapeste, o boulevard Andrassy. Buda e Peste, a ópera, a verruga e a omnipresença de Ferenc Liszt, ou Francisco Farinha, o Danúbio verde, o nacionalismo e a praça dos heróis, os magiares de bronze com verdete e a barbarice medieval, as termas romanas captas et victas de gays, nada de conversas costumeiras, nada de cronologias, o corpo e a alma entregues ao turismo de si mesmos. Intemporal. Mãos dadas, dedos apontados e risos.

De repente, um filme a ser rodado aqui. Nas ruas parisienses de Budapeste. Connosco a vaguear. É o novo filme do Spielberg que agora faz filmes para adultos – percebe-se. Como se chama o filme, pergunto a um assistente de produção, americano em Paris, húngaro. It’s not determined yet. Um filme de época impõe que tudo seja como era. As ruas estão maquilhadas. Sente-se que estão nervosas e vão entrar em cena. Saímos dali.

Descemos a pé até ao sol excelente e calmo do Passeio do Danúbio (Dunakorzó) que fica à beira rio, entre a ponte das correntes e a ponte da imperatriz Ersebet (a Sissi, da Romy Schneider, e não a outra, que morreu a tiro). A tarde preguiça e demora a terminar. De repente, um helicóptero retalha o silêncio, o céu e o turismo e volteia um dos pilares da ponte Lanchid. A esfera da câmara vê-se, agarrada à fuselagem. Depois de muitas voltas e três ou quatro planos rasantes, a calma é devolvida às duas margens. Os habitantes de Pest estão furiosos com os americanos porque lhes rebocam os carros sem dizer água vai. Os americanos dizem-lhes que tenham calma, que este é o maior acontecimento da história de Budapeste, o que é verdade, se excluirmos o império romano, o império otomano, as invasões magiares, a primeira guerra mundial e a outra, a segunda, o comunismo e a liberdade europeia. E nós ali. A ver. A rir.

Perto e longe de tudo isto andam de mãos dadas, dedos apontados e risos.
Num cinema perto de si.
publicado por Rui Correia às 19:47
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d