Terça-feira, 13 de Dezembro de 2005

maçaditas

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Há uns dias a minha mulher saiu da Arquivo, o seu poiso continente e predilecto em Leiria, com um sorriso contido de incredulidade. Tinham-lhe feito um grande desconto num livro. Volto já. Tenho andado de roda de uma ideia que me deram os meus alunos. Fazer uma colecção de “sons em vias de extinção”, como eles colocaram a coisa. Andamos à cata de tudo o que possa, audivelmente, ser uma réstea de tempos idos e de sonâncias que evoquem lugares de um tempo que já ninguém visita. Moinhos, rebanhos, pregões, enfim, um lar de idosos para sons. Chamámos a isto O pôr do som. Dito assim, perceba-se, então, o enredo. Depois de uma noite muito mal dormida, ouvi há dias, de repente, do lado de fora da minha janela, a tradicional flauta canora de um amolador de tesouras. Levantei-me abruptamente. (Gi)acometeu-me uma tal urgência etnomusicológica, que mal tive tempo de perceber que o dia estava airoso e frio como eu gosto. Olhei de esguelha para um vale ainda deitado por baixo de um cobertor de preguiça branca. Nada disso me interessou; apenas um assobio de plástico que me fugia, à medida que vestia umas calças que confiei serem minhas. Peguei na máquina, agarrei-me a duas tesouras e fui atrás do Rafael, o amolador. Quando o apanhei, já o homem vivia acampado com o pai, a mãe e a mulher numa tenda que fica ali, mesmo por cima da geada. Disse-me que um dia o puseram numa casinha com paredes de vidro e tectos de esponja preta com bicos, à frente dum microfone, mas que nunca o tinham filmado. Disseram-lhe que tocasse. Ele tocar, tocou, mas não lhe pagaram nada por isso. Fiquei logo a saber o que ele queria que eu soubesse. Que é muito bonita a preocupação com o partimórnio mas que a vida custa mais a ganhar do que a perder. E custa. O Rafael dá o litro para afiar as duas tesouras que lhe ponho nas mãos. No meio da conversa, o homem distrai-se e parte-me uma das lâminas de uma tesoura. Fica nervoso, porque não sabe o que dizer. Mas eu sei. Deixe lá. Ele responde: Fica com ela mais pequena. E eu digo, para nos rirmos, Ainda mais? Ele ri mas não acha graça nenhuma. Já só pensa que vai ter de descontar no fim e o dinheiro faz tanta falta, porra. Ele diz porra muitas vezes para segurar a nervoseira. Eu minto-lhe coisas que o façam acreditar que não faz mal nenhum que ele me tenha partido a minha melhor tesoura, que nunca esteve, aliás, com precisão de afia. O Rafael acalma-se e continua. Faz uma nova tesoura. Corta a outra lâmina ao tamanho da que partiu e tenta ali uma simetria. Vou ficar com uma tesoura anã.
Enquanto ele afia, eu vou falando, tirando umas imagens e gravando uns sons. Ele volta a estar seguro de si. De repente, gaiteiro como é, fica satisfeito com a nova tesoura. Devolve-me as tesouras, afiadíssimas, depois de as ter testado numa farripa de pano – que as costureiras é que sabem o que é uma tesoura. Pergunto-lhe Então, quanto é? Ele diz, afiado, São trinta euros. Percebo-lhe a manha. Olho para ele com a cara do meu pai e digo-lhe que Trinta euros é muito dinheiro, que Nem pensar, que Ao menos um desconto por causa da tesoura que diabo. Rafael vacila e diz Então dez, vá, por causa da maçadita. Tal e qual: “a maçadita”. A “maçadita” é o ele ter parado para tocar flauta para a câmara. Dou-lhe vinte, porque não resisto à “maçadita” dele. Só pela "maçadita", já valeu a maçada remelenta e os vinte euros. Aperta-me a mão com franqueza e força. É o troco. Vai-se embora, agarrado à bicicleta e a soprar na flauta, mas agora mesmo para que as pessoas o ouçam e peguem em facas A menina desculpe, mas o livro que pediu já não o tenho. Aliás, ter, tenho, mas o único que tenho é este, e já está assinado pelo Baptista Bastos que o autografou para uma tal Teresa, aqui na livraria, quando cá esteve há dois anos. O melhor que posso fazer é fazer-lhe um grande desconto, pode ser? Muito obrigado e desculpe, sim? Desculpe a maçada.
publicado por Rui Correia às 01:10
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